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18/01/2008

Imigrantes ilegais temem deportação, mas se agarram à vida nos EUA

The New York Times
Julia Preston

Em Waukegan, Illinois
Ela é proprietária de imóvel, contribuinte, uma vizinha amistosa e uma cidadã americana. Mas por ser casada com um imigrante ilegal, atualmente ela se sente uma fugitiva.

Sempre que seu marido mexicano sai de casa, "eu fico com dor de estômago", disse a mulher, que insistiu para ser identificada apenas pelo primeiro nome e última inicial, Miriam M.

"Eu penso, 'Oh, meu Deus, ele está demorando muito'", ela disse. "Eu começo a telefonar. Entro em pânico."

No último ano, milhares de imigrantes ilegais e suas famílias que vivem aqui se afastaram da vida comunitária em Waukegan, um microcosmo de uma crescente clandestinidade de imigrantes ilegais por todo o país, que estão se agarrando aos seus lares e empregos apesar da maior pressão das autoridades federais e locais.

Sally Ryan/The New York Times 
Casal evita lugares públicos com medo de que ele, imigrante ilegal, seja deportado

De Illinois à Geórgia e Arizona, essas famílias estão escondidas à plena vista, para evitar serem detectadas por agentes de imigração e deportadas. Elas fazem suas compras em cidades distantes de casa, evitam festas e não saem em férias. Elas ficam longe das lojas étnicas, deixaram de realizar consultas médicas e de participar das reuniões nas escolas dos filhos, e adiam as normalmente opulentas festas de aniversário de 15 anos das meninas. Elas evitam a polícia, até mesmo hesitando em prestar queixa de crimes.

"Quando saímos pela manhã, nós sabemos que estamos saindo para trabalhar", disse Elena G., uma imigrante ilegal mexicana de 47 anos e moradora de Waukegan há oito anos, que trabalha em uma fábrica perto daqui. "Mas não sabemos se voltaremos para casa."

No ano passado, os agentes da imigração prenderam mais de 35 mil imigrantes ilegais, incluindo trabalhadores não autorizados e fugitivos da imigração, mais do que o dobro do número em 2006. Eles enviaram 276.912 imigrantes de volta aos seus países de origem, um número recorde.

Como cerca de três quartos dos estimados 11,3 milhões de imigrantes ilegais de todo o país são da América Latina, e muitos possuem cônjuges, filhos e outros parentes que são imigrantes legais ou cidadãos, o senso de alarme se espalhou amplamente entre os latinos.

Uma pesquisa do Pew Hispanic Center, um grupo de pesquisa não-partidário em Washington, revelou em dezembro que 53% dos latinos nos Estados Unidos temem que eles ou entes queridos possam ser deportados.

Lojas que atendiam aos imigrantes latinos em lugares como Atlanta e Cincinnati fecharam por causa da queda de clientes. Michael L. Barrera, presidente da Câmara de Comércio Latina dos Estados Unidos, disse que relatos indicam que pequenas lojas foram as mais duramente atingidas pelo forte declínio no consumo entre os imigrantes.

"As batidas realmente os assustaram enormemente", disse Douglas S. Massey, um demógrafo de Princeton que estuda imigrantes mexicanos há três décadas.

Com base em suas próprias pesquisas e recentes relatos de outros estudiosos que realizam pesquisa de campo no Sudoeste, Carolina do Norte e outros Estados, Massey disse que o "senso palpável de medo e trauma" nas comunidades imigrantes está mais intenso do que em qualquer outro momento desde as deportações em massa de trabalhadores rurais mexicanos em 1954.

As autoridades federais de imigração disseram que a atuação mais rigorosa ao longo do ano passado pelo governo Bush e algumas autoridades locais persuadiu um crescente número de imigrantes ilegais a voltarem para casa. Mas em lugares como Waukegan, uma cidade suburbana de classe média racialmente diversa ao norte de Chicago, a maioria optou por permanecer, por causa da família e emprego.

A cidade é destino de imigrantes há gerações. Os latinos chegam desde os anos 60 e atualmente correspondem a 40% da população de 91 mil. O número de imigrantes ilegais entre eles inchou na última década.

Apesar de seu status ilegal, estes imigrantes encontram empregos estáveis em fábricas e paisagismo. Sem número do Seguro Social, eles usam números de contribuintes da receita para abrir contas e empresas, para matrícula na faculdade comunitária e contrair empréstimos bancários para compra de carros e casas.

Mas a receptividade começou a desaparecer há quatro anos, quando a prefeitura aumentou as multas e penas por dirigir sem carta de motorista. Como Illinois exige um número válido do Seguro Social para a carta de motorista, muitos imigrantes ilegais perderam seus carros quando não puderam arcar com as taxas para veículos apreendidos.

No ano passado os vereadores votaram a favor de um acordo com a Agência de Imigração e Alfândega federal para treinamento dos policiais de Waukegan, visando o início das deportações de imigrantes que são criminosos condenados. Apesar das autoridades municipais insistirem que os policiais lidarão apenas com casos de criminosos condenados, rumores começaram a se espalhar de que guardas de trânsito checariam o status de imigrante de qualquer um que parassem.

Agentes federais de imigração também realizaram nos últimos meses duas grandes batidas nas proximidades.

"As pessoas vinham me procurar e diziam, 'Padre, quando nos tornamos o inimigo?' disse o padre católico romano Gary M. Graf, cuja paróquia de Waukegan inclui muitos imigrantes latinos.

As autoridades municipais disseram que a lei de trânsito mais dura não visava atingir os imigrantes ilegais ou latinos, mas sim reduzir os acidentes com motoristas sem seguro.

"Só fizemos isso pela segurança", disse o prefeito Richard H. Hyde. "Nós não queremos ninguém nas ruas que não tenha carteira de motorista."

Todavia, para muitos moradores o medo se tornou uma companhia diária. Uma mulher, uma cidadã naturalizada de 37 anos que nasceu na América Central mas cresceu em Waukegan, decidiu se afastar da cidade apesar de sua mãe ainda viver aqui. A mulher, que exerce advocacia na região de Chicago, se apaixonou por um imigrante ilegal da Guatemala.

Após se casarem em 2004, ela percebeu que segundo a lei de imigração seria difícil para ele se tornar legal, apesar dela ser cidadã americana. Como ele entrou no país ilegalmente, a busca pela legalização exigiria o retorno à Guatemala e anos de separação, sem garantia de sucesso. Ela abandonou seus planos de voltar para Waukegan. Ela e seu marido se sentem mais seguros em Chicago, com sua maior população latina.

"Eu conheço tudo sobre Waukegan; é a minha cidade", disse a mulher, que pediu para permanecer anônima devido ao status de seu marido. "Eu conheço o colégio, o primeiro restaurante mexicano que me senti à vontade para freqüentar sempre que quisesse. Mas não existe mais a mesma liberdade."

Raimundo V., um imigrante ilegal mexicano de 30 anos que vive aqui há 13 anos, disse que cancelou os reparos em sua casa, da qual é proprietário, parou de comprar no comércio local e que está tentando economizar o suficiente para o caso de ser preso e deportado.

"Minha expectativa aqui é estar preparado para qualquer coisa que ocorra", disse Raimundo.

Miriam M. e seu marido se casaram em 2004, possuem uma casa bem arrumada em uma rua tranqüila e estão criando quatro filhos de casamentos anteriores, todos cidadãos americanos. Ele é dono de sua própria empresa de paisagismo, pagando os impostos de propriedade e de pessoa jurídica.

Apesar de Miriam M. ser cidadã americana, é difícil para seu marido obter documentos legais, já que entrou ilegalmente vindo do México há 12 anos. Ela não se importou com a situação ilegal de seu marido quando o conheceu.

"Namorados e namoradas não pensam nestas coisas", ela disse. "Está bem, talvez eu não quisesse pensar muito a respeito."

Agora ele permanece perto de casa e evita o centro de Waukegan, contornando os limites da cidade sempre que pode.

Outra imigrante, L. Gomez, uma colombiana de 36 anos que recentemente estava a caminho de se tornar legal, disse que procurou a polícia e a Justiça no passado para proteção contra um marido violento. Mas desde a repressão, ela disse, ela tem evitado as autoridades, apesar das ameaças de seu marido.

Os donos de negócios latinos em Waukegan se queixam de quedas nas vendas que vão além dos efeitos da fraca economia nacional.

"As pessoas estão evitando o comércio de Waukegan e procurando outros lugares para investir ou comprar", disse Porfirio García, um mexicano-americano que é presidente da Exit/Re-Gar Realty, uma corretora de imóveis.

No Belvidere Mall, um shopping que atende uma clientela latina, Maria Sotelo, uma imigrante legal mexicana, disse que está fechando sua loja ali após 17 anos por causa da queda nas vendas nos últimos seis meses, de US$ 5 mil para US$ 500 por semana. Ela vendia vestidos de cetim e voile para festas de 15 anos e camisetas de times de futebol mexicanos. "Desde que começou tudo isso com a imigração, as pessoas não vêm mais aqui", disse Sotelo.

Hyde e outras autoridades municipais disseram que provavelmente terão que esperar vários anos até que o Congresso adote novas leis para controlar a imigração ilegal. Enquanto isso, disse o prefeito, ele fará o que pode aplicando a lei local.

"Se acredito no fechamento das fronteiras? Se acredito em dispor tropas lá? Pode apostar. Ilegal é ilegal e fim de conversa, sério", disse Hyde. George El Khouri Andolfato

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