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17/01/2008

Pão subsidiado esconde corrupção e problemas sociais no Egito

The New York Times
Michael Slackman

No Cairo, Egito
"Saia! Para trás! Para trás! Eu não vou vender para você!"

Ibrahim Ali Muhammad, um vendedor de pão, estava gritando com seus clientes. Seus dentes são escuros e disformes por cáries e ele disse que o estresse de seus 20 anos no emprego lhe rendeu uma diabete. Ele estava em pé atrás de grades, como de prisão, gritando com uma multidão que empurrava e se acotovelava, esticando dinheiro para ele.

"Eu já vendi para você", ele gritou de novo, desta vez distraído por um homem vestindo jaqueta azul que se virou e bateu no homem atrás dele.

É difícil conseguir se sustentar no Egito, onde cerca de 45% da população sobrevive com apenas US$ 2 por dia. Este é um motivo para tentar comprar pão subsidiado poder ser um negócio feroz, sobrando punhos e cotovelos, homens empurrando e crianças pequenas se esquivando dos golpes para chegarem até o balcão.

Shawn Baldwin/The New York Times 
Egípcios tentam comprar pão subsidiado através da janela de uma padaria no Cairo

O Egito é um Estado onde a corrupção é amplamente vista como sistêmica, um motivo adicional para a população ficar agressiva ao tentar comprar pão subsidiado. O pão barato do Estado pode ser revendido, freqüentemente pelo dobro do preço original.

"O que não mudou no Egito em 50 anos não vai mudar agora", disse Muhammad, apesar de não ter ficado claro se falava do caos diante dele ou do pão barato sendo assado atrás dele.

Grande parte do que aflige o Egito parece se refletir na história do pão subsidiado. Ela fala de um Estado que está de muitas formas preso ao passado, lutando para se lançar ao futuro, incapaz, ou não disposto, a derrotar a corrupção ou mesmo persuadir as pessoas a se importarem umas com as outras.

Como pegar um sistema falido que de alguma forma ajuda a alimentar 80 milhões de pessoas e consertá-lo sem causar desordem social? Este é um desafio para o Egito de forma geral, e para esta pequena padaria onde Muhammad ganha com esforço sua vida, com um cigarro pendurado nos lábios e uma multidão enfurecida exigindo seu pão.

Pão, em árabe egípcio, é chamado "aish", que literalmente significa vida, em vez de "khobz", a palavra usada por outras povos de língua árabe. "A palavra, aplicada ao pão, dá a este elemento cotidiano uma qualidade quase mística", disse Hamdy el-Gazzar, autor de "Black Magic", um romance popular recentemente traduzido para o inglês. "O relacionamento do Egito com o pão não é de liberdade, mas de necessidade."

O Egito começou a subsidiar itens básicos como pão, açúcar e chá por volta da Segunda Guerra Mundial e não parou desde então. Quando ele tentou encerrar o subsídio ao pão em 1977, houve grande tumulto. Os egípcios costumam não ser conhecidos como pessoas explosivas, mas se lhes disser que vai aumentar o preço do pão -da vida- é melhor ter cuidado.

Assim, o subsídio ao pão continua, custando ao Cairo cerca de US$ 2,74 bilhões por ano. No geral, o governo gasta mais em subsídios, incluindo a gasolina, do que gasta em saúde e educação. Mas não é apenas o custo dos subsídios que atormenta o governo. Ele também alimenta uma espécie de corrupção desenfreada que mina a fé no governo, desencoraja o investimento e reforça o espírito de cada um por si no país.

"O setor mais corrupto no país é o de provisões", disse um inspetor do governo que pediu para não ser identificado por temer punição. Seu trabalho é ir até as padarias para assegurar que estejam de fato usando a farinha barata do governo para produzir o pão barato que é vendido a preço apropriado.

O inspetor explicou por que o sistema é tão vulnerável a abusos. O governo vende às padarias sacos de farinha de 25 libras (cerca de 11 kg) por oito libras egípcias, o equivalente a cerca de US$ 1,50. As padarias devem supostamente vender o pão a um preço subsidiado, o que lhes dá um lucro de cerca de US$ 10 por saco. Ou a padaria pode simplesmente vender a farinha no mercado negro por US$ 15 o saco.

Se o inspetor, que disse receber US$ 42 por mês, certificar após três meses que a padaria usou fielmente a farinha para fazer pão, a padaria recebe um reembolso de cerca de US$ 1 por saco. Uma padaria que usa cerca de 40 sacos por dia em um período de três meses é reembolsada em 18 mil libras (cerca de US$ 3.300) -uma bela soma, disse este inspetor, que poderia ser facilmente compartilhada com um inspetor mal remunerado.

"Eu sou alguém com 230 libras de salário", disse o inspetor. "Digamos que eu queira alimentar meus filhos três vezes ao dia e enviá-los para escolas públicas. Apenas para fazer isso são necessárias 1.000 libras por mês."

Abdallah Badawy Aboul Magd, chefe do escritório da Administração de Provisões em Giza, disse que a corrupção aumentou recentemente devido ao aumento dos preços do trigo e de outros itens básicos. Para tentar combater o problema, ele disse, os administradores deram início a um projeto piloto de separação da produção da distribuição, forçando as padarias a venderem apenas aos distribuidores, que podem ser mais facilmente monitorados.

É difícil avaliar o atual grau de corrupção porque as práticas corruptas não são regularmente denunciadas. Em uma proeminente pesquisa de 2007 que classificou 180 países pela "percepção de corrupção" de seus habitantes, o Egito caiu para o 105º lugar, de 70º no ano anterior

A economia egípcia está crescendo em um ritmo saudável -7% no ano passado- mas virtualmente isso não tem afetado às classes mais baixas. Assim, em vez de tornar a vida nas ruas mais estável, o desempenho econômico estatisticamente forte apenas deixa as pessoas mais irritadas. Um estudo recente do Banco Mundial corroborou este amplo sentimento de descontentamento, concluindo que a pobreza em geral em 2004-2005 "voltou quase ao mesmo nível em que se encontrava em 1995-1996".

"No total, quase 14 milhões de indivíduos não conseguem obter seus alimentos básicos e necessidades não alimentares", disse o relatório.

Assim, as pessoas lutam por pão barato. Elas começam a se reunir diariamente do lado de fora da padaria despojada por volta das 11h, exceto às sextas, o dia da oração.

Ao longo de uma hora em um dia recente, Mahmoud Ahmed, 14 anos, conseguiu chegar quatro vezes até o balcão. O trabalho dele, ele disse, era assegurar um fluxo constante de pão para um vendedor de alimento próximo, que então o revendia na forma de sanduíches. Parecia que o padeiro o deixava abrir caminho até a frente para receber o pão antes dos outros. Havia algum acerto entre eles? Mahmoud não disse.

Descendo a rua, a cinco quadras de distância, Muhammad Abdul Nabi, 12 anos, estava vendendo pão, do mesmo tipo, em uma mesa improvisada por mais que o dobro do preço na padaria. Mas não havia filas.

* Nadim Audi contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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