UOL Notícias Internacional
 

01/01/2008

China se transforma na chaminé do mundo - parte 2

The New York Times
Joseph Kahn e Mark Landler*

Em Handan, China
Mudança radical
Hangang foi criada por uma lei de Mao. Em 1958, o líder chinês incitou seu povo a sacrificar tudo, incluindo seus potes e panelas, na primeira tentativa da China de se tornar uma superpotência do aço. Ele chamou a campanha de Grande Salto à Frente.

Handan, uma cidade antiga mas negligenciada nas planícies áridas da província de Hebei, no sul, apresentava duas vantagens: veios ricos de carvão e minério de ferro e um fácil acesso à principal linha ferroviária norte-sul.

"A antiga cidade de Handan deve ser rejuvenescida como capital do aço", proclamou Mao. Em termos econômicos, Hangang não foi mais bem sucedida do que o restante do Grande Salto à Frente, que provocou fome em massa. Ela sobreviveu por décadas devido aos subsídios do Estado, fornecendo benefícios aos seus 30 mil funcionários mas produzindo metais ferrosos de baixa qualidade que proporcionavam um retorno ruim.

Chang W. Lee/The New York Times 
Operário trabalha em Hangang, siderúrgica localizada em Handan, na China

Nos anos 90, Hangang passou a ser pressionada para dar lucro. Apoiada por empréstimos de bancos do Estado e pelo lançamento de ações na Bolsa de Xangai, ela deu início a uma reforma visando modernizar sua linha de produção. Mas suas ambições ultrapassavam em muito seu orçamento. A empresa precisava de uma solução radical e barata para transformar a siderúrgica.

A resposta veio da Europa, particularmente do Vale do Ruhr.

O Ruhr foi a sala das máquinas da indústria alemã desde meados do século 9. Ela era rica em carvão e zelo prussiano. Mas nos anos 60, a idade de ouro industrial da Alemanha começou a perder intensidade. Os mineiros precisavam cavar mais fundo para extrair carvão, o que se tornou economicamente desvantajoso. Os impostos e os custos trabalhistas aumentaram, enquanto a reunificação sujeitou as empresas da Alemanha Ocidental à concorrência subsidiada da Oriental. As siderúrgicas também enfrentaram forte pressão do governo para instalar os mais recentes controles de eficiência e ambientais.

"Nos anos 80 nós ainda sonhávamos que se tratava apenas de uma desaceleração temporária e que voltaríamos a crescer fortemente", disse Michael Schwarze-Rodrian, diretor da Agência de Desenvolvimento de Negócios do Ruhr. "Mas as pressões foram demais. Nosso tempo passou."

A Thyssen e Krupp fundiram suas operações de aço em 1997 e consolidaram sua produção em Duisburg, no Reno. A siderúrgica de Dortmund, chamada Phoenix e que era uma das maiores da Alemanha desde antes da Segunda Guerra Mundial, foi condenada ao fechamento e provavelmente se transformaria em sucata.

Isto é, até que a Hangang soube que poderia comprar um alto forno alemão relativamente sofisticada por uma fração do que custaria um novo.

"A mudança da indústria mundial do aço deu a Hangang esta oportunidade", disse Liu Hanzhang, presidente da Hangang, para a imprensa local após comprar o alto forno da Phoenix em 1998. "Algumas pessoas acham que somos uma siderúrgica de baixa tecnologia. Mas nós nos tornaremos de primeira classe."

A Hangang enviou funcionários para Dortmund. Eles rotularam cada parte do alto forno de sete andares, então o desmontaram e o embalaram em milhares de engradados de madeira para a longa viagem ao porto de Tianjin.

"Eles trabalharam dia e noite", disse Erwin Schneider, um porta-voz da ThyssenKrupp. "Eles nunca teriam feito o trabalho tão rapidamente se fossem regidos pelas leis trabalhistas alemãs."

Não foi o único caso. A Hangang gastou sozinha US$ 800 milhões na importação de equipamento novo e usado, segundo dados da empresa. Ela comprou um forno panela e equipamento de lingotamento usados da Société Métallurgique de Normandie da França. Ela comprou outro alto forno e uma máquina de sínter da Arbed, em Luxemburgo.

CHAMINÉ DO MUNDO
W. Lee/The New York Times
Imagem da siderúrgica Hangang
PARTE 1
PARTE 3
Outras empresas chinesas correram para a liquidação européia, destituindo Dortmund de seus ativos. A ThyssenKrupp vendeu as partes restantes da usina Phoenix para o Shagang Group, uma siderúrgica privada no Rio Yangtze, em 2000. E em 2003, 400 operários chineses desmontaram a usina de coque Kaiserstuhl em Dortmund, que tinha sido construída apenas poucos anos antes para atender aos padrões ambientais europeus.

Negócio sujo
Expelindo e martelando 24 horas por dia, a usina de coque, ferro e aço de Hangang ocupa uma área de 10 quilômetros quadrados e lembra um museu vivo da era industrial. Seu forno a carvão mais antigo, corroído, poderia ter pertencido a Andrew Carnegie. O mais novo, parte de uma grande expansão, usa o calor emitido para gerar força, uma tecnologia que economiza energia.

O equipamento usado europeu se enquadra em um ponto intermediário. Foram necessários vários anos para a Hangang integrar este equipamento na colcha de retalhos de suas linhas de produção. O equipamento da Phoenix foi batizado de alto forno Nº 7. O equipamento da Normandia e de Luxemburgo se tornaram parte da oficina de aço Nº 3.

Enfrentando uma forte concorrência do saturado setor siderúrgico da China, a Hangang ainda não gera lucro de forma consistente. Mas a farra de compras aumentou sua produção. Na década após 1996, sua produção cresceu 350%.

Com brilho amarelo e vermelho, as chaminés chamejantes da Hangang emitem gases e inflamam o céu noturno. Uma frota de locomotivas a diesel para transporte de carvão sacode as casas rurais e prédios de apartamento que cercam os muros externos da usina. Para os 8,5 milhões de moradores de Handan, e especialmente para os dezenas de milhares que vivem à sombra da siderúrgica, o complexo é um leviatã barulhento, nocivo, gerador de dinheiro e empregos.

Tian Lanxiu subiu no telhado da casa de um vizinho na aldeia de Mengwu para ver a extensão de Hangang e além. No horizonte cinzento ela apontou para o alto forno Nº 7 -"aquele que os alemães ocidentais vieram consertar". Perto dali fica uma unidade de resfriamento que emite vapor branco, e uma usina de coque que emite uma descarga amarela.

Tian disse que ela e outros aldeões aprenderam a conviver com as emissões de Hangang. As pessoas não comem ao ar livre, ela disse, para evitar a fuligem preta no seu arroz. E quando as crianças não conseguem dormir à noite, ela tampa os ouvidos delas com algodão.

Algumas pessoas em Mengwu morreram jovens, ela disse, freqüentemente por problemas cardíacos ou câncer. Ela não tem evidência que ligue suas mortes à siderúrgica, mas diz ter pouca dúvida. "Hangang tira 10 anos da vida das pessoas", ela disse. "Todos nós queremos viver mais. Nós estamos nos tornando mais conscientes."

Representantes de Hangang recusaram os vários pedidos para discussão dos controles ambientais e de produção. Mas a empresa disse em entrevistas para a imprensa doméstica que, juntamente com a modernização de suas instalações de produção, ela instalou equipamento de controle de poluição e melhorou o ambiente na região.

Autoridades do governo em Handan também se recusaram a discutir a siderúrgica. Mas um estudo de 2006 de autoridade da cidade e da Universidade de Tianjin apontou níveis anormalmente altos de substâncias químicas da família do benzeno ligadas às partículas de pó de carvão ao redor de Handan.

As concentrações no ar de benzopireno, um subproduto do coque que alguns estudos associaram ao câncer de pulmão, estavam bem acima da média chinesa e pouco abaixo do nível medido em duas das áreas industriais mais poluídas do país, Lanzhou e Taiyuan, disse o estudo. Lanzhou, ele disse, apresenta concentrações de benzopireno mais de 100 vezes acima dos níveis registrados em Londres.

As autoridades de Hangang já consideraram afastar suas linhas de produção mais antigas, mais poluentes, para mais longe da cidade. Autoridades ambientais locais disseram para a imprensa estatal em 2005 que se a siderúrgica deslocasse uma parte de suas operações, os níveis de dióxido de enxofre em Handan cairiam 65%. Hangang no final decidiu não mexer em suas instalações mais antigas, disseram várias pessoas que trabalham na empresa, porque o custo era proibitivo. Em vez disso, Hangang e a Baoshan Iron and Steel de Xangai se uniram para construir outra usina em novo local. A antiga usina da Hangang continua em operação.

As pessoas que moram perto da siderúrgica realizaram alguns protestos contra a poluição ao longo dos anos. A polícia interveio e prendeu alguns manifestantes. Mas a empresa também buscou reduzir a inquietação dando empregos e outros benefícios aos moradores da área.

Há dois anos, Tian e um grupo das mulheres mais idosas realizaram um protesto sentado em alguns trilhos ferroviários, exigindo que a Hangang pagasse pela mudança delas para apartamentos distantes da siderúrgica, disse Tian.

A Hangang se recusou. Mas posteriormente concordou em pagar a elas um subsídio em vez da mudança, o que os moradores chamam de "taxa de poluição".

Em um muro ao longo da rua da aldeia, as autoridades colaram tiras de papel de arroz azul listando os nomes de cada um dos chefes da cada lar e seu pagamento pela poluição. Tian disse que recentemente recebeu seu terceiro pagamento anual, totalizando US$ 140. George El Khouri Andolfato

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