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01/01/2008

China se transforma na chaminé do mundo - parte 3

The New York Times
Joseph Kahn e Mark Landler*

Em Handan, China
A vantagem da China
A China ultrapassou os Estados Unidos e se tornou a maior produtora de aço do mundo há 10 anos. De lá para cá, a produção de aço tanto nos Estados Unidos quanto na Alemanha permaneceu praticamente inalterada, enquanto a China os deixou comendo poeira. Suas usinas quintuplicaram sua produção ao longo da década, para cerca de 38% do total mundial.

Esta é uma realização do sonho de Mao. Mas o aço também provou ser uma maldição. A China conta com 77 siderúrgicas grandes como a Hangang, e centenas de concorrentes menores. Elas possuem tamanho excesso de capacidade que a produção de alguns produtos básicos de aço se tornaram deficitários domesticamente e no exterior. Pior, o aço polui mais do que qualquer outra indústria na China, talvez no mundo.

Apesar do esforço do governo para promover a eficiência, o aço usará 11% a mais de energia neste ano do que no anterior, um décimo da oferta total de energia do país, segundo a Associação de Ferro e Aço da China.

Chang W. Lee/The New York Times 
Siderúrgica Hangang, segundo estudos, reduz em 10 anos a expectativa de vida das pessoas

Juntamente com o alumínio e o cimento, o aço é o maior motivo para a China ter adicionado 90 gigawatts de capacidade de geração neste ano, o terceiro ano consecutivo em que aumenta sua produção de energia em mais do que a capacidade total do Reino Unido. Cerca de 85% destas novas usinas de força queimam carvão.

A Agência Internacional de Energia, que previu há poucos anos que as emissões de carbono da China não se igualariam às dos Estados Unidos antes de 2020, agora acredita que a China já assumiu a dianteira neste ano.

Chen Kexin, um economista do Ministério do Comércio da China, disse que as fracas leis ambientais e a energia ainda barata, mais do que os baixos custos do trabalho, permitiram aos produtores de aço chineses a redução de seus preços. "A ausência de proteção ambiental é um dos principais motivos para nossas exportações serem mais baratas", disse Chen. "Isto dificilmente é uma 'vantagem' da qual devemos nos orgulhar."

De fato, Pequim começou a desencorajar a exportação de aço. Ele não apenas eliminou as restituições do imposto de exportação para muitos produtos de aço em abril, mas também adicionou uma sobretaxa a alguns. As autoridades esperam uma desaceleração do crescimento das exportações.

Mas Chen disse que a China atualmente domina tanto o comércio internacional de aço que qualquer redução de suas exportações provocaria um aumento de preços no exterior, mantendo o aço local competitivo. "Poderá levar anos para restaurar uma balança comercial mais normal", ele disse.

A transferência da poluição para a China também complica os esforços internacionais para reduzir as emissões dos gases responsáveis pelo efeito estufa e para o acerto de um plano para suceder o Protocolo de Kyoto, uma questão que será discutida ao longo dos próximos dois anos.

Um benefício aparente da ascensão industrial da China é que os países desenvolvidos desaceleraram ou reduziram suas emissões de carbono, um benefício político e ambiental à medida que cresce a pressão para combater a mudança climática. Mesmo os Estados Unidos, que se recusaram a estabelecer limites às emissões de carbono, recentemente apresentaram pequenos declínios. Mas os ganhos são ilusórios.

Um estudo de pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon apontou que se todos os bens que os Estados Unidos importaram entre 1997 e 2004 tivessem sido produzidos domesticamente, as emissões de carbono americanas teriam sido 30% maiores.

Outro estudo do Parlamento Europeu examinou a transferência da produção de aço da Alemanha para a China. Ele apontou que as siderúrgicas menos eficientes da China, assim com sua maior dependência do carvão, fazem com que o país emita três vezes mais dióxido de carbono por tonelada de aço do que os produtores de aço alemães emitiriam.

Do ponto de vista de Pequim, suas exportações de aço e outros produtos "carbono intensivos" fornecem mais um motivo -juntamente com suas emissões per capita ainda moderadas e seu baixo padrão de vida- para rejeitar a criação de limites obrigatórios de emissão de carbono. Os países ricos, ele diz, devem reduzir suas próprias emissões acentuadamente e transferir tecnologia para que a China não polua tanto quanto esses países durante seus booms industriais.

Alguns importantes economistas ambientais concordam. "A pegada dos países ricos é muito grande, porque empregam recursos de outros países", disse R. Andreas Kraemer, diretor do Instituto Ecológico para a Política Ambiental Européia e Internacional, em Berlim. "A China diz: 'Sim, nossas emissões vão aumentar, mas isto porque estamos produzindo os bens que antes eram produzidos na Europa e nos Estados Unidos'."

Alguns ambientalistas dizem que os países ricos devem se concentrar em reduzir seu consumo em vez de sua produção de carbono. Isto os obrigaria a conter o que importam da China e outros lugares.

CHAMINÉ DO MUNDO
W. Lee/The New York Times
Imagem da siderúrgica Hangang
PARTE 1
PARTE 2
Tanto o Parlamento Europeu quanto o Congresso americano discutiram uma taxação de bens carbono-intensivos importados, como aço e outros produtos de indústria pesada. Em teoria, isto desencorajaria a transferência da produção para o exterior para driblar as limitações de emissão de carbono ou das taxas domésticas. Mas tais propostas continuam teóricas, enquanto a transferência da indústria pesada para a China é inexorável.

Segunda chance
A Alemanha é o espelho da China. Fábricas poluentes emigraram para o exterior. A mineração de carvão encolheu. Desde 1990, a Alemanha reduziu suas emissões anuais de carbono em 19%. A transformação da Alemanha data dos anos 70, com as primeiras tentativas para limitar o chumbo na gasolina, mas ganhou força nos anos 80, com a fundação do Partido Verde, o primeiro partido ambientalista a ganhar proeminência nacional na Europa. Em 1986, estimulada em parte pelo desastre nuclear de Chernobyl, a Alemanha Ocidental criou um ministério dedicado a proteger o meio ambiente.

Ele tinha muito o que fazer. As florestas da Alemanha foram seriamente prejudicadas pela chuva ácida, fuligem e poluentes químicos das fábricas no Ruhr. O Rio Reno, que flui para além da divisa oeste do Vale do Ruhr, estava desprovido de vida aquática.

A reunificação alemã em 1990 impôs ao país as usinas a carvão marrom de baixa qualidade da Alemanha Oriental, as mais sujas da Europa. A Alemanha limpou o Oriente, fechando muitas fábricas de baixa eficiência e conseguindo reduções acentuadas nas emissões de carbono.

A reunificação também produziu uma nova geração de líderes políticos verdes. A chanceler Angela Merkel, uma física da Alemanha Oriental, entrou na política em 1994, quando o chanceler Helmut Kohl a nomeou ministra do Meio Ambiente.

Merkel, que recebeu o apelido de "chanceler do clima", tem defendido acordos multilaterais para reduzir as emissões de carbono, apesar da forte resistência dos Estados Unidos às reduções obrigatórias.

Em 5 de dezembro, o governo dela aprovou uma legislação para reduzir as emissões da Alemanha em 40% adicionais até 2020. "A Alemanha quer dar o exemplo", ela disse.

Dortmund e outras cidades do Ruhr nunca se recuperaram plenamente dos empregos perdidos para os novos titãs do aço da China. O índice de desemprego na cidade ainda paira em torno de 15%, 50% mais alto do que a média nacional.

Walter Schwalen, um ex-trabalhador siderúrgico de 68 anos, apontou pela janela do segundo andar de seu prédio para o buraco preto onde os altos fornos da Phoenix funcionavam.

Ele disse que assistiu de sua janela a equipe de operários chineses desmontar e embalar seu antigo local de trabalho em 1998. "Eu pensei: 'Nossa pobre Alemanha'", ele disse. "Uma empresa atrás da outra está fechando. A Alemanha está arruinada."

Mas a região do Ruhr também é um laboratório para a transição para uma era pós-industrial. Antes sinônimo de sujeira, onde os motoristas acendiam os faróis de seus carros na metade da manhã para ver em meio à névoa de fumaça de carvão, ela foi nomeada uma capital européia da cultura para 2010, com suas minas e usinas transformadas em museus ou centros de arte.

Em Essen, uma mina de carvão esgotada foi convertida em museu e centro de artes, assim como foi designada um Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Em Bochum, uma usina a gás de 105 anos agora se transformou em sala de concerto. A Alemanha também planeja gastar US$ 7 bilhões para resgatar outro legado de seu passado poluído: o Emscher, um rio de 84 quilômetros de extensão que sofreu a indignidade de ser transformado em canal de esgoto industrial no final do século 19. O Emscher recuperado será margeado por uma área de parque, a espinha dorsal de uma Trilha da Herança Industrial de 399 quilômetros para turistas.

Dortmund, que em 1960 tinha 40 mil pessoas trabalhando em siderúrgicas, agora tem menos de 3 mil. Mas há 12 mil novos empregos em tecnologia da informação e 2.300 em nanotecnologia, que se enraizou aqui nos últimos cinco anos. A região, que antes não tinha universidades, agora tem seis, assim como oito faculdades, com um total de 160 mil estudantes matriculados.

Mesmo o terreno da Phoenix está ressurgindo. A cidade deixou dois velhos altos fornos ali como um centro corroído do que esperam que se transformará em um complexo de artes ao ar livre. Além de um lago e um complexo residencial, o governo está construindo um escritório para novas empresas.

"Foram necessárias três gerações para fazer isto ao meio ambiente", disse Schwarze-Rodrian, da Agência de Desenvolvimento de Negócios do Ruhr. "Eu acho que é razoável que leve uma geração para consertar."

* Reportagem de Joseph Kahn, em Handan, China, e Dortmund, Alemanha; e de Mark Landler, em Dortmund. Jake Hooker e Ma Yi, em Pequim e Handan, e de Sarah Plass, em Dortmund e Frankfurt, Alemanha, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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