UOL Notícias Internacional
 

30/12/2007

EUA: candidatos debatem imigração, poderes do executivo, política externa e economia

The New York Times
Julia Preston
Adam Liptak
David E. Sanger
David Leonhardt
Nova imigração e a reação política contra ela são quase tão antigas quanto os próprios Estados Unidos. Mas o aumento da imigração na última década despertou tensões de intensidade inesperada, que impregnam as campanhas presidenciais de ambos os partidos e incitam raiva em eleitores por todo o país.

Nos anos 60, mostram números do censo, o maior grupo nacional de imigrantes era o italiano, que representava 13% dos nascidos no exterior. Hoje, os mexicanos representam um terço de todos os imigrantes. Pessoas que falam espanhol correspondem a quase metade dos 37,5 milhões de pessoas nascidas no exterior que estão no país. Os jovens imigrantes latinos levaram o espanhol para Estados que antes tinha, pouca exposição a ele, como Iowa e Carolina do Norte.

Além disso, nunca antes os imigrantes ilegais se estabeleceram aqui em tamanho número - estimado em 12 milhões. Quase 70% de tais imigrantes são de língua espanhola, vindos do México e da América Central, segundo o Instituto de Política de Imigração, um grupo de pesquisa não-partidário.

Coincidindo com o clima de apreensão que se seguiu aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, a nova imigração provocou mais do que a suspeita tradicional de que os estrangeiros estão tirando empregos dos trabalhadores americanos. Para muitos eleitores das primárias, a imigração se tornou uma preocupação urgente de segurança nacional e um desafio à identidade americana.

A nova imigração também aumentou o racha entre o governo federal e os Estados. Eleitores frustrados de ambos os partidos acusam o governo Bush de fracassar em proteger a fronteira sul contra invasores, de ser frouxo com os empregadores que contratam imigrantes ilegais e de pregar a assimilação sem fornecer recursos para as escolas locais onde os estudantes que falam espanhol estão matriculados.

O esforço fracassado do presidente Bush de conseguir a aprovação de um pacote de imigração no Congresso prenunciou as divisões presentes na campanha. Os republicanos estão divididos em torno de como proceder e os democratas estão caminhando com cuidado, temerosos de por um lado alienarem eleitores de lugares como Iowa, que estão fartos da imigração ilegal, mas por outro também preocupados em não perder o que consideram uma oportunidade de conquistar a fidelidade de uma população latina que está crescendo rapidamente.

O próximo presidente ainda enfrentará a tarefa difícil de negociar não apenas a política da questão da imigração, mas também algumas realidades bastante concretas. Apesar de cercas mais altas e batidas da imigração terem desencorajado a vinda de alguns novos imigrantes ilegais e encorajado outros a voltarem para casa, milhões de trabalhadores ilegais constituíram família, estabeleceram raízes e não vão desaparecer.


Poderes executivos
Em uma entrevista há poucos meses sobre os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o vice-presidente Dick Cheney descreveu o senso de obrigação que compartilha com o presidente Bush. Os dois homens queriam "transmitir nossos cargos aos nossos sucessores em um melhor estado do que os encontramos", disse Cheney. Ele não estava falando de decoração, estava falando de poder.

Os críticos e defensores do governo Bush podem debater se aspectos particulares de seus esforços para combater o terrorismo alteraram o equilíbrio entre segurança nacional e liberdades civis em uma direção ou outra. Mas o que quase ninguém contesta é que o legado central da presidência Bush será sua visão de um Poder Executivo forte.

Daqui um ano, o sucessor de Bush terá que decidir se aceita e talvez amplia tal visão ou - e nunca é um assunto fácil quando poder está envolvido - abre mão de parte dela.

O próximo presidente provavelmente terá que decidir o que fazer com centenas de prisioneiros em Guantánamo, Cuba, alguns dos quais estão ali há seis anos e nenhum deles ainda julgado por um crime.

Outra questão definidora para o próximo presidente: quão longe os interrogadores militares e da inteligência podem ir para extrair informação? Quando é aceitável enviar pessoas suspeitas de terrorismo para países conhecidos pelo uso de tortura?

O que representa "apoio material" ao terrorismo? Cidadãos americanos podem ser detidos por tempo indeterminado pelos militares sem serem indiciados com base apenas em uma determinação do Poder Executivo de que são "combatentes inimigos"?

E quando o governo pode interceptar comunicações de pessoas dentro dos Estados Unidos sem um mandado judicial?

Por mais importantes que sejam as respostas do governo Bush para estas perguntas, uma questão maior deixada para trás é a teoria constitucional. O presidente pode decidir sozinho o que é necessário para proteger a segurança do país?

Segundo padrões históricos de presidências em tempos de guerra, o governo Bush não adotou medidas particularmente radicais na coibição das liberdades civis dos cidadãos. Mas Bush agiu sozinho mesmo quando a autorização do Congresso era quase certa, e insistiu que a necessidade de sigilo tornava impossível a supervisão judicial e o debate público.

Cheney e Bush certamente foram bem-sucedidos no fortalecimento do poder de seus cargos. Mas não é certo que seus sucessores abraçarão integralmente o legado que os aguarda.

Política externa
Se há uma coisa na qual prestar atenção para avaliar como os candidatos presidenciais lidarão com o restante do mundo, pode ser a forma como falam sobre abraçar, mudar ou abandonar a doutrina Bush.

Tal doutrina foi interpretada de formas diferentes em momentos diferentes por pessoas diferentes, incluindo o presidente Bush e seus assessores, que a elaboraram às pressas nos dias que se seguiram aos ataques terroristas de 11 de Setembro.

Mas ela evoluiu de uma declaração preto e branco de Bush em 2001, de que os países "estão conosco ou contra nós" na luta contra o terrorismo, para sua decisão um ano depois de elevar ataques militares preventivos - e por extensão mudanças de regime - a uma estratégia de defesa, ao lado de contenção e dissuasão.

Juntamente com ela vieram os comentários desdenhosos sobre aliados fracos e a importância de nunca depender de permissão da ONU para agir.

Bush, é claro, se desviou bastante da doutrina. Ele está conversando, ou se oferecendo para conversar, com os ditadores sobreviventes que antes rotulou como sendo o "eixo do mal", e aprendeu que alguns aliados (como o Paquistão) estão com os Estados Unidos nas segundas e quartas e ausentes nas terças e quintas.

Mas os candidatos republicanos, em geral, tentam soar mais linhas-duras do que o homem que deu nome à doutrina. O senador John McCain está baseando sua campanha na premissa de que o principal erro de Bush foi fracassar em usar força esmagadora no Iraque, assim como tem perguntado se não seria menos arriscado atacar as instalações nucleares do Irã do que conviver com um Irã com armas nucleares.

Rudolph W. Giuliani se lançou como o homem que manterá os Estados Unidos seguros, reconhecendo que diplomacia é bom, mas eficaz apenas se exibir o grande porrete do contraterrorismo regularmente. Tanto Giuliani quanto Mitt Romney estão disputando quem soa mais confrontador com os iranianos.

Mas para todos os candidatos, as declarações estridentes possuem alguns riscos, como descobriram no início deste mês quando a comunidade de inteligência americana concluiu que o Irã suspendeu seu programa de armas nucleares em 2003, uma conclusão que repentinamente calou toda a conversa sobre ação militar contra Teerã.

Para os democratas, estranhamente, atacar a doutrina Bush provou ser um território um tanto traiçoeiro. É fácil para cada um deles declarar que seriam o anti-Bush. Mas isto é diferente de abandonar toda a substância e arriscar soar, ou ser, brando demais.

Economia
Em uma pesquisa Gallup de dezembro, apenas 28% dos entrevistados disseram que a economia estava em boa ou excelente condição.

Foi um número notável de várias formas. Durante a mais recente recessão, em 2001, o mesma medição nunca foi tão baixa. Ela só caiu abaixo de 30% -e depois brevemente abaixo de 20%- em 2002 e 2003, momento em que a economia estava atolada em uma recuperação sem criação de empregos e o mercado de ações estava cerca de 40% abaixo de seu pico.

À medida que 2007 se aproxima do fim, a economia está em muito melhor forma segundo quase todos os indicadores, mas como os números da pesquisa sugerem, a ansiedade econômica ainda poderá ter um grande impacto sobre a campanha presidencial.

"O sentimento econômico nunca esteve tão amargo desde 1992", disse Andrew Kohut, presidente do Centro Pew de Pesquisa. Em 1992, Bill Clinton chegou à Casa Branca com a mensagem que explorava o descontentamento do país com a economia. Na época, a economia estava lutando para se livrar dos efeitos da recessão de 1990-91.

As atuais preocupações foram agravadas pelos eventos recentes dos mercados imobiliário e financeiro e com a desaceleração da criação de empregos.

Mas a causa mais provável da ansiedade entre os entrevistados parece estar ligada à globalização e à tecnologia, assim como o fracasso da política pública em acompanhar tais mudanças.

Grande parte dos trabalhadores recebeu aumentos salariais magros nesta década. O trabalhador em tempo integral está ganhando em média 1% menos do que ganhava em 2001, após ser computada a inflação. Desde 2001, o percentual de pessoas que recebem seguro saúde de seus empregadores também caiu, de 63,2% para 59,7%.

Os candidatos na campanha presidencial de 2008 reagiram com propostas como expansão do seguro saúde e reduções de impostos voltadas para a classe média. Ainda resta um longo caminho até a eleição, mas as questões econômicas poderão se tornar mais importantes do que em qualquer outra eleição desde 1992. George El Khouri Andolfato

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