UOL Notícias Internacional
 

28/12/2007

Benazir Bhutto é assassinada em comício no Paquistão

The New York Times
Salman Masood, em Islamabad, no Paquistão
e Graham Bowley e David Rohde, em Nova York
A líder da oposição paquistanesa, Benazir Bhutto, foi assassinada perto da capital, Islamabad, na quinta-feira (27/12). Testemunhas contaram que Bhutto, que fazia um comício da sua campanha política, foi baleada à curta distância por um pistoleiro, e a seguir atingida por fragmentos de uma explosão que, segundo o governo, foi provocada por um homem-bomba.

Bhutto, 54, que por duas vezes foi primeira-ministra do país e que era uma forte candidata na eleição do próximo primeiro-ministro, marcada para 8 de janeiro próximo, teve a sua morte anunciada oficialmente por médicos de um hospital de Rawalpindi às 18h16, horário local. Pelo menos mais doze pessoas foram mortas no ataque, e segundo alguns relatos teriam morrido no mínimo 20 pessoas.

As circunstâncias exatas em que ocorreu o assassinato ainda não estão claras. Autoridades graduadas do partido de Bhutto disseram que ela estava saindo do local após discursar para os eleitores, quando ficou de pé, passando a parte superior do corpo pelo teto solar do veículo em que se encontrava, a fim de acenar para a multidão. Neste momento, teria sido atingida na cabeça por um franco-atirador posicionado em um edifício próximo. Testemunhas disseram ter escutado um total de dois ou três tiros, e contaram que o carro se deslocou por cerca de 50 metros até ser atingido pela explosão provocada por um assassino suicida.


HISTÓRICO DE BHUTTO
AFP
A ex-primeira-ministra Benazir Bhutto era a principal líder de oposição ao governo do país
1979: ingressa na carreira política, após o golpe que resultou no fim do governo e na execução de seu pai, o ex-premiê e presidente
Zulfikar Ali Bhutto
1988-90: é eleita premiê pela primeira vez, mas acaba deposta acusada por corrupção
1993-96: substituída por Nawaz Sharif, retorna ao cargo, mas novamente é mal-sucedida
1999: julgada, junto ao marido, por corrupção é condenada a cinco anos de prisão e a pagar multa de US$ 8,6 mi; exila-se
18/10/2007: após oito anos
de auto-exílio, retorna ao Paquistão e sobrevive, no mesmo dia, a um atentado
que mata 139 pessoas
27/12: candidata à presidência, morre em um novo atentado nesta quinta-feira
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DUAS VEZES PREMIÊ
Já outras testemunhas disseram que um único assassino abriu fogo contra Bhutto e os seus acompanhantes, atingindo-a pelo menos uma vez no pescoço e no tórax, antes de detonar a carga explosiva que trazia atada ao corpo. Abbas Hayat, professor de patologia do Hospital Geral de Rawalpindi, para onde Bhutto foi levada, disse que os médicos tentaram ressuscitá-la durante 35 minutos, mas que ela tinha ferimentos causados pelos fragmentos da bomba, além de outros na cabeça, e que apresentava um quadro de insuficiência cardíaca. Ele disse não ser capaz de confirmar se a ex-primeira-ministra tinha ferimentos provocados por balas.

O assassinato faz crescer a ameaça de protestos violentos por parte dos simpatizantes de Bhutto em todo o país, e segundo relatos alguns desses simpatizantes já saíram às ruas em Karachi e outras cidades paquistanesas.

Em uma breve declaração na televisão o presidente Pervez Musharraf pediu o apoio do povo paquistanês e declarou três dias de luto. "Esta é uma grande tragédia que eu sou incapaz de descrever com palavras", disse ele, segundo um relatório da mídia estatal.

Musharraf culpou os terroristas pelo ataque, afirmando: "O Paquistão e a nação enfrentam a sua maior ameaça por parte desses terroristas".

As condenações ao assassinato foram ouvidas em todo o mundo. O presidente Bush chamou o episódio de "um ataque covarde por parte de extremistas assassinos que estão tentando minar a democracia paquistanesa". A Casa Branca anunciou que Bush telefonaria para Musharraf.

Em uma declaração no website da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, o secretário general da organização, chamou o assassinato de "um ataque contra a estabilidade". Para Hasan Askari Rizvi, uma proeminente analista político e militar paquistanês, a morte de Bhutto é o mais recente incidente da perigosa situação política paquistanesa, e deixa o partido dela sem liderança no curto prazo, e provavelmente incapaz de concorrer efetivamente às eleições parlamentares vigorosamente disputadas, que deverão ocorrer daqui a duas semanas.

O assassinato também adiciona uma pressão enorme sobre o governo Bush no que diz respeito ao Paquistão. Washington já despejou bilhões de dólares em auxílio no país sem ter conseguido atingir os seus principais objetivos, que são encontrar o líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, e acabar com as atividades de militantes islâmicos e do Taleban nas áreas de fronteira com o Afeganistão.

Centenas de apoiadores se reuniram no comício de campanha de Bhutto, que foi realizado em Liaquat Bagh, um parque no qual tradicionalmente realizam-se eventos do gênero, em Rawalpindi, uma cidade que abriga guarnições militares, perto de Islamabad.

Em meio à confusão após a explosão, podia-se ver o local repleto de poças de sangue. Sapatos e bonés de cabos eleitorais estavam espalhados pelo asfalto, e cacos de vidros cobriam o chão. As câmeras da televisão paquistanesa filmaram imagens de ambulâncias avançando em meio a multidões de pessoas desnorteadas e feridas no local do assassinato.

Farah Ispahani, um dos dirigentes do partido de Bhutto, disse: "É muito cedo para precisar o número de integrantes do partido que foram mortos. As redes de televisão privadas estão falando em 20 mortos". Os canais de televisão também citavam fontes policiais, segundo as quais pelo menos 14 pessoas morreram.

No hospital para o qual Bhutto foi levada, um grande número de policiais começou a isolar a área, enquanto membros furiosos do partido quebravam janelas. Muitos manifestantes gritavam: "Musharraf, cachorro!" Um homem chorava histericamente, dizendo que a sua irmã havia morrido no ataque. Dezenas de pessoas na multidão batiam no peito e gritavam bordões contra Musharraf.

Nahid Khan, um assessor próximo a Bhutto, chorava em uma sala próxima ao centro de operações, e os corredores do hospital estavam cheios de pessoas de luto.

Bhutto foi alertada pelo governo, antes do seu retorno ao Paquistão, sobre a possibilidade de enfrentar ameaças à sua segurança. Em outubro, Bhutto sobreviveu a um outro ataque suicida letal na cidade de Karachi, no sul do país, no dia em que retornou ao país, depois de anos de um exílio auto-imposto, para participar das eleições parlamentares. Bhutto culpou grupos, que segundo ela desejam controlar o país, pelo ataque, que por pouco não a vitimou, mas que matou 134 pessoas. Mas ela também reclamou do governo, afirmando que este não tomou medidas suficientes para proteger a sua carreata.

O governo afirmou que ela ignorou as advertências para que não participasse de reuniões públicas, já que, segundo as autoridades, tais comícios colocavam a vida de Bhutto e dos seus seguidores em risco desnecessário.

O assassinato ocorreu apenas alguns dias após Musharraf ter revogado um estado de emergência no país, que ele utilizou para suspender a constituição e prender milhares de oponentes políticos, e que segundo ele foi imposto em parte devido às ameaças terroristas por parte de extremistas no Paquistão.

Com a frustração em Washington aumentando devido às deficiências de Musharraf e aos seus adiamentos da reinstituição do regime civil no país, Bhutto tornou-se uma solução atraente para o Paquistão. Ela era uma crítica direta da ineficácia de Musharraf para lidar com os militantes islâmicos e via com bons olhos o envolvimento norte-americano, ao contrário de um outro rival de Musharraf, o ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif.

Membros do governo Bush começaram a trabalhar nos bastidores no último verão no sentido de ajudar Bhutto e Musharraf a criarem um acordo de compartilhamento de poder a fim de orquestrarem uma transição para a democracia que deixaria Musharraf na presidência, sem entretanto fazer com que as tentativas do presidente Bush de instaurar a democracia no mundo muçulmano se tornasse alvo de zombarias.

O assassinato de Bhutto fez com que surgissem imediatamente dúvidas quanto às eleições parlamentares marcadas para janeiro. Não se sabe se elas de fato ocorrerão na data prevista ou se serão adiadas. Segundo a televisão paquistanesa, Nawaz Sharif, o outro principal líder oposicionista, afirmou que o seu partido boicotará as eleições caso estas não sejam adiadas.

O assessor de Musharraf disse que o presidente estava realizando uma reunião de emergência com autoridades graduadas do governo na quinta-feira, após a morte de Bhutto. Segundo o assessor, não se chegou a nenhuma decisão quanto a adiar ou não as eleições.

É provável que o assassinato faça com que aumentem as atenções em relação às agências de segurança do Paquistão. Bhutto há muito tempo vinha acusando a principal agência paquistanesa de inteligência, a Inter-Services Intelligence, ou ISI, de trabalhar contra ela e o seu partido por se opor à sua postura liberal e secular.

Em uma carta que enviou a Musharraf antes de retornar ao Paquistão em outubro, ela identificou "três indivíduos e outros mais" que deveriam ser investigados caso ela fosse assassinada, devido às simpatias dessas pessoas pelos militantes extremistas.

Um assessor próximo a Bhutto disse que uma das pessoas identificadas na carta é Ijaz Sha, o diretor geral do Birô de Inteligência - uma outra agência de inteligência do país - e um aliado próximo de Musharraf.

A segunda autoridade é o diretor do Departamento de Responsabilidade Governamental do Paquistão, que investigou Bhutto devido a denúncias de corrupção que pesavam contra ela. O terceiro é uma ex-liderança da província de Punjab, que maltratou o marido de Bhutto, Asif Ali Zardari, quando este estava na cadeia aguardando julgamento por denúncias de corrupção.

Bhutto nunca confirmou publicamente os três nomes na carta e não se sabe quanto nomes ela de fato mencionou. Ela reclamou de que a investigação da tentativa de assassinato em Karachi pelo governo não foi rigorosa e pediu uma investigação internacional independente. Desde então, Bhutto continuou acusando o governo de tomar poucas providências para protegê-la enquanto ela fazia campanha para as eleições.

Em uma entrevista após Bhutto ter divulgado a carta, um assessor próximo de Musharraf disse que os indivíduos mencionados na correspondência eram todos inimigos políticos da ex-primeira-ministra. Segundo ele, esses indivíduos não simpatizavam com os militantes e o governo estava fazendo tudo o que estava ao seu alcance para proteger Bhutto. O assessor afirmou que militantes afirmaram várias vezes que iriam matar Bhutto, que jurou reprimir os extremistas religiosos. Ele culpou esses extremistas pelo ataque de Karachi. Em uma entrevista concedida por telefone na quinta-feira, o mesmo assessor culpou os militantes pelo assassinato de Bhutto.

Mas analistas paquistaneses disseram que muitos paquistaneses - em especial os apoiadores de Bhutto - dificilmente aceitarão a versão de que os militantes foram os responsáveis pelo ataque. No mínimo eles deverão acusar o governo de ter feito muito pouco para proteger a ex-primeira-ministra.

"A maior responsabilidade pelo ocorrido é do governo", acusa Rasul Baksh Rais, um cientista político da Universidade de Cientistas de Administração de Lahore. "Não creio que as pessoas aceitarão essa teoria de que o que aconteceu foi obra de terroristas".

O assessor de Musharraf repeliu as acusações de membros do partido de Bhutto de que o governo não forneceu a segurança necessária à ex-primeira-ministra.

Quando questionado a respeito da possibilidade de o ataque ter sido planejado nas áreas tribais do país que estão além do império da lei - e nas quais acredita-se que Bin Laden e outros membros da Al Qaeda estejam escondidos -, o assessor de Musharraf respondeu: "Pode ser, pode ser". Militantes que residem nessas áreas tribais perpetraram um número recorde de ataques suicidas a bomba no Paquistão neste ano.

Bhutto retornou ao Paquistão neste ano em um período de grande volatilidade, em um Estado que está há oito anos sob lei militar. Ela era a líder do maior partido de oposição do país, fundado pelo seu pai, Zulfikar Ali Bhutto, um dos primeiros-ministros paquistaneses mais ostentadores e de tendências mais democráticas.

Autoridades na vizinha Índia condenaram instantaneamente o assassinato, mas não chegaram a apontar culpados ou a fazer comentários sobre as implicações do episódio para a democracia no Paquistão. O primeiro-ministro indiano, Prana Mukherjee, disse que Bhutto foi "uma líder corajosa e notável do subcontinente".

"As contribuições de Bhutto para a democracia, para a melhoria das relações entre Índia e Paquistão e para a restauração da normalidade dentro do seu país serão uma inspiração", disse ele aos jornalistas.

Em uma declaração oficial, o gabinete do primeiro-ministro Manmohan Singh a elogiou por "ter deixado uma grande marca na sua era".

O assassinato foi o assunto que dominou os telenoticiários indianos na noite de quinta-feira. Os indianos são observadores próximos da política paquistanesa e Bhutto em particular há muito tempo exercia um particular fascínio sobre eles.

Ela visitou Nova Déli em março passado, a fim de falar para um grupo da elite política e empresarial da Índia. Bhutto deu início ao seu discurso dizendo que nasceu em uma família de mártires, tendo sido recebida com aplausos calorosos. UOL

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