UOL Notícias Internacional
 

05/01/2008

Nas fábricas chinesas, dedos perdidos e baixos salários

The New York Times
David Barboza
Em Guangzhou, China
Quase uma década depois de algumas das empresas mais poderosas do mundo -freqüentemente sob críticas consideráveis e pressão dos consumidores- terem iniciado um esforço para eliminar o trabalho em condições impróprias na Ásia, o abuso de trabalhadores ainda é comum em muitas das fábricas chinesas que fornecem para empresas ocidentais, segundo grupos de direitos trabalhistas.

Os grupos dizem que algumas empresas chinesas rotineiramente enganam seus funcionários em salários, os expõem a maquinário perigoso e produtos químicos nocivos, como chumbo, cádmio e mercúrio, e suspendem benefícios de saúde.

"Se estas coisas são perigosas para o consumidor, o que dizer a respeito dos trabalhadores?" disse Anita Chan, uma defensora de direitos trabalhistas que leciona na Universidade Nacional Australiana. "Nós podemos lidar com estas coisas por períodos curtos, mas eles lidam com elas diariamente."

E enquanto consumidores americanos e europeus se preocupam com a exposição de seus filhos a brinquedos fabricados na China que contêm chumbo, os trabalhadores chineses, freqüentemente com idades a partir de 16 anos, enfrentam riscos bem mais sérios. Aqui na região do Delta do Rio Pérola perto de Hong Kong, por exemplo, os funcionários de fábrica perdem ou quebram cerca de 40 mil dedos no trabalho a cada ano, segundo um estudo publicado há poucos anos pela Academia de Ciências Sociais de Xangai.

Pressionando para manter as grandes corporações honestas, grupos trabalhistas regularmente contrabandeiam fotos, vídeos, recibos de salários, registros de transporte e outras evidências para fora das fábricas que dizem violar a lei local e os padrões internacionais de trabalho.

Em 2007, fábricas que forneciam para mais de meia dúzia de corporações, incluindo Wal-Mart, Disney e Dell, foram acusadas de práticas trabalhistas injustas, incluindo a exploração de mão-de-obra infantil, jornadas de trabalho obrigatórias de 16 horas por dia em linhas de montagem rápidas e de pagar aos trabalhadores menos que o salário mínimo. (O salário mínimo nesta parte da China é de cerca de 55 centavos de dólar por hora.)

Nas últimas semanas, foi divulgada uma enxurrada de relatórios detalhando abusos de trabalhadores, em um momento em que a China está lidando com a onda de recall por motivos de segurança de produtos produzidos no país no ano passado, e tentando mudar a situação nos locais de trabalho com uma nova lei trabalhista que entrou em vigor em 1º de janeiro.

Nenhuma empresa esteve sob os holofotes de forma tão intensa quanto o Wal-Mart, maior varejista do mundo, que comprou cerca de US$ 9 bilhões em produtos da China em 2006, de martelos e brinquedos a televisores de alta definição.

Em dezembro, duas organizações não-governamentais, documentaram o que disseram ser abusos e violações trabalhistas em 15 fábricas que produziam ou forneciam produtos para o Wal-Mart -incluindo o uso de mão-de-obra infantil na Huanya Gifts, uma fábrica aqui em Guangzhou que produz enfeites para árvores de Natal.

Representantes do Wal-Mart disseram que estão investigando as alegações, presentes em um relatório divulgado há três semanas pelo National Labor Committee (Comitê Nacional do Trabalho), uma ONG com sede em Nova York.

As autoridades da secretaria do trabalho de Guangzhou disseram que multaram recentemente a Huanya por violações do salário mínimo, mas disseram não ter encontrado evidência de trabalho infantil.

Um porta-voz da Huanya, que emprega 8 mil trabalhadores, negou que a empresa tenha violado qualquer lei trabalhista.

Mas dois funcionários entrevistados fora do imenso complexo da Huanya, no final de dezembro, disseram ter sido forçados a trabalhar turnos mais longos para cumprir as cotas de produção em condições ruins.

"Eu trabalho em uma máquina de molde de plástico das 6 da manhã até as 6 da noite", disse Xu Wenquan, um pequeno jovem de 16 anos e rosto de bebê cujas mãos estavam cobertas de bolhas. Ao ser perguntado sobre o que tinha acontecido com suas mãos, ele respondeu que as máquinas eram "quentes, então queimei minhas mãos".

Seu irmão, Xu Wenjie, 18 anos, disse que eles deixaram sua pequena aldeia na pobre província de Guizhou há quatro meses e viajaram mais de 800 quilômetros para encontrar trabalho em Huanya.

Os irmãos disseram trabalhar 12 horas por dia, seis dias por semana, por US$ 120 a US$ 200 por mês, bem menos do que teriam direito por lei.

Quando fiscais do governo visitam a fábrica, os irmãos ganham dia de folga, eles disseram.

Um ex-funcionário da Huanya que foi contatado por telefone forneceu um relato semelhante sobre as condições de trabalho, dizendo que muitos operários sofrem com irritações de pele após trabalharem com pós de ouro e que outros foram forçados a assinar documentos nos quais se ofereciam como "voluntários" para trabalhar horas extras.

"É bastante barulhento e você fica em pé o dia todo, as 12 horas, sem ar condicionado", ele disse. "Nós éramos pagos por peça produzida mas eles nunca nos diziam quanto. Às vezes recebia US$ 110, às vezes recebia US$ 150 por mês."

Em seu relatório de 58 páginas, o National Labor Committee criticou o Wal-Mart por não fazer mais para proteger os trabalhadores. O grupo acusou que, em julho passado, a Huanya recrutou cerca de 500 estudantes colegiais de 16 anos para trabalharem sete dias por semana, freqüentemente 15 horas por dia, durante os meses de pico de produção de produtos natalinos.

Vários estudantes entrevistados na Escola Técnica de Guangzhou, a menos de três quilômetros da Huanya, confirmaram que colegas de classe com idades entre 16 e 18 anos passaram o verão trabalhando na fábrica.

Alguns estudantes colegiais posteriormente fizeram greve para protestar contra as más condições na fábrica, disse o relatório. Os estudantes também disseram às autoridades de trabalho que pelo menos sete crianças, a menor com 12 anos, trabalhavam na fábrica.

"No Wal-Mart, os enfeites de Natal são baratos, assim como as vidas dos jovens trabalhadores chineses que os produzem", afirma o relatório do National Labor Committee.

Jonathan Dong, um porta-voz do Wal-Mart em Pequim, disse que a empresa em breve divulgará detalhes sobre sua própria investigação das condições de trabalho na Huanya.

A Disney e a Dell também foram criticadas pelos grupos de direitos trabalhistas.

Representantes da Disney e da Dell se recusaram a comentar alegações específicas, mas ambas as empresas disseram monitorar cuidadosamente as fábricas na China e afirmaram ter agido quando encontraram problemas ou práticas trabalhistas injustas.

"A Walt Disney Company e suas afiliadas levam muito a sério as alegações de práticas trabalhistas injustas e investigam meticulosamente essas alegações", disse a empresa em uma declaração. "Nós temos um forte compromisso com a segurança e bem-estar dos trabalhadores e com padrões de trabalho justos."

Muitas multinacionais foram duramente criticadas nos anos 90 por usarem fornecedores que mantinham fábricas em condições impróprias. Marcas importantes como Nike, Mattel e Gap responderam formando operações corporativas de responsabilidade social e trabalhando com seus fornecedores na criação de um sistema de fiscalização e auditoria das fábricas. Tais mudanças obtiveram elogios em alguns setores pela melhoria das condições de trabalho.

Mas apesar dos milhões de dólares gastos e da contratação de milhares de auditores, algumas empresas reconhecem que muitos programas são falhos.

"As fábricas melhoraram muito ao longo dos últimos anos", disse Alan Hassenfeld, presidente da fabricante de brinquedos Hasbro e co-presidente da Care, o programa de ética na manufatura do Conselho Internacional das Indústrias de Brinquedos. "Mas me permita ser honesto: há algumas fábricas ruins. Ocorre suborno e corrupção, mas estamos fazendo o melhor que podemos."

Algumas fábricas são alertadas com antecedência das auditorias e alguns donos de fábricas ou gerentes subornam auditores. Fiscais inexperientes também podem ser um problema.

Algumas importantes firmas ocidentais de auditoria que trabalham na China até mesmo contratam estudantes universitários dos Estados Unidos para trabalharem durante as férias de verão como fiscais, um indício de que não estão dispostas a investir em programas de auditoria mais caros ou sofisticados, dizem os críticos.

Os fornecedores chineses regularmente terceirizam trabalho, que por sua vez também terceirizam, criando uma rede de fornecedores difícil de acompanhar e de inspecionar.

"A rede de fornecimento enrolada provavelmente é um dos riscos menos reconhecidos e mais subestimados na China", disse Dane Chamorro, gerente geral para a China da Control Risks, uma firma de consultoria de riscos. "É realmente necessário contar com pessoas experientes no local, que saibam o que estão fazendo e conheçam a língua."

Muitos especialistas em trabalho dizem que parte do problema é o custo: as empresas ocidentais estão pressionando constantemente seus fornecedores chineses por preços mais baixos, ao mesmo tempo que insistem que os donos das fábricas gastem mais para modernizar suas operações, tratem os funcionários de forma apropriada e melhorem a qualidade do produto.

Ao mesmo tempo, o aumento de preços dos alimentos, energia e matéria-prima na China -assim como a escassez de mão-de-obra nas maiores zonas manufatureiras do sul- estão atrapalhando a capacidade dos proprietários de fábricas de terem lucro.

A situação poderá piorar ainda mais antes de melhorar. A lei trabalhista que entrou em vigor em 1º de janeiro dificulta ainda mais a demissão de trabalhadores e cria todo um novo conjunto de leis que os especialistas dizem que quase certamente aumentarão os custos trabalhistas. Mas poderá se tornar mais difícil para os grupos de direitos humanos investigarem abusos. Preocupadas com a série crescente de ameaças à lucratividade, assim como com as revelações embaraçosas, as fábricas aumentaram a segurança, molestando grupos de direitos trabalhistas e chamando a polícia quando jornalistas aparecem em seus portões.

No centro do problema está um sistema trabalhista que depende de trabalhadores migrantes jovens, que freqüentemente deixam pequenas aldeias rurais para estadias de dois a três anos em fábricas, onde esperam ganhar o suficiente para voltar para casa e iniciar uma família.

Enquanto a vida nas cidades prometer mais dinheiro do que nas áreas rurais, eles enfrentarão as duras condições nas fábricas nesta e em outras cidades chinesas. E enquanto a China proibir sindicados independentes e se mostrar incapaz de assegurar o cumprimento de suas próprias leis trabalhistas, há pouca esperança de mudança.

"Este é um problema difícil de resolver", disse Liu Kaiming, diretor do Instituto para Observação Contemporânea, que ajuda trabalhadores migrantes na vizinha Shenzhen. "A China possui fábricas demais. A posição de negociação dos trabalhadores é fraca e a regulação por parte do governo é frouxa."

Há pouco o que qualquer empresa ocidental possa fazer em relação a estes problemas, independente da seriamente com que tratem o tema da responsabilidade social corporativa -a não ser deixar a China. George El Khouri Andolfato

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