UOL Notícias Internacional
 

12/01/2008

Uma mala de dinheiro e um grampo envolvem Argentina, Venezuela e EUA em intriga

The New York Times
Simon Romero e Alexei Barrionuevo*

Em Caracas, Venezuela
Certo dia em agosto passado, uma policial de aeroporto em Buenos Aires notou algo peculiar enquanto monitorava o raio X da bagagem: o surgimento de seis retângulos perfeitos, densos, dentro de uma mala.

Ela pediu ao passageiro, Guido Alejandro Antonini Wilson, uma das oito pessoas a bordo de um avião fretado pela companhia estatal de petróleo da Argentina que veio de Caracas, para abrir a mala. "Ele ficou congelado e não disse uma palavra", disse posteriormente a policial em uma entrevista de rádio.

Quando ele a abriu, quase US$ 800 mil em dinheiro apareceram.

Antonini, um empresário com cidadania venezuelana e americana, agora está no centro de um mistério de espionagem e um imbróglio diplomático envolvendo Argentina, Venezuela e Estados Unidos. As autoridades americanas retrataram o episódio como um raro vislumbre da forma como o presidente Hugo Chávez usa a riqueza do petróleo para espalhar sua influência, dizendo que o dinheiro era destinado à campanha de Cristina Fernández de Kirchner, a nova presidente da Argentina.

A Venezuela e a Argentina o descrevem como uma tentativa amadorística dos americanos de manchar seus governos. Cristina Kirchner chamou o caso de "operação suja" dos americanos, enquanto a agência oficial de notícias da Venezuela alegou nesta semana se tratar de um plano da CIA.

Mas os investigadores americanos, em documentos judiciais, disseram que um dispositivo de gravação escondido, que persuadiram Antonini a usar após a apreensão do dinheiro, revelou que espiões e empresários venezuelanos o ameaçaram e o pressionaram a encobrir o destino do dinheiro.

O promotor federal em Miami está processando esses homens por não terem se registrado como agentes estrangeiros. O processo acusa os quatro venezuelanos e um uruguaio no sul da Flórida de tentarem encobrir uma operação que fracassou e impedir Antonini de vir a público.

Nem Antonini e nem sua advogada, Theresa van Vliet, responderam aos vários pedidos para entrevistas.

Thomas A. Shannon Jr., secretário-assistente de Estado para assuntos do Hemisfério Ocidental, disse na sexta-feira que a reação argentina foi "lamentável e não positiva", mas que a investigação "não tem propósito político". Ele disse que recentes declarações das autoridades argentinas indicaram que os argentinos "entenderam que se trata de um processo judicial e que é melhor para todos deixar que ele se esgote sozinho".

O caso teve início quando Antonini, 46 anos, retornava para sua casa em Key Biscayne, Flórida. Em questão de dias, ele começou a cooperar com os investigadores americanos, lhes oferecendo o que alegaram ser uma visão de uma operação na qual ricos empresários venezuelanos no sul da Flórida tramavam com autoridades como o chefe de espionagem e ex-vice-presidente de Chávez.

Antonini pode ter pedido ajuda americana após investigadores argentinos terem pedido sua extradição. Dois dias após ser pego com o dinheiro, Antonini foi visto no palácio presidencial em Buenos Aires celebrando a assinatura de acordos comerciais com a Venezuela, segundo Victoria Bereziuk, uma secretária argentina que estava no palácio e que era uma das passageiras do avião em que estava Antonini, segundo investigadores argentinos.

Alberto Fernández, o chefe de gabinete de Cristina Kirchner, negou posteriormente a afirmação dela, dizendo que o governo argentino não tem nenhum registro da presença de Antonini no palácio.

O que está claro é que assim que deixou a Argentina, ele concordou em ser gravado, fotografado e filmado por agentes do FBI enquanto falava com vários venezuelanos na Flórida, que o persuadiram, pressionaram e ameaçaram para que ficasse quieto e aceitasse documentos fictícios sobre a origem e intenção do dinheiro, afirmam investigadores americanos. O governo realizou 41 gravações de áudio e oito de vídeo, mostram os autos do processo.

A vigilância ocorreu em uma série de restaurantes e cafés. O Jackson's Steakhouse em Fort Lauderdale, Flórida, foi o cenário de um encontro em 23 de agosto no qual Carlos Kauffmann, um empresário venezuelano de 36 anos, disse para Antonini que não era do melhor interesse venezuelano que ele tivesse quaisquer "problemas" na Venezuela. Um advogado venezuelano assegurou a Antonini que a companhia estatal de petróleo venezuelana, a Petroleos de Venezuela, pagaria por todas as despesas legais e multas que pudessem resultar do escândalo da mala.

Mas em 7 de setembro, quando Antonini se encontrou com Franklin Duran, um amigo e magnata venezuelano de produtos de petróleo de 40 anos, no restaurante Quarterdeck em Fort Lauderdale, Duran lhe disse que as autoridades venezuelanas não confiavam mais em Antonini e suspeitavam que ele estava falando com as autoridades americanas.

A certa altura, dois dos suspeitos ofereceram US$ 2 milhões a Antonini para que se calasse, segundo os promotores. Em outra ocasião, Duran disse a Antonini que se não cooperasse, seus filhos estariam em perigo.

Em 27 de outubro, Moisés Maionica, 36 anos, outro suspeito venezuelano sob custódia, disse a Antonini por telefone que um "emissário" tinha sido enviado pela Venezuela para se encontrar com ele em um café Starbucks em Plantation, Flórida, o ponto de encontro acertado.

O emissário era Antonio José Canchica Gómez, um agente do serviço de inteligência DISIP da Venezuela, segundo os investigadores. No dia seguinte, Rodolfo Wanseele Paciello, também acusado no caso, levou Canchica de carro ao Starbucks. Um código foi acertado previamente.

"Christian", murmurou Antonini na direção de Canchica no Starbucks.

Após a aceitação da palavra código, Canchica assegurou a Antonini que ele seria "discreta e habilmente ajudado", disseram os promotores americanos, e que ele, Canchica, era o "último elo na cadeia".

Quando o encontro de 40 minutos acabou, Paciello levou Canchica até o Hard Rock Casino and Hotel, a 11 quilômetros de distância. Mas Paciello, aparentemente tentando despistar qualquer carro que porventura o estivesse seguindo, percorreu 69 quilômetros em vez dos 11, realizando constantes mudanças de direção e andando a 55 km/h na Florida Turnpike, onde o limite de velocidade é 110 km/h.

Foi, segundo os investigadores americanos, uma tentativa de contra-vigilância. Não funcionou: o FBI assistia a tudo por vídeo, como um agente testemunhou no tribunal em dezembro.

Três dias depois, Canchica partiu de Miami por avião. Em 12 de dezembro, o FBI prendeu os três venezuelanos e Paciello, o uruguaio.

Canchica, o quinto suspeito, continua foragido. As autoridades americanas, que pediram anonimato por causa da sensibilidade diplomática do caso, disseram acreditar que ele fugiu para Cuba, fora do alcance dos serviços de inteligência americanos em um país que é aliado estreito da Venezuela.

Nenhuma investigação de Antonini ou dos envolvidos no suposto acobertamento foi aberta aqui, deixando o governo da Venezuela aberto a acusações de não desejar que a verdade venha à tona.

Isto deixa o ônus da prova a cabo dos promotores federais nos Estados Unidos.

Ainda restando meses para o julgamento, algumas dúvidas chave persistem: quem deu a ordem para os empresários venezuelanos procurarem Antonini em solo americano? De onde veio o dinheiro na mala de Antonini? E o que motivou Kauffmann e Duran, dois ambiciosos magnatas venezuelanos envolvidos no escândalo e que se declararam inocentes das acusações?

O Departamento de Estado disse que os promotores em Miami iniciaram o caso sem ordens de Washington e que os indiciamentos não foram motivados por desejos de manchar o governo Chávez. Um alto funcionário americano disse que o Departamento de Estado soube do caso logo depois do início da investigação, mas não interferiu.

O advogado de Duran em Miami, Edward R. Shohat, disse que o caso não deveria ser de interesse dos Estados Unidos: "Aqui, basicamente, cidadãos venezuelanos são acusados de tentar influenciar a conduta de outro cidadão venezuelano em respeito a uma apreensão de dinheiro na Argentina, que, se tal conduta representar uma obstrução da Justiça, afetaria apenas os procedimentos na Argentina. Não há nenhum interesse dos Estados Unidos envolvido".

Este caso não é o primeiro em que a promotoria federal em Miami caça um governo hostil com base em declarações envolvidas em uma investigação.

Thomas Mulvihill, o promotor federal responsável pelo caso, também acusou Fidel Castro de Cuba, no final dos anos 80, de se beneficiar como intermediário no tráfico de cocaína procedente da Colômbia, acusações que nunca foram substanciadas. Em um caso separado em fevereiro, um ex-professor da Universidade Internacional da Flórida e sua esposa foram condenados por agirem como agentes não registrados do governo cubano.

Mas o atual caso é incomum porque o estatuto quase sempre é usado em casos onde pessoas são acusadas de tentar espionar comunidades de estrangeiros, ou naqueles em que os suspeitos são vistos como um risco à segurança nacional, disseram especialistas.

Desta vez, insiste Mulvihill, os suspeitos em questão incriminaram a si mesmos no esquema.

"As conversas gravadas indicam claramente que estavam falando em nome de um governo estrangeiro, e as conversas gravadas são suas próprias palavras", disse Mulvihill em um tribunal em Miami, em dezembro.

* Reportagem de Simon Romero, em Caracas, e Alexei Barrionuevo, em Miami e no Rio de Janeiro. Vinod Sreeharsha em Buenos Aires, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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