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14/01/2008

Na Espanha, um silêncio monumental

The New York Times
Michael Kimmelman
em Madri, Espanha
No mês passado, a Espanha aprovou uma lei que não faz muito sentido, à primeira vista, mas que diz muito sobre a Europa no novo século.

O parlamento, cumprindo uma promessa de campanha de 2004 do primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero, ordenou que as famílias que quisessem exumar os corpos de parentes mortos durante a Guerra Civil Espanhola do final da década de 1930, ou que sofreram conseqüências políticas do regime de quatro décadas do general Francisco Franco, poderiam receber total cooperação do governo. Ao mesmo tempo, todas as províncias do país deveriam retirar os monumentos remanescentes em homenagem a Franco.

Desenterrar o passado - e apagá-lo. Tanto faz que com o decorrer dos anos tais monumentos já tenham sido removidos, tornando a lei bastante ineficaz e simbólica. Mesmo assim, nos debates a respeito dela, ninguém chegou a falar muito a respeito da contradição inerente.

Ou é uma contradição? "Uma nova geração começou a olhar para o passado", explicou-me Santos Júlia, importante historiador dos anos pós-Franco, em uma manhã, recentemente. "São os netos da guerra civil. Minha geração queria discutir o que aconteceu, sem a sensação de culpa. Os netos olham para os mesmos anos de reconciliação como uma condescendência infinita, e está na hora de estabelecer a responsabilidade."

Os sobreviventes construíram monumentos para lembrar dos mortos, e derrubaram as estátuas dos tiranos que os mataram, mas em geral, em vão. Estátuas e memoriais registram a história, que cada geração reescreve para sua conveniência. Em Budapeste, Hungria, as estátuas de ídolos comunistas foram transferidas para um parque nos arredores da cidade tornando-se lápides virtuais em uma espécie de cemitério kitsch. A Rússia, em seu ímpeto de prosperidade, continua visivelmente relutante em rediscutir o passado, mas também removeu muitos sinais do domínio soviético.

E por certo ninguém analisou mais detalhadamente os símbolos e espaços públicos do que os alemães, para os quais cada pedra e sinal de rua evocam um novo monumento. A sala de reuniões do ministro alemão das Relações Exteriores em Berlim é um exemplo do ponto até onde foram os alemães, mesmo em locais privados. Originalmente o escritório do presidente do banco estatal nazista, depois ocupada por Erich Honecker, o líder da Alemanha Oriental, que lá se reunia com seu Politburo, a sala foi mantida praticamente intacta depois da queda do Muro, quando o Ministério das Relações Exteriores se mudou para lá. Então, no local onde estavam pendurados os retratos de Marx e Engels, atrás da cadeira de Honecker, retângulos esmaecidos foram deixados lá, como lembrança de algo a ser evitado.

A Espanha é diferente, embora tenha passado por uma guerra civil. Com seu tradicional medo dos negros demônios das profundezas da alma, os espanhóis, depois da morte de Franco e durante a transição para a democracia entraram no que foi durante muito tempo denominado um pacto de silêncio, que a lei claramente pretende reverter. Como afirmou o historiador Hugh Trevor-Roper, há 40 anos, a respeito de um regime diferente: "Um único déspota em particular pode prolongar idéias obsoletas para além de sua vigência natural, mas a mudança de gerações deve no final livrar-se delas." Pode-se dizer que no caso da Espanha a mudança agora chega com o atraso de uma geração.

Eu recentemente dirigi durante 45 minutos para rever Santa Cruz del Valle de los Caídos, o mais megalomaníaco dos monumentos de Franco. A rodovia, cruzada por touros, aqueles criados para touradas, pastando em campos verdejantes, subitamente fica imersa na neve e na obscuridade. Durante a década de 1950, milhares de prisioneiros trabalhadores cavaram e moldaram centenas de metros em uma montanha de granito sólido para construir uma das maiores e mais lúgubres basílicas do mundo e um memorial à Guerra Civil, sob uma cruz com quase 50 andares de altura.

O local é a expressão do desejo de Franco de reparação nacional. Seu governo, segundo escreveu Raymond Carr, um historiador de Franco, não era exatamente uma vitória da Falange, a versão espanhola do fascismo, "mas da Espanha católica, conservadora, sobre a Espanha liberal da Segunda República." E Franco, em sua cruzada para salvar a civilização cristã, tomou como modelos monarcas como Felipe II, com a intenção de refletir a austeridade monástica do vizinho Escorial de Felipe.

A arquitetura traz à lembrança Albert Speer. Os restos mortais de republicanos assassinados foram exumados de covas coletivas e transportados em caminhões para o vale para serem misturados aos de nacionalistas mortos, de forma que houvesse um lugar para todas as vítimas da guerra civil. Mesmo hoje em dia, a maior parte dos espanhóis não sabe que os republicanos foram enterrados lá com Franco e o fundador do Partido da Falange, o uma vez rival de Franco, Jose Antonio Primo de Rivera.

No altar que fica no ponto mais alto do local, estão os túmulos desses dois homens, com um buquê de flores frescas ao lado das lápides. Conta-se que 400 mil pessoas ainda visitam o local, todos os anos, embora ele estivesse praticamente deserto naquela tarde. Uma jovem família espanhola perambulava melancolicamente em meio ao frio e ao silêncio, olhando atentamente para as ameaçadoras estátuas de soldados e santos. Na praça de fora, coberta de neve, a vista de Madri e da gigantesca cruz desapareciam por trás de negras nuvens.

"A idéia de que os espanhóis realmente foram incapazes de falar a respeito do passado é uma bobagem," disse Charles Powell, historiador, citando muitos livros, filmes e programas de televisão a respeito da guerra civil. Mas declarações públicas são uma coisa diferente, ele explica mais detalhadamente. Em muitas cidadezinhas, onde vizinhos traíram outros e mesmo maridos e esposas não conversam com facilidade sobre a guerra, uma política comum ainda é a do não pergunte, não fale.

Muito antes de a lei ser aprovada, quase todos os monumentos a Franco foram removidos, sob governos socialistas e conservadores. Mas isso foi feito discretamente, sem a divulgação dos assuntos, como se a democracia fosse frágil demais para suportar o debate, dizem alguns, embora provavelmente isso tenha acontecido porque os espanhóis que vivenciaram os últimos anos de Franco simplesmente chegaram à conclusão de que era o melhor a ser feito e seguiram em frente. Isso, porém, ainda deixa uma lacuna.

Mesmo hoje em dia é preciso procurar uma tradução para o inglês de um atraente guia sobre o Valle de los Caídos para encontrar uma rápida menção a respeitos do trabalho forçado dos prisioneiros. Em Madri uma avenida ainda tem o nome de Caudillo, em homenagem a Franco, e uma outra tem o nome da divisão de soldados que Franco mandou para ajudar os nazistas. Em Santander, embora em breve venha a ser substituída por um estacionamento sob ordem do governo local, conservador, há uma estátua eqüestre de Franco, que lembra as estátuas de Jefferson Davies e Stonewall Jackson em cidades do sul dos Estados Unidos onde prefeitos e chefes de polícia são geralmente negros.

Beatriz Rodriguez-Salmones, de 63 anos, que cuida de temas culturais para o Partido Conservador no Parlamento, está furiosa com a nova lei. Exumar túmulos é do direito de qualquer família, diz ela, embora tenha indicado que os parentes do poeta Federico Garcia Lorca não querem interferir na sepultura onde seu corpo foi jogado, junto com os corpos de toureiros e "banderilleros" (toureiros que integram a equipe de um matador) pois, isso iria aviltar a natureza de sua morte. O que acontecerá agora, ela indaga, se os descendentes de "banderilleros" quiserem criar problemas?

"Mas monumentos não têm nada a ver com sepulturas", ela prossegue. "Provavelmente 90% dos monumentos de Franco já foram retirados. Nós tivemos anistias. Nós reconhecemos os direitos dos exilados. Demos compensações a professores que perderam seus trabalhos. Mudamos nomes de ruas, a bandeira, sempre tentando não ferir os sentimentos uns dos outros."

Ela disse que Zapatero está criando problemas em relação aos monumentos para atender aos aliados no Parlamento: "separatistas, republicanos, radicais." Ele precisa dos votos deles, ela acrescenta "e dos votos das regiões Basca e da Catalunha - daqueles que buscam o confronto."

O que ela diz faz sentido. Agora atenuada em relação à época em que era chamada de lei da "memória histórica," como se tal tema jamais pudesse se alvo de legislação, a lei exclui objetos de significado religioso e artístico (embora a definição do que seja arte tenha ficado notavelmente obscura).

Nem mesmo no Valle de los Caídos é provável que aconteça qualquer coisa, a não ser as reuniões políticas, que foram proibidas, uma cláusula destinada a impedir a realização dos tributos anuais do dia 20 de novembro, o aniversário das mortes, tanto de Franco como de primo de Rivera. Mas ninguém parece saber como isso funcionará na prática.

Durante um jantar, Santiago Saavedra, um editor que atingiu a maioridade nas últimas décadas de vida de Franco, se retrai quando vem à tona o tema da nova lei. Ele a considera um ataque à sua geração. "Nós deveríamos nos sentir culpados por tocar as nossas vidas," ele diz.

Powell, o historiador, concordou com a cabeça quando lhe transmiti a observação. "A reconciliação nacional realmente ocorreu durante as décadas de 1960 e 1970, quando Franco ainda estava no poder, por meio de um processo natural, não por um decreto do governo, mas devido ao sentimento coletivo de que a guerra havia sido horrível e que a Espanha precisava seguir adiante," ele disse. A guerra civil mal foi debatida no Parlamento, ele assinalou, até a eleição de um primeiro-ministro conservador, do Partido Popular, José Maria Aznar, em 1996, que encerrou anos de domínio socialista.

"Foi um choque para a esquerda," disse Powell. "Aznar tinha ligações com o passado de Franco. Seu avô era embaixador em Cuba, sob Franco. Portanto, uma forma fácil para os socialistas contestarem a autoridade do Partido Popular era exigir que o partido repudiasse Franco."

Em toda Europa, enquanto o centro político se ampliava, tanto a esquerda como a direita enfrentavam dificuldades para se diferenciar uma da outra. Na realidade, pouco separa as políticas econômicas de Zapatero daquelas de Aznar. Mas enquanto o avô de Aznar era embaixador de Franco, o avô de Zapatero era um republicano, morto na guerra.

Os conservadores que criticam Zapatero dizem que ele está usando políticas de interesse de grupos supostamente excluídos, semelhantes aos debates sobre valores morais nos Estados Unidos, para promover um programa social que inclui a defesa dos direitos de homossexuais, transexuais, mulheres e catalães. A nova lei sobre monumentos acrescenta outro grupo a essa relação: republicanos mortos, os derrotados da guerra civil. Mas para os liberais da geração de Zapatero, isso ainda não é suficiente.

"O que os espanhóis fizeram nas décadas de 1960 e 1970 era voltado para uma outra direção," disse Paloma Aguilar, uma dessas netas da guerra, uma cientista política de 42 anos que escreveu um livro sobre memória histórica. Eu mencionei o editor, e ela se retrocedeu ligeiramente. "Ok, sim, é um tanto quanto injusto criticar a geração de nossos pais. Também é verdade que a maioria das pessoas não se queixa dos monumentos hoje em dia, porque se acostumou a conviver com eles. A geração dos nossos pais tem algum medo de confronto por acreditar que a democracia ainda é frágil. Mas eu cresci sob a democracia. Setenta anos depois da guerra civil nós não podemos permitir que tais monumentos perpetuem a discriminação contra as vítimas."

Eu tive a sensação de que muitos dos espanhóis que forjaram a transição para a democracia e a paz que se seguiu não sabiam o que era melhor para eles, lembrando-me de uma observação de Powell. Ele se referiu a uma "nova nostalgia" pelo Republicanismo. Ela deixa subentendida uma superioridade moral não apenas em relação a Franco mas também em relação ao sistema político atual. Aí, de novo, Aguilar e outros de sua geração percebem claramente que este é o último momento de lutar por monumentos e sepulturas antes que os parentes das vítimas morram (muitos deles seus próprios pais) e a ditadura e seu legado deixem de ser a memória vivida. O impaciente é oportunista.

Fiz uma última parada no apartamento de Blas Pinar. Há alguns anos, sob as ordens do primeiro-ministro, foi dado sumiço a uma estátua de Franco, em uma praça de Madri, no meio da noite. Pinar e outros protestaram. Aos 89 anos, fundador do ultra-direitista Força Nova, que até mesmo Franco achava reacionário demais, ele me deu as boas-vindas, ansioso para se lançar com ímpeto num tipo de discurso de campanha em defesa da antiga ditadura, com pausas, de tempos em tempos, para tomar fôlego por meio de um tubo de traqueostomia.

Sua queixa a respeito da transição, ao contrário daquela da nova geração de esquerdistas, era que se trata de um lobo político em pele de cordeiro. "Um engodo" ele a chamou, "chamada de reforma, mas na verdade uma ruptura, que alterou os elementos mais fundamentais da sociedade: proteção da família, da moral e dos valores religiosos, a unidade da Espanha."

Nem mesmo os monumentos estão sendo removidos, "o golpe final", como ele explica: "a lei da memória histórica é anti-histórica porque tenta apagar a memória de Franco, e todo o bem que ele fez pela Espanha." Proibir os franquistas de se reunir no Valle de los Caídos não vai mudar nada, ele advertiu. "O lugar sempre teve um significado particular. Não se pode separar Franco dele."

Detesto a idéia de concordar com qualquer coisa que ele tenha dito. Mas a legislação sobre monumentos não corrige as injustiças do passado, apenas remexe desastradamente nos símbolos da história, lembrando-nos porque nós os planejamos em primeiro lugar. Afinal, os monumentos ganham significado quando nós os imbuímos disso, do contrário eles fazem companhia às estátuas de monarcas cruéis e sangrentos generais que se tornaram o pano de fundo civilizado de nossos parques e praças.

Pode-se dizer que a situação da Espanha depois da morte de Franco não foi diferente de um casamento: cada lado mantendo o silêncio sobre as lembranças que mais poderiam ferir a outra parte. O silêncio cria um vínculo. É de ouro, como diz o ditado; estátuas e placas são apenas metal e pedra. Isso dito, a nova lei, moldada pelos filhos desse silêncio, paradoxalmente injetam em tais símbolos enferrujados um novo significado para um novo século. Nova lei abre feridas da época da ditadura de Franco Tradução: Claudia Dall'Antonia

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