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01/01/2008

China se transforma na chaminé do mundo - parte 1

The New York Times
Joseph Kahn e Mark Landler*

Em Handan, China
Quando moradores desta cidade do norte da China penduram suas roupas para secar, a fuligem preta da vizinha Handan Iron and Steel freqüentemente os obriga a recolhê-las para lavar.

A meio mundo de distância, os vizinhos da antiga siderúrgica da ThyssenKrupp, no Vale do Ruhr, Alemanha, costumavam ter um problema semelhante. As camisas brancas que os homens vestiam para a igreja aos domingos costumavam estar cinzentas quando chegavam em casa.

Estas duas cidades siderúrgicas têm uma ligação incomum, que se estende por 8 mil quilômetros e uma década de crescimento econômico. Elas compartilham o mesmo alto forno, desmontado e enviado peça por peça do antigo coração industrial da Alemanha para a província de Hebei, o novo Vale do Ruhr da China.

Chang W. Lee/The New York Times 
Hangang recebeu permissão para lançar suas ações no mercado e expandir a produção

A transferência, uma entre dezenas desde o final dos anos 90, contribuiu para uma ampliação da produção de aço pela China, que agora ultrapassa a da Alemanha, Japão e Estados Unidos somadas. Isto deixou a Alemanha com empregos perdidos e um caso ruim de angústia pós-industrial.

Mas as siderúrgicas que expelem partículas no ar e consomem eletricidade das usinas a carvão da China são responsáveis por grande parte das crescentes emissões do país de dióxido de enxofre e dióxido de carbono. A Alemanha, por outro lado, limpou seus céus e agora está liderando a luta contra o aquecimento global.

Em sua pressa de recriar a revolução industrial que enriqueceu o Ocidente, a China absorveu grande parte das grandes indústrias que sujavam o Ocidente. Estimuladas pelo forte apoio do Estado, as empresas chinesas se tornaram as principais produtoras de aço, coque, alumínio, cimento, produtos químicos, couro, papel e outros bens que enfrentavam altos custos, incluindo leis ambientais mais severas, em outras partes do mundo. A China se tornou a fábrica do mundo, mas também sua chaminé.

Esta transferência em massa de indústrias poluidoras manchou a ascensão econômica da China. Taxas de crescimento de dois dígitos fizeram menos para melhorar as vidas das pessoas quando os danos ao ar, terra, água e saúde humana são considerados, dizem alguns economistas. Equipamento ultrapassado de produção terá que ser substituído ou adaptado a um alto custo caso o país pretenda reduzir a poluição.

A piora do meio ambiente na China também afetou a geopolítica do aquecimento global. O país produz e exporta tantos bens antes produzidos no Ocidente que muitos países ricos podem se gabar da redução das emissões de carbono, apesar das emissões em geral do mundo estarem crescendo rapidamente.

CHAMINÉ DO MUNDO
W. Lee/The New York Times
Imagem da siderúrgica Hangang
PARTE 2
PARTE 3
A China também carece de recursos naturais, incluindo minério de ferro, petróleo e madeira, para a indústria pesada e para sua própria classe consumidora em crescimento. Logo, seu crescimento pressiona o meio ambiente em lugares distantes como Canadá, Brasil, Austrália e Indonésia, onde compra matéria-prima em grande quantidade.

Dortmund, a cidade no Vale do Ruhr onde a ThyssenKrupp antes produzia aço, ainda sofre com um desemprego elevado devido aos empregos perdidos para países com custos mais baixos como a China. Mas os alemães podem comprar iPods, máquinas de lavar e navios de carga feitos pelos chineses a preços que, devido aos controles de poluição mais brandos, não refletem o custo ao meio ambiente. E a terceirização de indústrias poluentes lhes propiciam um ar e água mais limpos.

"Me parece que a China está cometendo todos os erros que cometemos no século 19", disse Wilhelm Grote, um regulador ambiental em Dortmund, que lembra de quando lavava o carro de seu pai na juventude, apenas para vê-lo imediatamente coberto de fuligem. "Eles descobrirão que é muito mais caro consertar depois do que fazer direito desde o início."

Ao ignorar as conseqüências ambientais de sua farra industrial por anos, a liderança do Partido Comunista agora diz que está determinada a desenvolver um modelo econômico mais limpo. Pequim tanta fazer valer metas ambiciosas -até o momento não cumpridas- para melhorar a eficiência em energia e reduzir as emissões.

As autoridades se dizem particularmente preocupadas com o custo ao meio ambiente de produzir mais de US$ 1 trilhão por ano em bens para venda no exterior. Do total de emissões de carbono da China, que segundo algumas estimativas agora ultrapassam as dos Estados Unidos, apenas pouco mais de um terço resultam da produção de produtos para consumidores estrangeiros, segundo a Agência Internacional de Energia, um grupo de pesquisa e política de energia em Paris.

A agência central de planejamento do país barrou recentemente a compra de alguns equipamentos industriais usados do exterior, exigindo que as empresas instalem sistemas mais novos e eficientes no consumo de energia. Ela cancelou muitos incentivos concebidos para promover as exportações, especialmente para empresas que consomem energia em excesso e poluem demais. As autoridades alertaram as empresas que violar as leis ambientais lhes custarão suas licenças para exportação.

"Algumas empresas estão abusando do meio ambiente para reduzir os preços para exportação", disse Chen Guanglong, um alto funcionário do Ministério do Comércio, ao anunciar uma repressão aos poluidores neste ano.

"Elas vendem seus produtos no exterior, mas a poluição fica em casa."

Mas há poucos sinais de que as autoridades chinesas realmente lamentam o fato do país ter se tornado um centro mundial de indústria pesada. O investimento em novas usinas e equipamentos para aço, alumínio e cimento aumentaram acentuadamente apesar dos planejadores centrais alertarem que o setor receberá menos apoio do Estado. As exportações de aço da China para a União Européia deverão dobrar neste ano em comparação ao recorde estabelecido em 2006.

A 480 quilômetros ao sul de Pequim, a cidade de Handan é tanto uma beneficiária quanto uma vítima.

Hangang, como a siderúrgica local costuma ser chamada, é uma das favoritas do governo, tendo recebido permissão para lançar suas ações no mercado e expandir a produção. Isto apesar dela, como muitas das maiores empresas de aço da China, estar situada dentro de uma cidade populosa.

Os moradores do lado oeste de Handan vivem em meio ao miasma de pó e fumaça que as autoridades ambientais reconhecem conter numerosos carcinógenos. Após protestos públicos, a empresa concordou em pagar uma "taxa de poluição" anual para compensar alguns vizinhos.

O Ruhr recebe um tipo diferente de subsídio. A Alemanha e a União Européia se comprometeram a destinar quase US$ 22 bilhões para transformar a região em um centro de educação, tecnologia e turismo. Tratores estão transformando o terreno da antiga usina da ThyssenKrupp em uma comunidade com terraço na encosta, com lojas, restaurantes e casas em volta de um lago artificial. George El Khouri Andolfato

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