UOL Notícias Internacional
 

07/01/2008

As lacunas do nosso álbum de família

The New York Times
Catherine MacRae Hochmuth
De vez em quando cai sobre a minha cabeça um dos muitos livros de bebês que eu encaixo no canto mais alto do armário de nosso futuro filho. Dada a falta de espaço em nosso apartamento de pouco mais de 200m quadrados, eu provavelmente já deveria tê-los passado adiante.

Mas quando você está tentando, sem sucesso, ter um bebê, há quatro anos e meio, livros não são as únicas coisas das quais você tem dificuldades de se desfazer.

Entre os títulos estão "The Expectant Father" ("O candidato a pai"), "The Girlfrend' Guide to Pregnancy" ("O guia das amigas para a gravidez"), "What to Expect When You're Expecting") ("O que esperar quando você está esperando"), "Secrets of the Baby Whisperer" ("Segredos de um encantador de bebês"), e o meu favorito, "The No-Cry Sleep Solution" ("A solução para um sono sem choro"). Só me pergunto se existem soluções "sem choro" para uma mulher crescida que de vez em quando não se controla na hora de dormir porque não tem ninguém para levar para o berço.

Algumas das minhas amigas colocam nas geladeiras as imagens de ultra-som de seus fetos chupando o dedo. É a primeira foto de seus bebês, a mesma enviadas por e-mail e todos, com chamadas animadas como: "É uma menina!"

Nós temos fotos de ultra-som também, de vários anos, mas sem mãozinhas ou o narizes perfeitamente copiados dos nossos. A imagem de ultra-som mais antiga apresenta duas promissoras bolinhas de gude, que pararam de crescer em sete semanas, o que foi três semanas antes que soubéssemos que alguma coisa estava errada. A mais recente é de um espaço vazio, negro, com a legenda: "Útero vazio".

Eu queria saber como é que as pessoas iriam responder se eu enviasse a todos e-mails com a seguinte frase: "É um útero vazio!" Eu sei - nada adequado. Mas no mundo do fracasso na fertilização, você aprende que um pouco de humor negro pode ajudar a enfrentar um bocado de dores de cabeça. A foto da minha gravidez ectópica parece perfeita, exceto pelo fato de o embrião estar no lugar errado. Outra provável mensagem de e-mail: "Embrião no Lugar Errado!"

Essa gravidez foi em maio passado, depois do nosso segundo round em fertilização in-vitro. Meu marido havia faltado ao trabalho porque havia uma chance de ouvimos a batida do coração. Até havíamos combinado assistir "Ligeiramente Grávidos" depois, para comemorar.

Então, a enfermeira não viu nada. Eu achei que ela precisava ajustar um pouco a ampliação. Mas aí ela disse: "Pode ser ectópica."

Eu disse: "Você está dizendo que não é nada ou que é ectópica?"

"Sim." E nos deixou com uma caixa de lenços de papel. Tiraram um pouco do meu sangue para confirmar que havia uma gravidez em algum lugar. A assistente médica teve dificuldade para encontrar a minha veia e me deu uma picada e outra enquanto eu soluçava descontroladamente. Então eles gentilmente sugeriram que poderíamos sair por uma porta lateral. Honestamente, eu considerei aquilo uma gentileza, embora também tenha me ocorrido que provavelmente seria ruim para os negócios de um centro de fertilidade ter uma mulher aos soluços passando pela sala de espera.

Umas poucas semanas depois da cirurgia para remover a gravidez desenganada, eu e meu marido nos reunimos com o médico, para discutir nossa situação. Nem sabíamos que era possível uma gravidez ectópica porque os embriões foram transferidos diretamente para o útero. E que a possibilidade é extremamente reduzida: o médico disse que a chance era de menos de 1%, o que é menos que entre a população em geral.
"A pior sorte que vocês poderiam ter," ele disse.

Nosso primeiro ano de tentativas, quando meu marido e eu tínhamos 30 e 31 anos, foi uma época de conjecturas: que nós poderíamos conceber como qualquer outra pessoa, que ter um filho era a coisa mais natural do mundo.

O ano seguinte trouxe exames, ansiedade e dúvidas. Depois vieram os tratamentos de fertilidade, seguidos por dois ciclos de fertilização in-vitro, e finalmente, três meses de acupuntura e ervas de um médico de Taiwan. E agora, quase cinco anos desde que começamos, não temos nada para mostrar em relação a nenhum deles.

À exceção de nossas fotos: imagens granuladas de todos os embriões que criamos em um laboratório. E eu não consigo encontrar coragem de jogá-los fora, tais artefatos de nosso experimento em ciência da fertilidade e nosso jogo com a sorte. Embora não passem de massas amorfas de células, não consigo deixar de pensar em quem elas poderiam ter-se transformado. Elas podem não ter ido muito longe na vida, mas são a única vida que nós criamos.

Como as fotos em nossas paredes ou álbuns, são parte da nossa história. Acontece que nós provavelmente estaríamos violando alguma norma social se as enquadrássemos e pendurássemos na parede. Não que queiramos fazer isso. Em vez disso, nós as dobramos em esconderijos, enfiamos em gavetas, embutimos nos cantos dos nossos armários e mentes, junto dos livros, roupas, mobília, expectativas e sonhos. De vez em quando tropeçamos com elas e lembramos: "Certo, existe isso."

No armário com os livros há uma sacola da 'Target' com roupas de bebê e um babador "I love Daddy" ("Eu amo o papai") que eu comprei em um acesso de esperança durante a primeira gravidez. Em nossos armários e na geladeira, nós também temos vitaminas para o período pré-natal, receitas de ácido fólico e medicamentos para a fertilização in-vitro. Em algum lugar do apartamento há uma relação da ONG Consumer Reports sobre o que se deve ter em mobiliário e engenhocas para bebês.

Quanto aos arranjos para creches, nós chegamos a elaborar vários planos, cada um deles com prós e contras. Nós havíamos tomado decisões quanto a fraldas de pano e planos flexíveis de poupança para a universidade. Excluímos a possibilidade de compra de produtos da loja Baby Einstein antes dos dois anos, ou deixar que a criança dormisse em nossa cama e permitir telefones celulares no segundo grau (nós admitimos que quando realmente tivéssemos um adolescente, os telefones poderiam ser implantados em seu cérebro). Nós até mesmo temos nomes, que não ocupam nenhum espaço a não ser nas nossas mentes. Tínhamos o primeiro e o segundo preferidos, seja para menino ou menina, e não desistimos deles em dois anos. No mês passado, durante um almoço, pedi à minha irmã, no início de uma gravidez, que não roubasse - ou melhor, não usasse nossos nomes. Mas eu me senti muito cerimoniosa quando anunciei a ela que precisava "discutir um assunto importante", e ela sorriu aliviada quando percebeu que era apenas a respeito de nomes de bebês. "Pensei que você ia dizer que você e o Bill estão se divorciando ou algo parecido," disse.

No final, acho que ela acreditou que eu estava sendo irracional a respeito dos nomes, um dos quais era sua escolha também, particularmente quanto ao meu pedido de que ela não usasse também os nomes que vinham em segundo lugar na nossa preferência. Mas como ela poderia saber o quanto esses nomes são valiosos para nós? Nós os temos carregado em nossos corações há anos, se não nos braços.

A maior parte de nossos amigos e familiares não sabe que temos todos esses livros, fotos, nomes e filosofias sobre a paternidade. Eu duvido que isso aconteça com pessoas com bebês reais, pois nós nos preparamos exatamente como eles, se não mais. A única coisa que não temos é o livro do bebê. A Hallmark não tem uma versão para que pessoas como nós guardemos as fotos "Útero Vazio" e "Embrião no Lugar Errado" (em vez de "Nosso Bebê" enfeitando a capa, imagino que eles poderiam colocar "Bem, de qualquer forma foi uma grande tentativa").

É hora de seguir adiante, eu sei. Mas como seguir adiante se cada mês traz um novo ciclo de esperança? Quando sua primeira reação a uma nova menstruação é acrescentar previsões sobre ovulação à sua lista de compras? Quando você não consegue parar de sentir uma amargura corrosiva em relação a cada família que passa com seus bebês que eles parecem ter tido com tanta facilidade?

O senso comum nos diz que a esperança é uma coisa boa. A esperança é o que nos conduz pelas dificuldades. Mas nesses anos, cheguei à conclusão de que esperança às vezes é uma tortura lenta. Quando a esperança mantém você ansioso e amargo e preso a alguma fantasia sobre o núcleo familiar perfeito, então esperança não é mais o que você precisa. Talvez a mais promissora ação que alguém possa adotar seja a de abandonar totalmente a esperança.

Acontece que não estou sozinha em pensar isso. Quando a The New York Times Magazine publicou recentemente sua lista das idéias mais inovadoras de 2007, fiquei satisfeita com a inclusão de um estudo alegando que em certos casos a esperança pode ser um obstáculo para a recuperação emocional.

Eu imagino que muitas pessoas poderiam considerar nossos anos de tratamento de fertilidade e nossa conta de US$ 20.000 pela fertilização in-vitro, que pagamos com um empréstimo, nada mais que futilidade, ou egoísmo. Mas não é tão simples.

Não é futilidade querer ter um filho que tenha a risada de meu marido e seu cabelo loiro e espetado, ou para ele querer uma menina com longas pernas e cabelo castanho, sardas e os dentes separados. É amor. E de todas as coisas para bebês para as quais precisamos encontrar lugar para guardar em nosso apartamento, o amor desperdiçado é o mais difícil de carregar. Ao contrário de nossos livros, mobília, roupas e retratos, não pode ser devolvido, dado ou enfiado nos cantos do armário. E ao contrário da esperança, ele provavelmente não será considerado em estudos científicos como um obstáculo para a recuperação emocional.

Então, estamos em busca de uma adoção na China. Alguns de nossos amigos se surpreenderam com o fato de encararmos numa boa que pode demorar cerca de dois anos para se completar uma adoção na China, sem se incluir os três ou cinco meses de demora para colocar a papelada em dia.

Mas por enquanto estamos acostumados a esperar. E escolhemos a China porque ela oferece algo que os médicos especializados em fertilidade ou a Mãe Natureza ou muitas outras opções de adoção não oferecem: uma programação previsível e a coisa mais próxima possível a uma garantia.

Nós não sabemos como parar de ter esperança de um filho biológico. Mas isso não significa que não possamos seguir adiante com a adoção. Lentamente, livros sobre adoção e afeto como "Are Those Kids Yours?" ("Aquelas crianças são suas?") e "A Love Like No Other" ("Um amor como nenhum outro") encontram seu lugar no armário, junto de títulos ainda importantes como "The No-Cry Sleep Solution".

Afinal, soluções sem choro são úteis, não importa em quais circunstâncias. Sem falar nos babadores "Eu amo o Papai". Claudia Dall'Antonia

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