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06/01/2008

Na batalha global contra a Aids, Bush cria um legado

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg
Em Washington
O dr. Jean W. Pape não sabia o que esperar quando, no início de janeiro de 2003, deu uma escapulida de seu trabalho no tratamento de pacientes com Aids no Haiti e voou para Washington, para uma reunião secreta com o presidente Bush.

Bush estava considerando dedicar bilhões ao combate global à Aids, uma iniciativa de saúde pública sem paralelo em tamanho e extensão. As deliberações foram realizadas de forma enxuta; nem mesmo o secretário de saúde estava intermediando. Se Bush pretendia chocar o mundo - assim como republicanos céticos - com uma imensa injeção de dinheiro americano para o envio de medicamentos caros para o exterior, ele queria que o dinheiro fosse bem gasto.

"Ele disse: 'Você terá de responder por isso, porque é uma ação de peso, é uma coisa importante na qual estava pensando há muito tempo'", lembrou Pape, um dos vários especialistas internacionais em Aids consultados por Bush. "Nós dissemos para ele que nossos braços estavam totalmente amarrados como médicos, cientes de que poderíamos fazer algo se dispuséssemos dos medicamentos."

Quase cinco anos depois, o Plano de Emergência do Presidente para Combate à Aids (Pepfar, na sigla em inglês) poderá ser o feito bipartidário mais duradouro da presidência Bush.

Em seu último ano na presidência, Bush está diante de um Estados Unidos amargamente divididos em relação à guerra no Iraque, de uma economia incerta e de um Congresso hostil. Seus grandes feitos, a redução de impostos e a reforma da educação, não são plenamente abraçados pelos democratas, e sua agenda legislativa para o segundo mandato - a reforma do Seguro Social e a política para imigração - jaz em ruínas.

O programa global para Aids é uma rara exceção. Até o momento, cerca de um 1,4 milhão de pacientes de Aids receberam medicamentos que salvaram suas vidas pagos com dólares americanos, em comparação a 50 mil antes da iniciativa.

Mesmo os mais ardorosos adversários de Bush, entre eles o senador John Kerry de Massachusetts, seu adversário democrata de 2004, considera difícil argumentar contra os números. "É uma boa coisa ele ter gasto o dinheiro e colocado seu governo por trás deste gasto", disse Kerry, que defendia uma legislação semelhante ao plano adotado por Bush. "Eu acho que representa um feito tremendo para o país."

Anunciado no discurso do Estado da União de 2003, o plano pedia US$ 15 bilhões para prevenção, tratamento e assistência contra Aids, concentrados nos 15 países mais duramente atingidos na África e no Caribe. Um Congresso entusiasmado já aprovou US$ 19 bilhões.

Bush está pressionando os legisladores por um novo compromisso de cinco anos de US$ 30 bilhões. Ele viajará para a África em fevereiro para defender sua posição - e, espera a Casa Branca, polir o lado conservador compassivo de seu legado.

Apesar do esforço, ainda há 33 milhões de pessoas vivendo com o HIV e a ONU estima que surgiu 1,7 milhão de novos casos em 2007 apenas na África sub-Saara. Os críticos, incluindo Kerry, ficam particularmente irritados com a exigência de que um terço dos fundos de prevenção sejam gastos no ensino da abstinência, apesar da falta de consenso científico de que tais programas reduzem a disseminação do vírus da Aids.

Quando uma ativista de Aids ugandense, Beatrice Were, condenou a abordagem da abstinência em uma conferência internacional de Aids no ano passado, ela foi aplaudida em pé. Paul Zeitz, diretor executivo da Aliança Global contra Aids, um grupo de defesa aqui em Washington, disse que o programa de Bush é atrapalhado por "políticas ideologicamente motivadas."

Tal avaliação foi repetida, em termos mais diplomáticos, pelo independente Instituto de Medicina, que avaliou o programa em março. Ele pediu ao Congresso que abandone a exigência de abstinência e que suspenda a proibição do pagamento por agulhas limpas para os viciados em drogas, entre outras mudanças.

Mas o instituto concluiu que, no geral, o programa teve "um início promissor". E quando dão um passo para trás, até mesmo críticos como Zeitz reconhecem que Bush promoveu uma revolução filosófica. Em um passo dramático, ele eliminou a noção de que por serem pobres e analfabetos, os pacientes não mereciam, nem poderiam ser ensinados a usar, os medicamentos que poderiam significar a diferença entre a vida e a morte.

No Haiti, cerca de 13 mil pacientes atualmente estão recebendo medicamentos anti-retrovirais. Isto representa apenas metade da estimativa de 26 mil que necessitam deles, mas muito mais do que os 100 que recebiam tratamento há cinco anos. "É uma história de imenso sucesso", disse Pape, "além da minha imaginação".

Em Uganda, um país já adiantado em sua própria iniciativa de Aids quando Bush deu início à sua, 110 mil pessoas estão sob tratamento e são realizados anualmente 2 milhões de exames de HIV, em comparação aos anteriores 10 mil tratados e 400 mil exames, segundo o dr. Alex Coutinho, um importante especialista em Aids daqui.

Grande parte do dinheiro vem do Pepfar, mas também do fundo da ONU para o qual os Estados Unidos contribuem.

Coutinho disse que os ugandenses temem que quando Bush deixar o cargo, "o fundo Bush", como o chamam, partirá com ele.

"Quando viajei para os Estados Unidos, fiquei surpreso com quão poucas pessoas sabem o que Pepfar significa", ele disse. "Eu acho que a América não deveria demonstrar timidez em relação ao que realizou. Só porque foi feita sob Bush, não é algo de que o país não deva se orgulhar."

A história de como um presidente republicano conservador se tornou um cruzado na luta global contra a Aids é uma bastante improvável. Bush concorreu à Casa Branca em 2000 com o que Joshua B. Bolten, o chefe de gabinete, chama de "ceticismo republicano em relação à eficácia da ajuda internacional". Ele falava sobre deixar "a África resolver os problemas da África".

Suas principais prioridades eram redução de impostos e educação. Mas várias forças conspiraram para colocar a epidemia internacional de Aids na agenda do novo presidente.

Colin L. Powell, na época o novo secretário de Estado, estava profundamente preocupado com dados demográficos mostrando que em algumas nações africanas, a Aids ameaçava eliminar toda uma população em idade fértil -uma condição que criaria instabilidade, um clima propício para o terrorismo. Apenas semanas em seu novo cargo, ele chamou Tommy G. Thompson, o novo secretário de saúde e serviços humanos do governo.

"Eu disse: 'Tommy, este não é apenas um problema de saúde, este é um problema de segurança nacional'", lembrou Powell. Eles prometeram trabalhar juntos, e o presidente, disse Powell, "entendeu imediatamente". Mas inicialmente pouco foi feito, enfurecendo defensores como Zeitz.

Mas em 2002, os cristãos conservadores, uma base política importante de Bush, começaram a abraçar a causa. Jesse Helms, o senador republicano conservador da Carolina do Norte, se declarou envergonhado por não ter feito mais. Bill Frist, um médico que na época era um senador republicano por Tennessee, conversava com Bush sobre a epidemia. Assim como Bono, o astro do rock. Medicamentos genéricos estavam reduzindo os custos para o tratamento.

No segundo trimestre daquele ano, Bush enviou Thompson e o especialista do governo em Aids, o dr. Anthony S. Fauci, para a África "para tentar avaliar o que poderíamos fazer em termos humanitários", disse Fauci.

Eles voltaram e propuseram US$ 500 milhões para prevenir a transmissão da doença de mãe para filho. O presidente aprovou, disse Fauci, mas lhes disse para pensarem maior.

"Ele queria fazer algo que mudasse o jogo", disse Bolten. "Algo que, em vez de atuar às margens para aliviar a consciência de todos, pudesse de fato mudar a trajetória dessa doença que, segundo os relatórios que estávamos recebendo, caminhava para destruir todo o continente."

Bolten, Fauci e um pequeno número de outros passaram oito meses planejando discretamente. Dentro da Casa Branca, Condoleezza Rice, na época conselheira de segurança nacional, defendia o programa.

Mas havia resistência daqueles que consideravam "problemático anunciar muito dinheiro para estrangeiros", disse Michael J. Gerson, um ex-redator de discursos de Bush. Os oponentes fizeram uma última tentativa de remover o anúncio do discurso do Estado da União. Bush os bloqueou.

Com Bush prestes a invadir o Iraque, alguns teorizaram que ele estava tentando amenizar a imagem do país. Nem tanto, disse Gerson, que chama a iniciativa de "moralismo na política externa". Mas ele vê uma ligação: "Ela se encaixa na concepção mais ampla de sua visão do propósito da América no mundo, que inclui não apenas a libertação de outros povos, mas o tratamento de suas doenças".

As metas do programa eram ambiciosas: tratar dois milhões de pessoas, prevenir sete milhões de novas infecções e fornecer assistência para 10 milhões, incluindo órfãos e crianças vulneráveis, ao longo de cinco anos, a partir de 2004, quando o dinheiro foi disponibilizado. As metas de prevenção só serão avaliadas em 2010. Mas o dr. Mark Dybul, o coordenador global para Aids de Bush, disse que o programa está a caminho de cumprir suas metas. Além dos medicamentos para 1,4 milhão, o governo diz ter fornecido ajuda para quase 6,7 milhões de pessoas afetadas pela doença, incluindo 2,7 milhões de órfãos e crianças vulneráveis. Os medicamentos fornecidos para mulheres grávidas pouparam cerca de 152 mil recém-nascidos de se infectarem, disse o governo.

Há um debate sobre quão eficiente foi o gasto do dinheiro, mas a luta não é em torno da reautorização ou não do programa, mas sim de como. Grande parte do dinheiro foi canalizado por meio de organizações religiosas americanas, provocando críticas de pessoas como Coutinho, de Uganda, que dizem que o controle local reduziria os custos.

Com base na atual taxa de infecção, os defensores dizem que são necessários US$ 50 bilhões, não os US$ 30 bilhões propostos por Bush. O senador Joseph R. Biden Jr., democrata de Delaware e presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, também pede por US$ 50 bilhões, como Coutinho.

"A menos que o Pepfar seja reautorizado em um nível muito maior", disse Coutinho, "nós estaremos no ramo de brincar de Deus."

Na Casa Branca, o combate à Aids se tornou um assunto familiar. Laura Bush fez sua terceira viagem à África no ano passado, e Jenna, a filha do presidente, narrou a vida de uma jovem mulher soropositiva em um novo livro.

Bush anunciou sua viagem à África no Dia Mundial da Aids em novembro, com uma citação da Bíblia: "Eu lhe propus a vida ou a morte. Escolha, portanto, a vida."

Naquele dia, no Pórtico Norte da Cada Branca estava enfeitado com um imenso laço vermelho, o símbolo da luta contra a epidemia. Até mesmo Zeitz o considerou um sinal promissor. George El Khouri Andolfato

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