UOL Notícias Internacional
 

09/01/2008

A exibição de emoção agita a campanha presidencial dos EUA

The New York Times
Jodi Kantor
Não foi o fato da senadora Hillary Rodham Clinton ter quase chorado. Foram todas as vezes em que não chorou.

Mesmo nos momentos mais difíceis, Hillary é uma imagem de compostura pública de aço. Ela raramente, se é que alguma vez, parece se soltar. Nem quando sua iniciativa de atendimento de saúde fracassou. Nem na primeira vez em que o mundo descobriu a má conduta marital de seu marido. Nem da segunda vez.

Em comparação, os adversários de Hillary pela indicação presidencial democrata se mostraram emocionalmente acessíveis. O senador Barack Obama escreveu sobre seu pai ausente em "Dreams From My Father" (sonhos do meu pai) e sobre brigar com sua esposa em "A Audácia da Esperança".

NÃO CHOROU MAS LEVOU
Brian Snyder/Reuters
Hillary Clinton após vencer as primárias de New Hampshire
OLHOS MAREJADOS
VITÓRIA EM NEW HAMPSHIRE
CENAS DAS PRIMÁRIAS
John Edwards, o ex-senador da Carolina do Norte, é astro de um antigo drama familiar de partir o coração: ele perdeu um filho em um acidente de carro, tem uma esposa com um câncer de mama incurável e dois filhos adoráveis que fazem campanha ao seu lado, e discute tudo isto com aparente tranqüilidade.

Por sua vez, Hillary dosa sua vida interna em uma colher de chá por vez: uma frase sugestiva em uma entrevista aqui, uma risada intrigante acolá.

Assim, na segunda-feira, quando ela ficou embargada durante uma aparição em um café de New Hampshire, ao fazer um apelo emotivo em prol de sua candidatura, Hillary provocou um dos momentos mais debatidos da campanha presidencial até o momento.

"Se ela está desmoronando agora, antes de vencer a indicação de seu partido, então como agirá sob pressão como presidente?" escreveu Mark Mayfield, 52 anos, um gerente de vendas em Nashville e simpatizante de Obama, em uma postagem no nytimes.com.

Como se em resposta, Katha Pollitt escreveu no thenation.com que o espetáculo de Hillary se enchendo de lágrimas trouxe à tona "a mais antiga e idiota noção sem fundamento sobre mulheres: que são emotivas demais para deter o poder".

Todos os comentaristas de rádio e televisão de costume discutiram o assunto em todos os veículos habituais: em seu programa de rádio, Rush Limbaugh zombou de Hillary com sons de buáá, enquanto a maioria das mulheres do programa "The View" da ABC defendeu Hillary na manhã de terça-feira.

Em um dia com mais notícias de campanha -os resultados das primárias de New Hampshire só seriam divulgados na noite de terça-feira- ou em uma era pré-YouTube, a reação poderia ter acabado aí.

Mas em vez disso, americanos de todo o espectro político assistiram e reassistiram ao clipe, pausando em cada tremulação da expressão no rosto de Hillary, fazendo perguntas como: após uma vida inteira na política mantendo em segredo suas emoções, por que Hillary finalmente baixou a guarda? Foi algo espontâneo ou uma exibição calculada? Hillary estava usando seu gênero para conquistar simpatia ou foi vítima de dois pesos e duas medidas, que permitem que candidatos do sexo masculino chorem -vários o fizeram ao longo da campanha- mas não as candidatas femininas?

"Este é exatamente o problema que eu temia que qualquer candidata enfrentaria: para ter sucesso é preciso parecer mais durona do que seus adversários masculinos", escreveu Petra Boehm, 43 anos, no nytimes.com.

"No final, você parece tão durona que ninguém suporta mais", disse Boehm, uma cidadã alemã que mora em Vail, Arizona.

Apesar de muita gente que postou na Internet ter se concentrado nas imagens e sons do clipe -os olhos claramente cheios de lágrimas de Hillary, a voz embargada- elas também se concentraram em suas palavras, que pareciam uma versão mais despojada, mais pessoal dos argumentos que tem apresentado nas aparições de campanha.

Uma frase pareceu atrair mais comentários: "Alguns de nós estão certos, alguns de nós estão errados", disse Hillary, em uma aparente referência a Obama e Edwards.

Para alguns, o comentário foi um aparente lembrete da abordagem "nós contra eles" usada por Hillary em seu esforço para reformar o sistema de saúde do país.

"Isto é exatamente o que está errado na campanha dela", escreveu Kathy Baird, uma contadora de 46 anos de Carbondale, Illinois, que disse que planejava votar em Obama, em um comentário postado no nytimes.com.

"Enquanto ela mantiver o mantra 'eu estou certa e vocês estão errados', não haverá colaboração, não haverá coesão, não haverá unidade", escreveu Baird.

Também notável em relação à reação foi quanto peso os comentaristas deram aos comentários de Hillary. Após todo um ano de discursos e debates, várias novas biografias e pilhas de textos jornalísticos, a verdade sobre que tipo de pessoa Hillary Clinton é -quão genuína, quão altruísta- pareceu se resumir a poucos minutos de vídeo para alguns eleitores. Parecia provar, novamente, o que poderia ser chamado de regra rainha Elizabeth: quanto menos emoção um líder exibir, mais importância será dada aos raros lampejos dela.

Afinal, como Bill Harlan escreveu no blog "Mount Blogmore", publicado pelo "The Rapid City Journal" em Dakota do Sul, esteve longe de ser um desmoronamento pleno. (Nenhuma lágrima de fato rolou pelo rosto.) "Eu já demonstrei mais emoção quando perdi a chave do meu carro", escreveu Harlan.

Enquanto isso, em uma entrevista por telefone, Marianne Pernold Young, a fotógrafa de 64 anos cuja pergunta levou à resposta embargada de Hillary, apelando aos eleitores indecisos de New Hampshire, disse ainda estar indecisa entre Hillary Clinton e Barack Obama.

Young também soou perplexa com a reação, e com a reação à reação, à sua pergunta. Afinal, sua pergunta original para Hillary foi bem leve.

"Minha pergunta é bastante pessoal: como você faz isso?" ela perguntou a Hillary. "Quem cuida do seu cabelo?" George El Khouri Andolfato

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