UOL Notícias Internacional
 

11/01/2008

Descoberta em Tupi torna Brasil candidato à elite do petróleo

The New York Times
Alexei Barrionuevo

No Rio de Janeiro
Enquanto alguns dos maiores produtores de petróleo, incluindo o México e o Irã, lutam para permanecerem exportadores, o Brasil está caminhando na direção oposta. Um imenso campo de petróleo submarino descoberto no final do ano passado tem o potencial de transformar o maior país da América do Sul em um exportador considerável e lhe conceder uma cadeira à mesa do cartel mundial do petróleo.

O novo petróleo, juntamente com os projetos de refino em andamento da Petrobras, a empresa estatal de petróleo, também pode vir a transformar o Brasil em um grande exportador de gasolina, aumentando a oferta nos Estados Unidos e outros países onde é praticamente impossível a construção de novas refinarias.

A região subsal onde se encontra Tupi, o novo campo em águas profundas cuja estimativa é de conter entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris de petróleo leve, está provocando agitação entre as maiores companhias de petróleo do mundo. Elas têm tido dificuldade recentemente em encontrar projetos de escala global nos quais valha a pena investir, mesmo com o petróleo chegando a US$ 100 o barril. Tupi é a maior descoberta mundial de petróleo desde o campo de 12 bilhões de barris encontrado no Cazaquistão, em 2000.

Mas a conversa do governo brasileiro de endurecer os termos de investimento para a nova fronteira de exploração marítima poderia conter rapidamente o entusiasmo internacional. O Brasil está até mesmo gerando comparações com a Bolívia e Venezuela, dois países sul-americanos que nacionalizaram parte de seus setores de energia nos últimos anos.

Ainda assim, o Brasil continua bem mais aberto ao investimento estrangeiro do que esses vizinhos, e tem encorajado companhias estrangeiras de petróleo como Exxon Mobil, Shell e Chevron a investirem bilhões de dólares na exploração marítima, apesar de sem muito sucesso até o momento.

Mesmo se a Petrobras pedir ajuda de outras grandes companhias de petróleo, o desenvolvimento de Tupi exigirá a solução de desafios técnicos espinhosos e a execução de um projeto em uma escala que nunca tentou antes. As primeiras quantidades comerciais de petróleo deverão estar disponíveis apenas em sete anos.

José Sérgio Gabrielli, o presidente da Petrobras, disse estar otimista de que a empresa será capaz de desenvolver o campo com pouca ajuda externa.

"Nós achamos que podemos desenvolver o campo mais rapidamente do que pensávamos a princípio", disse Gabrielli em uma entrevista aqui, na semana passada. "Nós não achamos que temos um desafio insuperável no lado tecnológico."

Há apenas uma década, a idéia de que o Brasil se tornaria auto-suficiente em energia, muito menos despontar como um exportador, parecia absurda -mesmo na cidade litorânea ensolarada do Rio, onde fica a sede da Petrobras. A empresa foi criada há cinco décadas em grande parte como uma importadora de petróleo para atender ao crescimento da economia brasileira, que agora é a 10ª maior do mundo e sustenta mais de 185 milhões de habitantes.

Mas há dois anos, mesmo sem Tupi, o Brasil atingiu sua há muito pretendida meta de auto-suficiência em energia, em parte com a expansão de suas reservas domésticas de combustível fóssil e em parte com o desenvolvimento de uma grande indústria de etanol a partir da cana-de-açúcar. Atualmente a Petrobras tem a meta de elevar a produção brasileira de óleo cru em pelo menos 100 mil barris por dia a cada ano.

Com Tupi, os 12,2 bilhões de barris de reservas comprovadas do Brasil passariam para cerca de 17,2 bilhões, colocando o Brasil à frente dos 17,1 bilhões do Canadá e dos 12,9 bilhões do México. O país ficaria entre a China e a Nigéria na escala mundial, segundo a BP Statistical Review of World Energy. A Venezuela, em comparação, possui cerca de 80 bilhões de barris de reservas comprovadas. O rápido crescimento econômico e o declínio da produção em países ricos em petróleo como a Indonésia, México e Irã estão atrapalhando quanto podem exportar, estressando o mercado global de petróleo. Em alguns casos, os governos desses países subsidiam enormemente a gasolina em casa, o que tende a encorajar hábitos perdulários.

Mas o Brasil, com um crescimento econômico em ritmo saudável, vende combustível aos seus cidadãos basicamente a preços de mercado. E o imenso esforço de três décadas para transformar cana-de-açúcar em etanol tornou o Brasil o maior consumidor de biocombustíveis vegetais do mundo. O governo exige que a gasolina contenha um mínimo de 25% de álcool e que todo posto de combustível tenha pelo menos uma bomba de etanol puro.

O crescimento do programa de etanol está colocando o Brasil em uma melhor posição para tirar proveito da riqueza de Tupi, disse Gabrielli. A Petrobras espera que o uso do etanol crescerá à medida que mais veículos flex cheguem às ruas. "Nós teremos mais gasolina para exportar do que temos hoje", ele disse, "porque parte do espaço da gasolina será tomado pelo etanol".

A Petrobras atualmente vende cerca de 90% de seus produtos refinados no mercado brasileiro. Para assegurar um futuro como exportadora, a Petrobras está construindo duas novas refinarias que deverão entrar em operação em 2010 e 2014, que aumentarão a capacidade de refino do país em quase 40%. A empresa também está investindo em unidades que expandirão sua produção de diesel a partir de petróleo pesado, e está investindo US$ 8,6 bilhões na redução do enxofre em suas 11 refinarias.

Mas o maior desafio será desenvolver Tupi em grande campo produtor. O campo fica cerca de 7 quilômetros abaixo da superfície do oceano. Para chegar até ele, a Petrobrás terá que atravessar mais de 2 mil metros de água e depois perfurar mais de 5 mil metros de areia, rocha e uma imensa camada de sal que se estende por centenas de quilômetros. Perfurar ao redor ou através do sal representa um desafio mais significativo do que perfurar as camadas de sal do Golfo do México, que são mais dispersas, disseram analistas.

Alguns analistas prevêem que Tupi poderá custar mais de US$ 20 bilhões para ser desenvolvido, uma estimativa não confirmada por Gabrielli. Plataformas de perfuração estão em falta no mundo, com os preços chegando a quase US$ 600 mil por dia para os maiores navios.

A primeira grande tarefa, disse Gabrielli, é encontrar um escoamento para as imensas quantidades de gás natural também presentes no campo de Tupi, que fica a quase 320 quilômetros da costa. Dadas as dificuldades de construção de um gasoduto vindo de local tão remoto, a Petrobrás está considerando a construção de usinas flutuantes de liquefação de gás natural ou uma turbina flutuante a gás para geração de eletricidade.

Para enviar o petróleo para a costa, os engenheiros da empresa terão que encontrar formas inovadoras para manter os oleodutos aquecidos e desenvolver revestimentos mais fortes para os poços resistirem aos efeitos da corrosão do sal.

A nova fronteira de petróleo descoberta pela Petrobras e suas parceiras -incluindo a BP do Reino Unido- na Bacia de Santos, onde Tupi se encontra, poderá levar a empresa a reduzir seus investimentos na África e no Golfo do México em prol de um maior gasto no desenvolvimento das reservas brasileiras. "A empresa estará sobrecarregada e terá que rever sua estratégia", disse Roger Diwan, um sócio da PFC Energy, em Washington.

A descoberta de Tupi mudou o estado de espírito no Brasil aparentemente da noite para o dia. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, brincou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o chamando de "xeque do petróleo". O próprio Lula declarou que a descoberta era prova de que "Deus é brasileiro" e prometeu que o Brasil buscará o ingresso na Organização dos Países Exportadores de Petróleo em alguns anos.

O sucesso da Petrobras está longe de ser um acidente. Em 1997, o governo brasileiro abriu a divisão de exploração e produção da Petrobras para empresas estrangeiras e a abriu para investidores privados. Mais importante, a empresa desenvolveu perícia em exploração em águas profundas que a colocam no mesmo patamar que a Shell e a Exxon Mobil.

"Ela não é tão fechada quanto muitas empresas estatais de petróleo", disse Donald Hertzmark, um consultor de energia internacional em Washington. "Ela é amplamente considerada de classe mundial em exploração em águas profundas e tem buscado uma série de joint ventures em todo o mundo."

A ascensão da Petrobras contrasta enormemente com o declínio de outra grande companhia de petróleo na América do Sul, a Petroleos de Venezuela, a estatal venezuelana conhecida como PDVSA. Enquanto a Petrobras atinge produções recordes, a produção da PDVSA tem caído desde que Chávez foi eleito em 1998.

Chávez renacionalizou partes do setor venezuelano ao impor termos muito mais duros para as companhias de petróleo estrangeiras.

Gabrielli disse que Petrobras evitará seguir o caminho adotado pela Venezuela e pela Bolívia. Ele disse ser a favor da imposição de termos mais duros para a região subsal onde Tupi está localizado, algo que está sendo considerado pelo Congresso brasileiro.

Mas ele disse que a Petrobras já arcou com o risco considerável de exploração, tornando uma aposta muito menor para as empresas estrangeiras que desejarem explorar ainda mais a região marítima. E ele acrescentou que a maioria dos grandes países produtores de petróleo, não apenas aqueles que proclamam suas ambições socialistas, impõe termos mais duros às companhias de petróleo estrangeiras, especialmente em tempos de altos preços do petróleo.

"Após a descoberta que fizemos", ele disse sobre os lucros potenciais a serem obtidos pelas grandes companhias de petróleo, "isto é como comprar um bilhete premiado de loteria". George El Khouri Andolfato

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