UOL Notícias Internacional
 

01/01/2008

Na terra e na água, identificando o trajeto de uma onda gigante

The New York Times
Claudia Dreifus
Em Tempe, no Arizona
Perto do escritório de Harindra Joseph S. Fernando, na Universidade do Estado do Arizona, há um tanque de 33 metros de comprimento para a geração de ondas, e que é capaz de simular os movimentos oceânicos.

"Este tanque é um dos equipamentos mais formidáveis que possuímos", diz Fernando, 52, diretor do Programa Ambiental de Dinâmica de Fluidos da universidade. "É impressionante".

Depois que um tsunami varreu o Oceano Índico em 2004, e matou cerca de 300 mil pessoas na Indonésia, na Tailândia e no Sri Lanka, Fernando utilizou esse equipamento incrível para descobrir por que a onda foi tão letal.

Ele e os seus colegas confirmaram que as atividades humanas nas regiões litorâneas no sul da Ásia - como a coleta clandestina de coral, a destruição de dunas e o corte de manguezais - tornaram um desastre natural ainda mais mortífero.

Na época do aniversário do tsunami, em 26 de dezembro, Fernando, um norte-americano nascido no Sri Lanka e cujo apelido é Joe, descreveu o uso de uma combinação de ciência e relatórios locais para a criação de um quadro mais claro do desastre. Eis aqui uma versão resumida da conversa de três horas de duração:

The New York Times - Onde você passou as suas férias no verão de 2004?
Harindra Fernando -
Fui com a minha mulher e os meus filhos para um resort à beira-mar na região sudeste do Sri Lanka, um lugar chamado Yala. No final do feriado, aluguei um carro para voltar a Colombo, a capital cingalesa. Enquanto dirigíamos ao longo da costa, acabamos retidos atrás de dois caminhões que trafegavam vagarosamente, transportando toneladas de corais, retirados, aparentemente, dos recifes próximos.

Quando a minha mulher perguntou ao nosso motorista sobre isso, ele explicou que a retirada de recifes por meio de explosões de dinamite tornou-se uma atividade semi-industrial na região. Segundo eles os habitantes locais retiram os recifes e vendem os corais para que estes sejam pulverizados e utilizados como ingrediente para a fabricação de tinta para casas. "Explodir os recifes não é uma atividade legal", disse ele. "Mas as pessoas fazem isso".

Isso foi algo perturbador, mas não pensei muito sobre o problema.

NYT - Quando foi que você voltou a pensar nisso?
HF -
Seis meses depois. Após o tsunami. Imediatamente depois, Philip Liu da Universidade Cornell, pediu que eu integrasse uma equipe internacional que viajaria ao Sri Lanka para coletar informações científicas sobre a altura e o alcance da onda.

Coincidentemente, a região designada para meus estudos foi a mesma parte da ilha na qual passei férias com a família no verão.

NYT - E o que foi que você viu lá?
HF -
Uma destruição grave, mais inconsistente. Em Peraliya, perto do local em que encontramos os caminhões carregados de corais, o tsunami atingiu uma altura de nove metros e penetrou na ilha por uma distância de mais de 1,5 quilômetro. Lá, ele inundou um trem de passageiros, o Ocean Queen, matando cerca de 1.700 pessoas. Mas, a apenas 48 quilômetros dali, em Hikkaduwa, a onda chegou à costa com uma atura de cerca de 2,7 metros, e pouco alterou a praia. Por que tais diferenças?

Perguntei a um pescador de Peraliya: "Por que a inundação foi tão violenta aqui?" Ele respondeu: "possivelmente os corais tiveram algo a ver com isso, porque esta é uma área da qual se retira bastante coral".

A partir dos meus estudos de dinâmica de fluidos, eu sabia que o que ele falou fazia sentido. Se você reduz a fricção de um sistema em fluxo, este fluxo será mais rápido.

Em Yala, onde ficamos, vi evidências de um outro tipo de destruição de praia. O resort foi totalmente destroçado, e nele morreram 175 pessoas, incluindo dois amigos da Califórnia. O proprietário nos disse que havia retirado uma duna de areia para que os quartos pudessem contar com uma vista desobstruída para o mar. Retornei ao Arizona convencido de que a atividade humana havia aumentado a proporção do desastre.

NYT - Então, você tinha uma hipótese. Como iria prová-la?
HF -
Com uma mistura de ciência e, acredite se quiser, jornalismo. Poucas semanas após o meu retorno, a BBC me pediu que prestasse consultoria para um documentário sobre o tsunami. Como a verba deles, contratamos mergulhadores para verificar o fundo do mar em oito locais diferentes em torno da ilha, incluindo Peraliya.

NYT - Em outras palavras, você utilizou esta notável técnica de pesquisa: a observação.
HF -
Exatamente. E os mergulhadores retornaram com fotografias bastante nítidas. Nas áreas nas quais houve muita inundação, restavam poucos corais.

Aqui no meu laboratório na Universidade do Estado do Arizona, temos o nosso ótimo tanque gerador de ondas, que nos permite trabalhar com ondas de diferentes velocidades e alturas, e medir os efeitos sob condições controladas.

Assim, criamos modelos de tsunami com recifes simulados de corais e sem eles. O que observamos foi que, onde os corais foram retirados, a invasão da água aumentou três vezes ou mais.

Na Universidade de Princeton, o grupo de pesquisa de Michael Oppenheimer levou essa idéia mais longe com sofisticados modelos de computadores, que corroboraram as minhas experiências de laboratório. Em conjunto, a pesquisa revelou que quando se retiram recifes de corais, dunas ou manguezais, cria-se uma avenida para o avanço das ondas, porque há menos fricção de fundo, e a água entra por esses locais.

NYT - Você defenderia a proibição da mineração de corais?
HF -
Sem dúvida. E em todos os lugares, não só no Sri Lanka. Assim que tem início a retirada de corais, as defesas da praia são reduzidas. Caso ocorra um tsunami, ou um fenômeno mais comum, como uma inundação associada a uma tempestade, o recife protege a terra.

NYT - Você está dizendo que muitas das mortes causadas pelo tsunami poderiam ter sido prevenidas?
HF -
No Sri Lanka, algumas poderiam ter sido prevenidas. Na Indonésia, não havia muito o que se fazer, já que o tsunami foi provocado por um terremoto submarino de intensidade 9,3 na escala Richter, com epicentro perto de Sumatra. O terremoto ocorreu tão perto e foi tão poderoso que as defesas das praias não teriam adiantado nada. Mas no Sri Lanka os problemas criados pelo ser humano agravaram a situação.

NYT - Houve alguma reforma devido à sua pesquisa?
HF -
Os meus estudos tornaram-se bastante populares. Os cingaleses ficaram muito interessados. Uma lei de 1981 contra a retirada ilegal de corais atualmente está sendo aplicada com rigor.

Antes do tsunami, havia muita tolerância em relação à retirada de corais. A atividade era quase vista como sendo uma atividade econômica legítima. Mas, depois da pesquisa, quando alguém retira corais, os cidadãos prendem o contraventor e o entregam à polícia. No ano passado, quando fui ao Sri Lanka, vi um outdoor perto de Peraliya com a inscrição: "Por favor, não retirem os corais. Eles controlam a erosão nas praias".

Nunca achei que as pessoas fossem levar isso a sério.

NYT - São poucos os cientistas que vêem o seu trabalho ter um impacto direto nas políticas públicas. O que você sente em relação a isso?
HF -
Nasci no Sri Lanka, e nunca achei que fosse prestar uma contribuição dessa maneira. Não achava que fosse capaz de fazer ciência que alterasse políticas. Até o tsunami, tudo que achei que fosse capaz de fazer era treinar estudantes. E era isso o que eu fazia.

É claro que a minha pesquisa esteve associada a um desastre natural, o que é triste. Mas é com relação a tais tipos de problemas que os cientistas estão prestando auxílio. No momento, estou trabalhando bastante com o efeito "ilha de calor", questionando por que as temperaturas em cidade como Phoenix e Colombo são cerca de oito graus mais elevadas do que nas áreas adjacentes. Em um projeto diferente, financiado pela Marinha dos Estados Unidos, estamos tentando descobrir como a ação de ondas contribui para a maneira como as minas terrestres acabam enterradas em áreas de conflitos. Isto pode salvar muitas vidas. Estas são questões importantes, embora sejam também práticas.

Muitos cientistas encontram-se tão restritos às suas pequenas áreas de pesquisa fundamental que não querem abraçar diretamente o conhecimento prático. Essa foi uma barreira que fui capaz de romper. UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h39

    0,76
    3,172
    Outras moedas
  • Bovespa

    13h45

    0,74
    65.581,50
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host