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08/01/2008

Gelo da Groenlândia agita debate sobre nível dos oceanos

The New York Times
Andrew C. Revkin
A antiga cúpula congelada que cobre a Groenlândia é tão vasta que pilotos já se chocaram com aquilo que pensavam ser uma formação de nuvens se estendendo ao longo do horizonte. Ao voar sobre ela, mal dá para imaginar que este gelo pudesse se derreter com rapidez suficiente para tão cedo elevar perigosamente o nível dos oceanos.

Entretanto, ao longo dos seus flancos, na primavera e no verão, o quadro é muito diferente. Durante uma série cada vez mais extensa de anos quentes, uma série de lagos azuis e riachos de gelo derretido tem se espalhado cada vez mais sobre a camada de gelo. A superfície que se derrete escurece-se, absorvendo até quatro vezes mais energia solar que a neve não derretida, que reflete a luz do sol. Cavidades naturais de drenagem, as chamadas moulins, conduzem a água da superfície para as profundezas, fazendo com que em alguns locais ela atinja o fundo de pedra. De forma discreta, mas mensurável, o processo lubrifica as superfícies e acelera a movimentação do gelo rumo ao mar.

E, segundo os glaciologistas, o mais importante é a ruptura de grandes pedaços semi-submersos de gelo onde enormes geleiras da Groenlândia, especialmente na costa oeste, se espremem pelos fiordes ao se encontrarem com o oceano em processo de aquecimento. Conforme essas passagens foram se abrindo, acelerou-se o fluxo de diversos desses rios congelados e rugosos.

Alberto Behar/JPL/NASA/The New York Times 
Uma câmera em um moulin localizado em região de pesquisa na Groenlândia

"Todas essas mudanças fazem com que atualmente diversos glaciologistas estejam nervosos - para não dizer chocados", afirma Ted Scambos, que é o cientista chefe do Centro Nacional de Dados Sobre Neve e Gelo, em Boulder, no Colorado, e um veterano dos estudos sobre a Groenlândia e a Antártica.

Alguns temem que a elevação do nível dos mares em um mundo em processo de aquecimento possa ser maior do que a estimativa mais pessimista de cerca de 60 centímetros neste século, feita no ano passado pelo Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (os mares subiram menos do que 30 centímetros no século 20). A avaliação do painel não incluiu fatores conhecidos por contribuir para os fluxos de gelo, mas que não são compreendidos de forma suficiente para que se possa fazer com confiança estimativas baseadas neles. Tudo o que o painel pôde dizer foi: "Valores maiores não podem ser excluídos".

Está em andamento um esforço científico para determinar se a erosão das mais vulneráveis camadas de gelo do mundo, na Groenlândia e na Antártica Ocidental, pode continuar acelerando-se. Esse esforço envolve pesquisas de campo e análises de dados obtidos por satélites, bem como a busca de pistas baseadas em períodos quentes ocorridos no passado, incluindo o último intervalo entre eras glaciais, que chegou ao seu apogeu cerca de 125 mil anos atrás, e fez com que os oceanos atingissem um nível de 3,7 a 4,9 metros superior ao atual.

O Conselho Ártico, representando os países do território ártico, encomendou um relatório sobre as tendências ambientais na Groenlândia, para ser concluído antes das negociações sobre um tratado climático que deverão ocorrer em 2009, em Copenhague. As nações do mundo se comprometeram a criar durante essas negociações um plano de longo prazo para limitar o aquecimento global causado pelos seres humanos.

Konrad Steffem, um glaciologista da Universidade do Colorado que acampa sobre a camada de gelo da Groenlândia todos os anos desde 1990, é o autor do capítulo no relatório sobre o clima da região. Em agosto do ano passado, ele e uma equipe de cientistas que estudam as maneiras como o gelo derretido poderia afetar o movimento do gelo baixaram uma câmera a uma profundidade de 100 metros em uma moulin cheia de água para determinar se esse sistema de drenagem poderia ser mapeado.

Pesquisas feitas nas geleiras alpinas demonstram que à medida que mais água flui por tais fendas, mais rapidamente o gelo se desloca. Mas em determinado momento formam-se canais maiores, que limitam o efeito lubrificante. A experiência com a câmera foi apenas um teste inicial.

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Alberto Behar, um engenheiro da Nasa que projetou a câmera, diz que alguns métodos não convencionais foram cogitados para mapear o fluxo dessas águas. "Tivemos idéias como o lançamento de patinhos de borracha pelas fendas para verificar se eles apareceriam no mar", diz Behar. "Dentro dos patinhos haveria um bilhete dizendo algo como: 'Por favor, se você me encontrar, ligue para o número tal'".

As mudanças presenciadas na Groenlândia podem acabar revelando-se auto-limitantes no curto prazo; por exemplo, geleiras onduladas podem sofrer achatamento e ter sua velocidade reduzida. Ou elas podem ser um sinal de que o gelo da ilha - que contém aproximadamente a mesma quantidade de água que o Golfo do México - está prestes a sofrer um rápido despregamento. Os cientistas estão divididos quanto a essa questão, e também quanto ao risco de curto prazo referente a uma porção da cobertura de gelo da Antártica do tamanho do Texas, que também está dando sinais de instabilidade. Essa divisão coloca de um lado aqueles que antevêem um aumento do nível do mar de cerca 60 centímetros neste século, causado pelo derretimento do gelo da Groenlândia, do oeste da Antártica e de geleiras nas montanhas e, do outro lado os que acreditam que nesse período a elevação dos mares será de uns dois metros.

Entre os que têm uma visão mais conservadora em relação ao destino da Groenlândia no curto prazo está Richard Alley, da Universidade do Estado da Pensilvânia, que observou que amostras de gelo e testes com materiais orgânicos colhidos abaixo do gelo indicam que a principal massa de gelo da Groenlândia suportou milhares de anos de aquecimento no passado sem desaparecer.

"Aquilo é basicamente um grande pedaço de gelo sobre uma camada de rocha", diz Alley, ao descrever o comportamento da Groenlândia em condições mais quentes. "O que ele tenta fazer é formar mais neve no meio e derreter mais nas bordas. Se ele retrair as sua bordas, haverá menos área para derreter, e isso o ajuda a sobreviver. É por isso que é possível existir uma cobertura estável de gelo em um clima mais quente".

Mas não existe mais nenhuma polêmica significativa quanto ao cenário de longo prazo. Caso o aumento das emissões de gases causadores do efeito estufa continue seguindo uma tendência próxima à atual, o aquecimento e a perda de gelo resultantes nas duas extremidades do planeta fariam com que as regiões costeiras retrocedessem durante séculos. Embora tenha se mostrado circunspecto em relação às mudanças de curto prazo, o painel intergovernamental manifestou-se com confiança a respeito das mudanças de longo prazo.

A perspectiva de não se contar com uma linha costeira "normal" no futuro não muito distante faz com que muitos cientistas fiquem profundamente preocupados.

"O que está em jogo é a estabilidade que nós sempre consideramos como um fato imutável, tanto no que diz respeito às costas como ao próprio clima", afirma Jason E. Box, professor de geografia da Universidade do Estado de Ohio. Box apresentou descobertas recentes na reunião da União Geofísica Norte-Americana no mês passado, revelando que várias geleiras da Groenlândia tiveram a sua movimentação drasticamente acelerada em uma resposta direta ao aquecimento, tanto durante uma onda de calor que teve início na década de 1920 quanto agora.

Eric Rignot, que há muito tempo estuda as coberturas de gelo em ambos os pólos para o Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, diz que espera que a população e os elaboradores de políticas não vejam na incerteza das previsões do século 21 motivo para complacência quanto à necessidade de limitar os riscos por meio da redução das emissões.

Recentemente Rignot propôs que o aquecimento ininterrupto poderia resultar em uma aumento do nível dos mares globais composto por três fatores básicos: 90 centímetros devido ao derretimento na Groenlândia, 90 centímetros provenientes do gelo derretido da Antártica e 46 centímetros causados encolhimento das principais geleiras nas regiões montanhosas.

Isso é similar às projeções feitas pelo mais proeminente cientista climático da Nasa, James E. Hansen, sendo entretanto duas vezes maior do que os valores quanto ao qual muitos glaciologistas parecem considerar o limite máximo para a elevação dos oceanos até o final deste século.

"É muito cedo para se afirmar que tudo irá se estabilizar, e também não há como prever um colapso catastrófico", diz Rignot. "Mas as coisas estão sem dúvida alguma bem mais sérias do que qualquer um teria imaginado cinco anos atrás". UOL

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