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15/01/2008

Candidatos democratas tentam atrair os eleitores latinos

The New York Times
Adam Nagourney e Jennifer Steinhauer*

Em Las Vegas
A senadora Hillary Rodham Clinton comeu tacos em East Los Angeles e se sentou no sofá da sala de estar de uma família de classe operária, em um bairro daqui de maioria latina, por 30 minutos televisionados.

Em um comício no sindicato dos trabalhadores culinários à sombra da Strip aqui, em outra noite, o senador Barack Obama ergueu seu punho no ar e cantou com a multidão, "Si, se puede, si, se puede, si, se puede!" ou "Sim, podemos!"

Enquanto os candidatos democratas passam do cortejo de eleitores predominantemente brancos em Iowa e New Hampshire para a série de 25 disputas que enfrentarão nas próximas poucas semanas, eles se vêem diante de um eleitorado cada vez mais latino, em Nevada, Califórnia e Nova York.

Apesar dos dois candidatos cortejarem agressivamente estes eleitores, que poderão ser vitais para os democratas neste ano e no futuro, o desafio é particularmente complexo para Obama. Ele surge no momento em que a disputa continua a desconcertar Hillary e Obama.

Obama enfrenta uma história de relações freqüentemente difíceis e competitivas entre negros e latinos, particularmente enquanto disputam pela influência em cidades como Chicago, Los Angeles e Nova York.

"Muitos latinos não estão prontos para uma pessoa de cor", disse Natasha Carrillo, 20 anos, de East Los Angeles. "Eu não acho que muitos latinos votarão em Obama."

"Sempre houve tensão entre as comunidades negra e latina. Ainda há uma forte divisão étnica. Eu ajudei a organizar campanhas populares e as pessoas com quem falei apóiam Clinton."

Javier Perez, um ex-marine de 30 anos, disse que os latinos mais velhos como sua avó tendem a resistir mais à idéia de apoiar um afro-americano, uma tendência que ele disse estar mudando com os latinos mais jovens.

"Ela se tornou cidadã há apenas cinco anos", disse Perez. "Infelizmente, isto exercerá um papel no voto dela. Eu acho que a raça pesará na decisão dela."

O círculo de conselheiros de Hillary inclui nova-iorquinos bastante experientes em tal histórico de tensões. Em sua primeira viagem após a vitória em New Hampshire, Hillary voou para cá, onde foi levada em uma turnê por proeminentes líderes latinos, incluindo Henry G. Cisneros, um ex-secretário de habitação e desenvolvimento urbano, no que foi rotulado de turnê "Juntos con Hillary, una Vida Mejor".

Daqui ela voou para um enclave mexicano-americano, East Los Angeles, para comer no King Taco, pedido em espanhol pelo prefeito Antonio Villaraigosa, que lhe deu um importante apoio.

Em Chicago, Obama foi bem-sucedido em atrair os latinos para o seu lado e em promover a superação das diferenças entre eles e os eleitores negros. Seu sucesso em repetir isso será crítico nas próximas semanas.

Em 2004, os latinos representaram 16% dos votos nas primárias da Califórnia; 11% em Nova York; 17% no Arizona e 9% na Flórida.

Para conquistar a indicação presidencial, seu sucesso na superação do histórico de tensões entre os dois grupos será chave, à medida que os democratas se aproximam de uma eleição na qual esperam conquistar e manter o voto latino por décadas.

Enquanto fazia campanha no norte de Nevada, Obama reconheceu os desafios diante dele.

"Eu acho que é importante tornarmos meu histórico conhecido pela comunidade latina", disse Obama aos repórteres. "Minha história é excelente com os latinos em Illinois, porque eles conhecem meu retrospecto."

"Nacionalmente, as pessoas não conhecem tal retrospecto muito bem. De forma que é muito importante para mim comunicar isso, colocar propaganda nos canais de TV de língua espanhola, para deixar claro quais são meus compromissos."

As relações entre negros e latinos variam muito de um lugar para outro e evoluíram ao longo dos anos. Villaraigosa perdeu sua primeira tentativa de se tornar prefeito, em 2001, para um branco, Kenneth Hahn, que conquistou 80% do voto dos negros. Em uma nova disputa em 2005, Villaraigosa foi eleito com 50% do voto negro.

Villaraigosa disse não achar que a força de Hillary Clinton entre os latinos era produto das tensões entre os dois grupos.

"Do meu ponto de vista", ele disse na segunda-feira, "a força que Hillary Clinton desfruta entre os latinos tem tudo a ver com seu retrospecto e seu antigo relacionamento com tal comunidade. Eu acho que há tensões entre todos os grupos."

O governador do Novo México, Bill Richardson, que desistiu de sua campanha para se tornar o primeiro presidente latino, disse que a rivalidade entre os dois grupos diminuiu e que Obama pode transcender muitas das diferenças à medida que se aproximar de 5 de fevereiro, "que eu chamo de dia das primárias latinas".

Ele disse que poderá apoiar um candidato antes de 5 de fevereiro, um apoio que claramente influenciaria alguns latinos.

Mas se as atitudes estão mudando, elas estão mudando lentamente à medida que muitas suposições raciais são contestadas.

O reverendo Al Sharpton de Nova York, que esteve na linha de frente de muitas das batalhas entre latinos e negros na política de Nova York, disse que a tensão seria um problema para Obama por todo o país e em Nova York, que também vota em 5 de fevereiro. Ele disse que Obama estaria em desvantagem por ter optado em ser um "candidato racialmente neutro".

"Será um desafio com que terá que lidar", disse Sharpton. "Há uma história natural e conseguimos alguns progressos. Mas ele não fez parte de tais esforços para obter o progresso."

Na Califórnia, Obama conseguiu apoio entre legisladores latinos, dentre os quais alguns que apoiavam Richardson. Mas atrair os eleitores comuns será difícil, disse a líder da maioria no Senado, Gloria Romero, democrata de East Los Angeles.

"Nós temos um longo caminho pela frente?", perguntou Romero. "Certamente. Eu acho que há algumas tensões em questões de imigração e empregos. Mas acredito que avançamos na forma como a comunidade abraçará um presidente afro-americano."

Ela disse que a solução para superar as tensões é falar sobre os problemas econômicos que afligem os negros e latinos de classe média e baixa, como a crise hipotecária, uma questão que primeiro Clinton e agora Obama estão abordando com maior freqüência.

"Eu não acho que comer tacos" seja eficaz, ela disse com uma alfinetada em Hillary. "Nós precisamos tratar dos assuntos que nos unem. A chave é não levantar a questão da tensão."

Obama, sugeriram alguns membros do Partido Democrata e estudiosos, poderá enfrentar dificuldades caso as mulheres latinas respondam ao apelo cada vez mais forte de Hillary por apoio com base em gênero. Um comício aqui no sábado estava lotado de mulheres latinas que gritavam de empolgação ao vê-la.

"A comunidade latina é muito voltada para a família e nós respeitamos nossas mães", disse Ruben Kihuen, um influente legislador democrata de Las Vegas que apóia Hillary. "Muitas mulheres de meia-idade a vêem como uma mãe, uma chefe do lar e conseguem se identificar com isso. Especialmente quando vêem a filha dela, Chelsea, ao seu lado."

As tensões entre latinos e afro-americanos aumentou proporcionalmente com o afluxo de novos latinos em áreas como o Sudoeste, disseram especialistas nas relações.

Mexicanos-americanos e outros grupos migraram cada vez mais para bairros tradicionalmente negros, disseram especialistas.

"Sempre houve um enorme desentendimento e conflito em torno dos recursos locais e da representação política entre os dois grupo, que ferve pouco abaixo da superfície e às vezes vêm à tona", disse Albert M. Camarillo, diretor fundador do Centro para o Estudo Comparativo de Raça e Etnia em Stanford.

Os eleitores latinos, disse Camarillo, "podem não seguir na direção de Obama".

*Ana Facio Contreras, em Los Angeles, e Jeff Zeleny, em Reno, Nevada, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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