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27/12/2007

Mesmo quando seu trabalho não está quebrado, Oscar Niemeyer o conserta

The New York Times
Nicolai Ouroussoff
O que fazer com nossos heróis da arquitetura que estão envelhecendo? E se a genialidade deles deteriorar e começarem a alterar suas próprias obras-primas?

Um exemplo poderoso é o do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, que celebrou seu 100º aniversário neste mês. Nos anos 40, 50 e 60, ele se estabeleceu como um dos maiores luminares do modernismo, adicionando a formas abstratas um hedonismo tropical sedutor que mudou a identidade do Brasil na imaginação popular e encantou arquitetos de todo o mundo.

VIDA E TRABALHOS
Reuters
Catedral de Brasília é um dos trabalhos de Oscar Niemeyer
ESPECIAL NIEMEYER 100 ANOS
EL PAÍS FELICITA ARQUITETO
SÉRGIO DÁVILA: NYT ERROU
Em Brasília, uma cidade erguida no meio de uma selva em um espaço de quatro anos, ele criou pelo menos meia dúzia de obras-primas arquitetônicas -um feito impressionante pelos padrões atuais. Niemeyer atualmente é considerado um dos maiores tesouros nacionais do Brasil e ele parece mais ativo que nunca. Ele está trabalhando em um centro cultural em Aviles, Espanha, e outro em Niterói, ao sul do Rio de Janeiro. Ele recentemente apresentou uma nova linha de móveis na feira Art Basel de Miami. E no ano passado ele se casou com sua secretária de longa data, Vera Lúcia Cabreira.

Em reconhecimento à escala heróica de seus feitos, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, apresentou recentemente um projeto de lei que conferirá status especial de marco a todos os seus prédios.

Mas a maior ameaça ao legado notável de Niemeyer pode não ser o trator de um empreendedor imobiliário ou planejadores urbanos insensíveis, mas o próprio Niemeyer.

Não se trata apenas de seus prédios mais recentes terem uma qualidade descuidada, apressada. Mas do fato de alguns de seus prédios mais reverenciados -da Catedral de Brasília ao grande eixo cerimonial da própria cidade- terem sido desfigurados pela mão do próprio arquiteto. E isto cria um dilema desconfortável: em que pontos nós -isto, o público que o idolatra, seu governo e clientes privados- temos a obrigação de intervir? Ou fazer tal pergunta é um ato espetacular de mau gosto?

Para aqueles que prestam atenção, o declínio da qualidade da obra de Niemeyer -seja por conseqüência de um momento de pouca criatividade ou pela complacência causada pela fama ou idade- está evidente desde que ele concluiu seu Museu de Arte Contemporânea em Niterói, em 1996. Repousando levemente sobre uma única coluna na beira de penhasco, sua forma branca em forma de prato tem melhor aparência tendo como fundo a vista glamourosa da Baía de Guanabara.

Mas o que falta é um toque leve capaz de atrair a pessoa mais profundamente para a obra. As superfícies de concreto são brutas e inacabadas; a estrutura carece do requinte cuidadoso que dava aos primeiros prédios uma importância texturizada e sinalizava que o arquiteto se importava profundamente com as pessoas que os habitariam.

É como se o museu tivesse sido projetado por um talento menor, capaz de imitar as linhas graciosas dos desenhos de Niemeyer, mas carecesse da técnica e paciência para elaborar o projeto até o fim.

Mas se o museu de arte é uma obra inferior que sofre em comparação às suas obras-primas anteriores, seus projetos da metade do século em Brasília são outra história: uma série de marcos do modernismo concebidos na maior escala.

Nenhuma fotografia pode preparar uma pessoa que visita o prédio do Congresso Nacional, de 1958, para a delicadeza com que ele se encaixa na paisagem. Cercado por gramados imaculados, sua forma afundada ligeiramente no solo, ele exerce uma atração gravitacional assim que a pessoa se aproxima. Uma rampa longa e estreita leva até a cobertura, onde o público pode caminhar ao redor da base da forma de tigela da Câmara dos Deputados. Tal expressão de ligação entre o governo e o povo é tão tocante atualmente quanto era na época em que o prédio foi inaugurado, meio século atrás.

Ainda mais refinado é o vizinho Palácio do Itamaraty, construído para abrigar o Ministério das Relações Exteriores. Seus altivos arcos delgados, se erguendo de espelhos d'água, são como um oásis tranqüilizador em uma vasta paisagem plana. Dentro, uma escadaria circular foi concebida como uma série de placas de concreto em posição de cantiléver. Quando você a sobe, é possível sentir o corpo se desprendendo da gravidade, uma sensação física que reforça a leveza visual do prédio.

Tais estruturas estão arranjadas ao longo de praças com a precisão de peças em um tabuleiro de xadrez. Os espaços entre elas transmitem tanto uma sensação arejada quanto uma leve tensão entre suas formas variadas, carregando o todo de energia.

Concluída em uma era em que milhões de americanos estavam fugindo das cidades para os subúrbios homogêneos da era Eisenhower, e a Europa ainda capengava em meio à sua recuperação da Segunda Guerra Mundial, Brasília parecia afirmar que o desejo erótico e a ternura humana tinham lugar na sociedade moderna. Ainda melhor, a velocidade notável de sua construção sugeria que tal utopia sensual estava tão distante quanto o próximo coquetel.

A força de tal visão reverberou pelos Estados Unidos e Europa. O Lincoln Center em Manhattan; a Empire State Plaza em Albany, Nova York; o Los Angeles Music Center, todos devem a Niemeyer. E a atual geração jovem versada em melhorias por computador encontrou inspiração em suas curvas fluidas de concreto.

Mas se o alto status de Brasília como mostra da arquitetura modernista é conhecido, a obra mais recente de Niemeyer ali mal é discutida.

Em meados dos anos 80, Niemeyer alterou a forma dos arcos que emolduram a fachada principal de seu prédio do Ministério da Justiça, sacrificando a elegância de sua simetria por algo mais caprichoso. Por volta da mesma época ele reformou a Catedral de Brasília, considerada uma de suas maiores obras. Projetada como uma série de arcos parabólicos que se abrem no topo, sua forma adicionou um toque exuberante ao eixo cerimonial. Niemeyer pintou de branco sua estrutura exposta de concreto e substituiu suas janelas elevadas por vitrais desenhados por Marianne Peretti: mudanças que depreciam a força bruta do impulso do prédio para o alto.

Mas talvez mais prejudicial seja a conclusão no ano passado do Museu Nacional e Biblioteca Nacional de autoria de Niemeyer ao longo do eixo cerimonial. O domo branco do museu, espetado em uma extremidade de uma longa rampa, descansa em sua praça de concreto com a graça de um bunker militar. As paredes curvas e falta de luz natural no interior -uma vergonha em um clima como o do Brasil- o tornam um lugar desconfortável para ver arte.

A vizinha Biblioteca Nacional é uma caixa retangular sombria coberta de telas perfuradas, remetendo às fórmulas-padrão do modernismo. Sua base arqueada, erguida sobre colunas finas, evoca um prédio genérico do governo dos anos 60.

Mas o que é pior nestes dois prédios é sua localização. Até poucos anos atrás, os visitantes podiam subir ao topo de uma leve colina de onde todo o eixo cerimonial se abria diante de seus olhos. As fileiras simétricas de prédios do governo eram interrompidas apenas pela forma exuberante da catedral e pelo complexo do Congresso, com suas torres ligeiramente descentralizadas, ao longe.

Agora tal visão é bloqueada pelas formas monótonas do museu e da biblioteca e o senso de surpresa se perdeu.

Ninguém pode culpar Niemeyer por seu desejo de continuar trabalhando; o fato de seu entusiasmo permanecer o mesmo aos 100 anos é motivo de admiração. É louvável que ele trate suas obras anteriores sem uma importância exagerada. Cidades não são obras de museu; sem mudança constante, elas perdem sua vitalidade cultural.

Mas o valor destes prédios modernistas como parte de nossa memória cultural compartilhada -a base de nossa identidade- não pode ser subestimada.

O eixo cerimonial de Brasília não é apenas uma relíquia de uma era desvalorizada ou um emblema de uma utopia fracassada. Ele é tão crucial para os valores de sua época quanto as pirâmides eram para a delas. Depreciar tal visão é uma tragédia cultural, mesmo se a mão de seu criador for a responsável. George El Khouri Andolfato

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