UOL Notícias Internacional
 

06/01/2008

Explicar um erro médico? Claro. Pedir desculpas também?

The New York Times
Sandeep Jauhar*
Certa manhã, não muito tempo atrás, recebi uma ligação do pronto-socorro do meu hospital. Um rapaz - na verdade um interno que estava de plantão naquela manhã - havia sido internado com dores no peito. Eu poderia ir avaliá-lo?

Ele tinha 30 anos, era um paquistanês com um rosto comprido e um olhar distante, que atribuí a ansiedade. Eu lhe perguntei sobre a dor. Tinha começado depois do jantar na véspera e durou cerca de dez minutos. Ele dormiu bem, mas a dor voltou quando estava caminhando para o ponto de ônibus naquela manhã, e durou quase uma hora. Era uma pressão densa no centro do peito. Para ficar mais tranqüilo, ele tinha decidido deixar o plantão e vir para o pronto-socorro.

Seu exame de sangue deu normal, assim como o primeiro eletrocardiograma. Ele não tinha nenhum dos fatores de risco tradicionais de doença cardíaca. Eu suspeitei que ele estivesse sofrendo de pericardite aguda, uma inflamação geralmente benigna da membrana que envolve o coração, muitas vezes tratada com antiinflamatórios vendidos em farmácia. Uma característica comum da pericardite, a dor piorava quando ele respirava fundo. Eu lhe disse que se os exames de sangue dentro de seis horas dessem normal o mandaríamos para casa. Brinquei que havia maneiras mais fáceis de escapar do plantão.

Mais tarde naquela manhã recebi uma ligação do médico do pronto-socorro, informando que a dor do meu paciente tinha passado completamente depois que ele tomou ibuprofeno, o que confirmou o diagnóstico de pericardite. Por um momento pensei em mandá-lo diretamente para casa, mas então decidi esperar que a próxima série de exames de sangue ficasse pronta.

Pouco antes de deixar o hospital naquela noite, encontrei um secretário dos médicos. Ele me disse que os exames de sangue posteriores do meu paciente mostraram evidências de pequenos danos ao músculo cardíaco. Embora surpreso, eu rapidamente expliquei que o problema provavelmente era miopericardite, em que a inflamação da membrana ao redor do coração pode envolver parcialmente o próprio músculo.

Ele me perguntou se o jovem médico devia ser submetido a uma angiografia para descartar um bloqueio das artérias. Já era tarde; eu disse a ele que qualquer medida poderia esperar até a manhã seguinte e lhe garanti que um jovem de 30 anos sem fatores de risco não tinha doença nas coronárias. Eu lhe disse para tirar mais enzimas e pedir um ultra-som cardíaco para a manhã seguinte, e que me ligasse em casa se houvesse problemas.

Meu paciente sentiu dores no peito durante a noite. Os médicos que foram chamados para atendê-lo atribuíram a dor a miopericardite, o diagnóstico que estava escrito no prontuário. Novos exames de sangue mostraram evidências de continuidade da lesão no músculo cardíaco. Um eletrocardiograma na manhã seguinte mostrou sinais inespecíficos consistentes com um infarto. Eu ainda duvidava que ele tivesse doença coronariana, e com relutância o enviei ao laboratório de cateterização cardíaca para fazer uma angiografia.

Recebi um telefonema cerca de uma hora depois, pedindo-me para ir até o laboratório. Quando cheguei, a angiografia estava passando numa tela de computador. Mostrava um bloqueio total da artéria anterior descendente esquerda, a chamada lesão "fazedora de viúvas". A artéria parecia um rabo de lagosta, terminando de modo inatural depois de vários centímetros. Dentro de minutos o bloqueio foi aberto com um balão e um stent.

Mais tarde, na sala de controle, senti-me enrubescer quando os colegas entraram para perguntar o que estava acontecendo. "Como pudemos não ver isso?", perguntei em voz alta. Eu tinha consciência da perturbadora prevalência de doença cardíaca entre asiáticos do sul, cujo risco é até quatro vezes maior que o de outros grupos étnicos. Eu sabia que nessa população ocorriam com freqüência ataques cardíacos em homens com menos de 40 anos, que muitas vezes não exibiam os fatores clássicos de risco coronariano. Eu sabia de tudo isso, mas de algum modo minha mente tinha sofrido um bloqueio.

"Não se torture", um colega disse simpaticamente. "Todo médico que eu conheço teria feito a mesma coisa." Outro me disse que era sua política cateterizar quase todo paciente que chegava ao pronto-socorro queixando-se de dores no peito. Na opinião dele, os riscos colocados por angiografias de rotina eram muito menores que os de um infarto não diagnosticado.

E agora? Eu sabia que tinha de me explicar, mas quanto deveria dizer? Como todos os médicos, eu já tinha cometido erros, mas nunca um tão grande - e na minha própria especialidade! Deveria simplesmente contar a verdade ao meu paciente? Deveria pedir desculpas?

A maioria dos médicos tem medo de assumir a responsabilidade por erros médicos. Temos aguda consciência dos potenciais riscos - jurídicos e profissionais - de assumir a autoria de um erro. Mas estudos mostraram que os pedidos de desculpas dos médicos não aumentam necessariamente os processos legais contra erros médicos. Na verdade, eles podem proteger contra esses processos. Dezessete estados americanos aprovaram leis que incentivam os pedidos de desculpas, alguns até tornando as expressões de remorso dos médicos inadmissíveis como prova no tribunal.

Nem sempre foi assim. Os departamentos jurídicos dos hospitais costumavam aconselhar os médicos a nunca admitir a responsabilidade por um erro.

Durante minha residência, quase dez anos atrás, um advogado do hospital disse que em algum momento de nossas carreiras cada um de nós provavelmente seria processado. O advogado deu alguns conselhos: documentem sua tomada de decisão; documentem quando um paciente recusar tratamento; nunca admitam ter cometido erros; nunca falem com o advogado do adversário; e, finalmente, sejam simpáticos com seus pacientes. Os médicos que eram simpáticos com os pacientes raramente eram processados, mesmo em casos de erros notórios.

Eu não consegui conversar com meu paciente no laboratório de cateterismo, enquanto todo mundo estava olhando, por isso decidi esperar até que ele fosse para a sala de recuperação, um ambiente mais privativo.

Encontrei-o lá, deitado em uma maca. A dor em seu peito havia desaparecido, ele me informou alegremente. No entanto, agora doía sua virilha, onde o cateter tinha sido inserido. "Eles trocaram uma dor pela outra", ele disse, rindo.

Eu segurei a grade da maca. "Pensei que você tivesse pericardite", disse com cuidado. "Evidentemente me enganei. Sinto muito."

Ele me perguntou sobre seu prognóstico. Eu disse que o achava bom, mas ele teria de tomar medicação pelo resto da vida. Ele assentiu, parecendo decepcionado.

Alguns dias depois, pouco antes de ele ter alta, passei por seu quarto. Perguntei com quem ele iria fazer o seguimento, e ele me disse que lhe haviam dado o nome de outro cardiologista, mas que tinha decidido continuar comigo. "O senhor foi ótimo", ele disse. "Obrigado."

Balancei a cabeça em silêncio, sentindo-me vazio. "Você é generoso demais", eu disse.

*Sandeep Jauhar é autor de uma memória, "Intern: A Doctor's Initiation", que será lançada este mês nos EUA pela Farrar, Straus & Giroux Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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