UOL Notícias Internacional
 

01/01/2008

Escassez de alimentos e HIV combinados em Uganda

The New York Times
David Tuller

Em Mbarara, Uganda
Na clínica de Aids daqui, as histórias são brutais. Um jovem pastor de gado, infectado pelo HIV juntamente com sua esposa, me conta que todos seus quatro filhos morreram antes de completar 3 anos.

Uma mãe de cinco, também infectada, relata que após seu casamento ela foi forçada a ter relações sexuais com os três irmãos de seu marido, de acordo com a tradição tribal.

E a maioria dos pacientes que encontrei diz que eles e suas famílias lutam para conseguir se alimentar, nunca longe do limiar da fome. Muitos dizem que as drogas anti-HIV aumentaram drasticamente seu apetite e os fazem ansiar por mais comida.

"Às vezes sinto tanta fome", diz um viúva de 44 anos. "É tão intensa. Meu corpo todo treme de fome. Mesmo quando acabo de comer, sinto fome novamente minutos depois. É um grande problema, porque nem sempre tenho comida."

Como jornalista e estudante de pós-graduação em saúde pública, eu estou em Uganda para cinco semanas como membro de uma equipe de pesquisa que investiga se a "insegurança alimentar" -a dificuldade persistente de encontrar o suficiente para comer- mina a eficácia do tratamento contra HIV.

Eu estou entrevistando dezenas de pacientes -anonimamente, como é a norma em tais pesquisas qualitativas- sobre o que eles comem, quanto alimento dispõem, se o cultivam ou o compram e se os efeitos colaterais dos medicamentos são piores se tomam as pílulas de estômago vazio. Nossa equipe também quer saber se os custos relacionados ao tratamento limitam sua capacidade de comprar alimentos básicos e se a fome força as mulheres a aceitarem fazer sexo sem preservativo em troca de alimento ou dinheiro.

O estudo faz parte de uma colaboração entre a Universidade da Califórnia, em San Francisco, e a Universidade de Ciência e Tecnologia de Mbarara, uma instituição de prestígio nesta pequena e movimentada cidade a sudoeste de Kampala, a capital de Uganda. Outros pacientes serão acompanhados por dois anos para monitoramento de como a insegurança alimentar afeta seus regimes de medicamentos, doenças e taxa de mortalidade.

Doadores ocidentais aumentaram a distribuição de drogas anti-retrovirais na África sub-Saara. Mas fizeram pouco para assegurar que aqueles que as recebem não morram de fome ou tenham que optar entre pagar por transporte até a clínica ou alimentar seus filhos. Estudos como este buscam demonstrar que embalar ajuda alimentar juntamente com as drogas anti-HIV ou reembolsar os pacientes pela viagem podem melhorar a saúde e salvar vidas.

Uganda foi saudada por seu sucesso em reduzir o número de infectados pelo HIV, com a prevalência entre adultos caindo para menos de 7% em 2005, em comparação a 15% em 1991. Tal sucesso não é aparente do meu posto de observação, um pequeno escritório de canto em uma clínica daqui.

Toda manhã dos dias úteis, mais de 100 pessoas lotam a clínica. Cerca de dois terços são mulheres, muitas envoltas em cores brilhantes. Os homens freqüentemente se recusam a serem examinados ou a procurar tratamento. Os pacientes se amontoam em bancos nos corredores, carregando crianças e aguardando para passar por médicos ou orientadores e pegar sua cota mensal de medicamentos.

As mulheres, em particular, enfrentam o que antropólogos médicos chamam de "violência estrutural", as restrições sociais, culturais e legais que freqüentemente tomam delas o controle sobre seus próprios destinos e o de seus filhos.

Seus relatos de surras, negligência e estupro, e maridos e namorados infiéis e ausentes, não mostram exatamente as qualidades mais atraentes do ser humano do sexo masculino. Mais de uma mulher me diz que foi infectada porque seu companheiro HIV positivo a ameaçou de abuso ou abandono caso se recusasse a fazer sexo sem preservativos.

"Eu costumava dizer ao meu marido que devíamos usar camisinha, mas ele se recusava", diz uma mãe de quatro com tom mais resignado do que amargo. "Se não fizesse sexo sem preservativo, ele se recusaria a trazer comida para casa ou a cuidar das crianças."

A maioria das pessoas entrevistadas cultiva parte ou toda sua comida, ou cultivam terrenos de outras pessoas em troca de itens básicos. Os pratos básicos são o matoke, um mingau rico em carboidratos feito de banana-da-terra, e posho, um mingau rico em carboidratos feito de farinha de milho. Eles são servidos com "molho", se disponível -feijão, uma pasta feita de amendoim ou outra fonte de proteína. Carne, frango e peixe são luxos. Muitas famílias só podem comprá-los uma vez por ano, quando conseguem.

Para conseguir se sustentar, os pais realizam triagens desesperadas, navegando entre decisões ruins e ainda piores.

Se permitirem que seus filhos famintos comam tudo o que a família cultiva, eles não terão nada para vender no mercado. Se não venderem parte da colheita, eles não terão dinheiro para a visita mensal à clínica para pegar os medicamentos que os mantêm vivos.

Mas toda vez que vão até a clínica, eles perdem um dia inteiro de trabalho e gastam um dinheiro que poderia ser usado para alimentar as crianças.

"Eu me sinto mal por ter gasto o dinheiro em transporte quando poderia tê-lo gasto em outra coisa", diz uma mãe. "E nos dias que passo na clínica, é claro, eu sei que não realizarei o trabalho necessário."

Ouvindo os relatos de pobreza e privação, eu me sinto impotente e miserável. Eu prometo a mim mesma que nunca mais considerarei uma refeição decente como sendo certa.

Eu tenho vontade de esvaziar meus bolsos e distribuir dólares para cada paciente que entrevisto. Em vez disso, eu lhes compro uma xícara de chai, um chá africano leitoso, na cantina da clínica. O chai custa 300 xelins ugandenses, ou 18 centavos de dólar. Para a maioria, é um luxo fora de seu alcance.

Às vezes me pergunto qual é o sentido de pesquisar isto? Por que simplesmente não dar comida para pessoas tão obviamente necessitadas? Mas os doadores internacionais exigem dados e documentação. Eles querem prova de que a intervenção reduzirá o índice total de miséria antes de desembolsarem milhões de euros em novos programas, mesmo quando a necessidade parece evidente.

Eu voltarei para casa quando meu trabalho aqui for concluído. Eu analisarei os dados, escreverei minhas conclusões e esperarei que aquilo que faço possa contribuir de algum forma para a mudança.

Os homens e mulheres que conheci viajam até a clínica uma vez por mês, se conseguirem juntar US$ 5 ou US$ 8 pela passagem de ônibus. Eles passam por uma consulta, pegam seus medicamentos na farmácia e se perguntam onde encontrarão feijão e matoke suficiente para alimentar seus filhos amanhã. George El Khouri Andolfato

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