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15/01/2008

Crise de meia-idade? Talvez ele seja apenas um imbecil narcisista

The New York Times
Richard A. Friedman*
Ruth Gwily/The New York Times

Com a possível exceção do "cachorro comeu minha lição de casa", provavelmente nunca existiu uma desculpa mais cômoda para o mal comportamento humano do que a crise da meia-idade.

Popularmente vista como um direito nato de desenvolvimento único da espécie humana, ela supostamente ataca quando a maioria de nós vê a si mesma -apenas para descobrir que perdemos nossa juventude e que a mortalidade está no horizonte.

Sem dúvida, a vida na meia-idade pode ser desafiadora. (Revelação: tenho 51.) Que com os primeiros sinais do declínio físico inevitável e as questões e dúvidas sobre as próprias realizações profissionais e pessoais, é surpreendente que a maioria de nós sobreviva.

Mas nem todos têm tanta sorte; alguns se vêem tomados por um impulso aparentemente irresistível de fazer algo drástico, até mesmo tolo. Ao que parece, vale tudo em uma crise da meia-idade: emprego, cônjuge, amante, etc.

Eu recentemente ouvi sobre um caso severo de uma paciente cujo marido há quase 30 anos lhe disse abruptamente que se sentia "atolado e não auto-realizado" e que iniciou sua busca por autoconhecimento nos braços de outra mulher.

Não que seu marido não mais a amava, ela contou que ele lhe disse; ele apenas não considerava mais o relacionamento excitante.

"Talvez seja uma crise da meia-idade", ela disse, então acrescentando com escárnio, "seja lá o que isso for".

Ultrajada e curiosa, ela o seguiu certa tarde e ficou chocada ao descobrir que a namorada de seu marido era basicamente um clone mais jovem dela, até com o mesmo corte de cabelo e o estilo de roupa.

Não é preciso de psicanálise para ver que o marido dela, entre outras coisas, quer voltar o relógio e começar tudo de novo. Mas isso dificilmente merece a dignidade de um rótulo como "crise da meia-idade". Soa mais como uma busca por novidade e empolgação do que autoconhecimento.

Na verdade, quanto mais eu soube sobre o marido dela, mais ficou claro que ele sempre foi um sujeito egocêntrico que se preocupava com a perda de seu vigor e era extremamente sensível à decepção. Se tratava de um caso de narcisista de meia-idade lidando com o maior insulto que já tinha enfrentado: envelhecer.

Mas é preciso reconhecer que "estou tendo uma crise de meia-idade" soa muito melhor do que "sou um imbecil narcisista sofrendo um colapso".

Outro paciente, um homem de 49 anos no pináculo de sua carreira legal, passou a ter um caso com uma colega de escritório. "Eu amo minha esposa", ele disse, "e não sei o que me deu".

Não demorou muito para descobrir. Os primeiros cinco anos de seu casamento foram empolgantes. "Era como se estivéssemos namorando o tempo todo", ele lembrou saudosamente. Mas depois que tiveram um filho, ele sentiu um indesejado senso de labuta e responsabilidade ingressar em sua vida.

Estar na meia-idade não tinha nada a ver com sua situação; apenas que foram necessários 43 anos para chegar a uma situação onde teve que seriamente levar em consideração a necessidade de outra pessoa, a de seu filho bebê. Provavelmente, a mesma coisa teria acontecido se ele tivesse se tornado pai aos 25 anos.

Por que temos que rotular uma reação comum da espécie masculina diante de um dos desafios da vida -o tédio da rotina- como sendo uma crise? É verdade, os homens geralmente gostam mais de procurar novidades que as mulheres, mas certamente podem decidir o que fazer com seus impulsos.

Com certeza alguém passou por uma crise de meia-idade genuína. Afinal, as pessoas não lidam rotineiramente com perguntas como "o que posso esperar do restante da minha vida?" ou "isto é tudo o que há?"

É claro. Mas apenas uma minoria distinta pensa que isso constitui uma crise. Em 1999, um estudo da Fundação MacArthur sobre o desenvolvimento da meia-idade entrevistou 8 mil americanos com idades entre 25 e 74 anos. Apesar de todos reconhecerem o termo "crise da meia-idade", apenas 23% das pessoas informaram ter passado por uma.

E quando os pesquisadores olharam mais atentamente, apenas 8% viam suas crises como algo associado à percepção de que estavam envelhecendo. Os demais 15% sentiam que a crise resultava de eventos específicos na vida. Notavelmente, a maioria das pessoas também informou um maior senso de bem-estar e contentamento na meia-idade.

Então, o que mantém vivo o mito da crise da meia-idade?

A principal culpada, eu acho, é nossa cultura obcecada pela juventude, que transforma em virtude a busca incansável pela auto-renovação. A mídia está repleta de histórias de pessoas que buscam reconquistar sua juventude simplesmente deixando seus cônjuges, largando seus empregos ou abandonando suas famílias. Quem pode resistir?

A maioria das pessoas de meia-idade, na verdade, se acreditarmos na pesquisa.

Exceto, é claro, alguns poucos -principalmente homens, ao que parece- que consideram a crise da meia-idade um sinônimo socialmente aceitável para o que fazer quando você de repente acorda e descobre que não tem mais 20.

*Richard A. Friedman é professor de psiquiatria da Weill Cornell Medical College. George El Khouri Andolfato

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