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11/01/2008

Suposto sexismo na campanha faz crescer apoio do eleitorado feminino a Hillary Clinton

The New York Times
Jodi Kantor
Se a disputa eleitoral já não dizia respeito ao sexo do candidato, agora certamente diz.

A senadora Hillary Rodham Clinton está fazendo campanha para tornar-se presidente há quase um ano. Mas na semana passada, as mulheres em Iowa rejeitaram-na, poucos dias antes de as mulheres em New Hampshire a terem apoiado. Em todo o país, telespectadores escrutinam a cobertura televisiva em busca de sinais de chauvinismo na campanha, e muitos dizem ter descoberto exemplos alarmantes.

Até mesmo mulheres democratas sem nenhuma intenção em votar em Hillary Clinton viram-se arrastadas para a polêmica, e ficaram abaladas por aquilo que por um breve momento deu a impressão de ser um fim humilhante para a mais promissora candidatura feminina na história norte-americana.

Doug Mills/The New York Times
Hillary Clinton conversa com uma eleitora durante campanha em New Hampshire
O processo parece ter modificado algumas cabeças.

"Fiquei realmente triste com a possibilidade de a campanha dela ter de fato terminado", diz Amy Rees, uma dona de casa de São Francisco que votará na eleição primária democrata da Califórnia em fevereiro de 2005. "Fiquei pensando se a verdade não seria que uma mulher - até mesmo uma mulher com preparo e inteligência inquestionáveis como ela - não é capaz de obter uma vitória sequer em uma prévia. Isso realmente doeu".

Rees preferia o senador Barack Obama; agora ela está pensando em votar em Hillary Clinton.

Até algumas semanas atrás, Hillary Clinton estava longe de dar a impressão de ser uma pessoa que necessitasse de defesa - contra o sexismo ou qualquer outra coisa. Ela era a favorita para conquistar a vaga de candidata à presidência pelo Partido Democrata. E ela é uma Clinton. E como ex-primeira-dama, Hillary Clinton constitui-se em um teste complicado do sucesso feminino.

Ao perder a primeira disputa presidencial, Hillary Clinton pode ter tido sucesso no sentido de fazer com que um número maior de mulheres a veja como ela própria se apresenta: não como uma figura dominante de poder, e sim como uma mulher que tenta romper aquilo que ela chama de "o mais elevado e duro teto para o avanço profissional" nos Estados Unidos.

"Eu de fato quero que Hillary Rodham Clinton assuma a Casa Branca, mas até a sua derrota em Iowa eu não tinha percebido o quanto desejava isso, ou até que ponto isso estava vinculado ao fato de ela ser mulher", diz Allison Smith-Estelle, 37, diretora do programa contra violência doméstica em Red Lodge, em Montana.

Segundo dezenas de mulheres de Estados nos quais serão realizadas eleições primárias, o que as incomodou tanto quanto o resultado em Iowa foi a reação alegre que se seguiu à derrota de Hillary Clinton e aqueles que pareceram ter sido golpes baixos desfechados nos momentos finais que antecederam a votação em New Hampshire.

Michelle Six, 36, advogada e eleitora de John Edwards em Los Angeles, ficou horrorizada ao ouvir Obama afirmar que Clinton é "suficientemente agradável" durante um debate democrata no sábado. Six diz ter achado a afirmação arrogante, e um eco de outras afirmações cruéis feitas sobre mulheres no decorrer dos anos.

Ela diz que a questão da agradabilidade, inicialmente levantada por um moderador, "não teria vindo à tona se ela não fosse mulher".

Six diz ter ouvido no trabalho colegas do sexo masculino zombando de Hillary Clinton devido ao fato de a candidata ter ficado com os olhos marejados e a voz embargada durante um episódio da campanha em New Hampshire. "Ela acabou", disse um dos homens, gargalhando.

"Com aquilo, Hillary Clinton pode ter conquistado o meu voto", afirma Six. "Eu não sei se antes daquele episódio eu tinha uma consciência elevada em relação ao sexo dos candidatos em uma disputa eleitoral", disse ela.

Em New Hampshire, dois desordeiros gritaram para Hillary Clinton que a candidata deveria passar a roupa deles - algo que enfureceu diversas eleitoras depois que o incidente foi amplamente divulgado. E Hillary é a única candidata cujo tom de voz é alvo de reclamações dos seus críticos.

Para muitas mulheres, esses momentos são profundamente pessoais, porque eles fazem com que elas se lembrem de desprezos acumulados. Embora Sarah Kreps, 31, que está se mudando para Nova York, tenha dito que votará em Obama, o fato de ter visto o debate de Hillary Clinton a fez lembrar do período em que serviu na Força Aérea, e do desconforto por ser a única mulher em meio a um grupo de homens. As críticas à voz de Hillary Clinton fizeram com que Kreps se recordasse de quando o seu patrão apertou o botão de supressão do volume durante uma conferência para dizer a ela que a sua voz era muito aguda.

Agora que Clinton passou de uma liderança sólida para um empate com Obama na mais recente pesquisa nacional Gallup de opinião, algumas eleitoras estão reavaliando incidentes que atualmente são vistos com suspeita: o debate no qual Edwards mencionou o casaco brilhante que Hillary Clinton usava, ou aquele no qual perguntaram à candidata se ela preferia diamantes ou pérolas.

Outras mulheres mencionaram como ficaram chocadas ao constatar a maneira como a única candidata do sexo feminino é vista por alguns eleitores. Para Jody Cohen, 31, uma recrutadora do Condado de Orange, na Califórnia, isso ocorreu quando um parente lhe disse que admira Bill Clinton, mas que não votaria na mulher dele porque esta continuou com o marido após o escândalo Monica Lewinsky.

Priya Chaudhry, 31, uma advogada em Nova York e eleitora de Hillary Clinton, concorda. "Eles punem a mulher que ficou do lado de Bill Clinton, mas perdoam o próprio adúltero?", questiona Chaudhry. Ela acrescenta que ouviu a mesma crítica à Hillary Clinton diversas vezes.

Algumas mulheres dizem que o momento de lágrimas de Hillary Clinton, que muitas delas disseram ter sido comovente, pareceu desnortear os seus maridos, filhos e colegas do sexo masculino.

"Provavelmente não existe nenhuma mulher acima dos 40 anos que não tenha se encontrado em uma situação similar, na qual o seu desempenho no trabalho é questionado ou contestado, e que não tenha ficado com os olhos marejados", diz Lisa Goff, 48, escritora freelance em Charlottesville, no Estado de Virgínia. "Hillary lidou com aquele momento da maneira com que todas nós esperamos lidar, permanecendo articulada e não caindo em uma crise de choro".

Porém, as mulheres mais jovens podem ver Hillary Clinton de uma maneira diferente. Em Iowa e em New Hampshire, as mulheres democratas dividiram-se em dois grupos de acordo com a faixa etária. As mais velhas votaram preponderantemente em Hillary Clinton, enquanto as mais novas preferiram Obama.

Em entrevistas, algumas mulheres democratas de mais de 40 anos, que disseram ter sofrido discriminações sexistas na escola e no ambiente de trabalho, deram a impressão de ansiar pela eleição de uma presidente do sexo feminino - elas afirmaram que Hillary Clinton ocuparia esse papel de maneira perfeita -, algo que elas considerariam um grande momento de validação para as mulheres. Mas as mulheres mais novas, que cresceram em um mundo de maior igualdade, parecem menos propensas a permitir que o sexo do candidato influencie o seu voto.

Em certos casos, esta divisão pode ser presenciada dentro de famílias. Myra Dinnerstein, 73, uma ex-professora de estudos sobre mulheres da Universidade do Arizona, diz que os infortúnios de Hillary Clinton a entristeceram e enfureceram. "Eu dizia aos meus alunos que não viveria para ver uma mulher presidente, e agora que existe uma chance de ouro para que isto aconteça, estamos deixando a oportunidade escapar", diz Dinnerstein.

Poucas horas depois, após receber a notícia da vitória de Hillary Clinton na primária em New Hampshire, ela enviou um e-mail comemorativo: "Viva! Creio que as mulheres ficaram tão bravas quanto eu ao verem Hillary ser desrespeitada. Acho que elas perceberam que 'a questão do gênero' existe de fato".

A filha de Dinnerstein, Julie Dinnerstein, 39, que trabalha para uma organização feminista não governamental em Nova York, diz que votará em Obama na prévia de 5 de fevereiro. "As lutas da senadora Clinton não são as minhas e tampouco as da minha geração de mulheres", afirma a Dinnerstein mais nova. "A idéia de uma mulher tornar-se presidente simplesmente não me parece tão poderosa ou revolucionária quanto é para as feministas da geração da minha mãe".

Mas, se Hillary Clinton perder a vaga de candidata pelo Partido Democrata, a Dinnerstein mais nova ficará chateada?

Sim, admite ela. "Mas só porque isso aborrecerá a minha mãe". UOL

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