UOL Notícias Internacional
 

13/01/2008

Vidas de pobreza aflitiva, intocadas pelo 'boom' econômico da China

The New York Times
Howard W. French
em Yangmiao, China
Quando adoece, Li Enlan, 78 anos, colhe ervas que crescem na mata perto dali em vez de comprar medicamentos modernos. Mas não se trata de uma opção filosófica. Ele nunca viu um médico e, como muitos moradores desta área, vive em uma magra economia de troca, raramente entrando em contato com dinheiro. "De alguma forma comemos, mas nunca é suficiente", disse Li. "Mas pelo menos nunca passamos fome."

Nesta região ao sul da província de Henan, em uma aldeia atrás da outra, as pessoas são pobres demais para aquecerem suas casas no inverno e muitas carecem de confortos básicos como água corrente. Celulares, um símbolo quase ubíquo da mobilidade para o alto em grande parte do país, são vistos como um luxo impossível. As pessoas aqui freqüentemente começam conversas com uma frase que ainda não é incomum na China atual: "Nós somos pobres".

A China retirou mais pessoas da pobreza do que qualquer outro país nas últimas décadas, mas a persistência da destituição em lugares como o sul da província de Henan se encaixa nos resultados de um recente estudo do Banco Mundial, que sugere que ainda há 300 milhões de pobres na China -três vezes mais do que o banco estimava anteriormente.

A pobreza é mais severa nas margens geográficas e sociais da China, sejam as áreas montanhosas ou desérticas que envolvem o país ou as áreas dominadas por minorias étnicas, que por motivos culturais e históricos se beneficiaram bem menos do que as demais com a longa ascensão econômica do país.

Mas também persiste em locais como Henan, onde as densidades populacionais estão entre as maiores da China, e para onde a nova riqueza da costa acena, quase zombeteiramente, a uma mera província de distância.

"Henan possui a maior população de qualquer província, próximo de 100 milhões de pessoas, e a terra ali não consegue sustentar estes números", disse Albert Keidel, um associado sênior do Fundo Carnegie para a Paz Internacional e um especialista em pobreza chinesa. "Deveria ser uma rica fornecedora de alimentos, mas sempre houve grande discriminação contra áreas baseadas em grãos na China. O lucro obtido por um hectare de terra com hortifrutis, ou com criação de peixes ou produção de óleos, é muito maior."

Outros especialistas dizem que Henan e outras partes densamente povoadas do interior chinês freqüentemente são excluídas do apoio financeiro dado às áreas costeiras, e que as poucas medidas antipobreza existentes surtem pouco efeito. Geralmente, a população destas áreas diz que as autoridades locais corruptas se apropriam do dinheiro destinado a ela, que as autoridades embolsam as quantias ou as desviam para investimentos em negócios.

Paradoxalmente, dizem os moradores, eles são ignorados precisamente devido à sua proximidade dos grandes centros econômicos do leste, forçados a se virarem sozinhos com base na teoria de que podem sobreviver com a renda enviada para casa pelos trabalhadores migrantes e outras formas de escoamento de riqueza.

"A política anterior de alívio da pobreza se concentrou mais no oeste da China, em locais como Gansu, Qinghai ou Guizhou, que eram mais pobres", disse Wang Xiaolu, vice-diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica, uma organização não-governamental em Pequim. "Além disso, a situação nas regiões de fronteira é mais complicada, porque quando as coisas vão mal ali, se torna mais do que um problema de pobreza. Este é o motivo das políticas se voltarem para elas."

Aqui no condado rural de Gushi, em Henan, apenas 73 mil dos 1,4 milhão de agricultores se encontram abaixo da linha oficial de pobreza de US$ 94 por ano, que supostamente são suficientes para cobrir as necessidades básicas, incluindo a manutenção de uma dieta diária de 2 mil calorias.

"Nós devemos ter em mente que este é um padrão de pobreza muito baixo", disse Wang, repetindo o ponto de vista de muitos economistas chineses.

Muito mais pessoas nesta parte de Henan subsistem entre a linha oficial de pobreza e o padrão de US$ 1 por dia há muito usado pelo Banco Mundial. No mês passado, a estimativa do Banco Mundial do número de pessoas pobres na China triplicou, de 100 milhões para 300 milhões, após uma nova pesquisa de preços ter alterado o quadro do que um dólar pode comprar.

O novo padrão foi estabelecido segundo o que os economistas chamam de paridade de poder aquisitivo. Segundo os novos cálculos, as estimativas do tamanho geral da economia chinesa também encolheram em 40%.

Dado o tamanho imenso da população da China, mesmo uma pequena mudança na definição de pobreza pode produzir estimativas enormemente diferentes.

"A diferença entre uma renda de US$ 1 e US$ 2 por dia é um número imenso de pessoas, digamos 450 milhões", disse Khalid Malik, um representante local do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, em Pequim.

"Somos terrivelmente pobres"

Os camponeses aqui são os primeiros a dizer a um visitante que independente de quais sejam as estatísticas, eles permanecem atolados em pobreza profunda. Os aldeões por todo este condado dizem que várias medidas recentes e altamente divulgadas do governo central para reduzir o fardo dos camponeses resultaram apenas em um efeito modesto sobre suas vidas. Elas incluem a abolição dos impostos agrícolas para os camponeses, o cancelamento da taxa de ensino para seus filhos e novos planos de aposentadoria e saúde que parecem no papel mais generosos para os pobres rurais.

Como a maioria dos camponeses aqui mantém apenas contato de vislumbre com a economia de dinheiro, a isenção de impostos é altamente irrelevante.

Mesmo com a abolição das despesas com a taxa de ensino, eles ainda são apertados por uma proliferação de outras taxas escolares. De forma semelhante, outros disseram, as taxas de participação e deduções concedidas aos planos de aposentadoria e saúde rurais estão fora de seu alcance financeiro.

"Nós somos terrivelmente pobres", disse Zhou Zhiwen, uma mulher de 55 anos em Yangmiao, cuja casa de tijolos a coloca em melhor condição do que a maioria das pessoas, que ainda vivem de estruturas feitas de terra. "Nós cultivamos o suficiente apenas para nos alimentarmos, sem nenhum ganho adicional. Nós não temos mais que pagar a taxa de grãos, mas nossas vidas não melhoraram muito."

Ao ser perguntada como se virava, Zhou disse que ocasionalmente recebe ajuda de parentes que migraram para outros locais em busca de trabalho. "Se as pessoas vivessem bem em casa, quem ia querer migrar", ela disse. "Todos os nossos jovens estão trabalhando em outros lugares."

Para muitos aldeões, o governo central está fora de contato com as realidades rurais em lugares como este, e o governo local está cheio de autoridades mercenárias que empregam o dinheiro destinado aos pobres rurais em obras nas cidades provinciais ou simplesmente embolsam o dinheiro.

"As pessoas comuns não recebem quaisquer benefícios reais dos programas de alívio da pobreza", disse Li Guangyi, 35 anos, um agricultor que vive na aldeia de Zhangyoufang. "Como o dinheiro de ajuda poderia chegar às nossas mãos? Ele primeiro ajuda as autoridades locais, que enriquecem com as tragédias da nação."

David Dollar, um representante do Banco Mundial em Pequim, atenuou a importância do governo central no alívio da pobreza, dizendo que os resultados provinciais tinham muito mais a ver com o sucesso das autoridades locais na criação de um clima de investimento atrativo.

Grande parte da pobreza restante, ele disse, envolvia lares que careciam de trabalhadores migrantes ou de trabalhadores fisicamente aptos. "Muito freqüentemente a pobreza está relacionada a um problema de saúde ou ferimento, ou com a falta de uma pessoa fisicamente apta", disse Dollar. "Tradicionalmente, a abordagem do governo chinês tem sido ajudar a aldeia a crescer, mas se há poucas pessoas fisicamente aptas, é preciso trabalhar em questões de uma rede de segurança social."

Mas no condado de Gushi, mesmo famílias com membros que migraram para o leste em busca de trabalho continuam atoladas na pobreza, e a situação dos próprios migrantes permanece precária.

Shen Kexia, 33 anos, que partiu de sua aldeia com seu marido para trabalhar em Hangzhou, uma próspera cidade costeira do sul, recentemente voltou para casa para o nascimento de sua segunda filha. Ela e seu marido planejam deixar suas duas filhas com os pais idosos de Shen assim que o bebê for grande o bastante.

"Se meus sogros adoecerem, nós não poderemos partir", ela disse. "Nós viemos para casa para ter este bebê porque não podemos arcar com a despesa de tê-lo em Hangzhou, mas se tivéssemos dinheiro, nós não voltaríamos." Recente estudo do Banco Mundial sugere que ainda há 300 milhões de pobres na China, três vezes mais do que o banco estimava anteriormente George El Khouri Andolfato

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