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18/01/2008

Os meus implantes de seios vêm com garantia?

The New York Times
Natasha Singer
Uma mulher nua, com o braço esquerdo dobrado estrategicamente sobre os seios, dá um sorriso beatífico para os leitores em uma propaganda de cirurgia plástica que compara os implantes de seios a um bem mais durável: jóias.

"Você tem aquela sensação quando encontra o tamanho perfeito", dizia a propaganda da empresa especializada em implantes de seios, Natrelle Breast Enhancement, na edição de novembro do ano passado da revista "Elle". "E não estamos falando sobre diamantes".

É esse tipo de analogia de marketing que confere uma má fama aos implantes de seios. Os diamantes, como certa vez sugeriram De Beers e um livro de James Bond, são feitos para durar para sempre. Mas com freqüência não é isto o que ocorre no caso dos implantes de seios.

Amaranth Productions/The New York Times 
Paciente em cena de 'Absolutely Safe', documentário que combate o implante de seio

"Os implantes de seios não são dispositivos para toda a vida, e a cirurgia de implante não é algo que se faz necessariamente uma única vez", lê-se em uma advertência em letras bem menores na parte de trás da propaganda. De fato, não importa se a mulher fez inicialmente a cirurgia de implante por razões cosméticas ou para reconstrução após ter sofrido de câncer de mama, o fato é que cerca de um terço das pacientes em testes clínicos passa por uma segunda operação dentro de quatro ou cinco anos, segundo tabelas estatísticas contidas na propaganda.

Quase duas décadas após um alarido nacional devido ao temor de que os implantes de silicones nos seios pudessem causar doenças sistêmicas, o aumento do tamanho dos seios tornou-se a cirurgia plástica mais popular nos Estados Unidos. O renascimento da cirurgia para aumento do volume dos seios foi alimentado em parte pela decisão da Administração de Alimentos e Remédios dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês), em 2006, de aprovar uma nova geração de implantes de silicone, suspendendo uma proibição de 14 anos do uso generalizado desses implantes.

Mas com índices tão altos de cirurgias posteriores, surge uma nova discussão para determinar se os implantes de seios constituem-se em um tipo de prática médica periódica que exige correções cirúrgicas regulares, expondo as pacientes a maiores riscos médicos e a gastos elevados. No momento em que os fabricantes forneceram à FDA estudos clínicos relativos baseados no acompanhamento de pacientes durante alguns anos, não existe um consenso médico consolidado a respeito do tempo de duração dos implantes, o que faz com que os médicos tenham que se basear em experiências informais quando discutem a durabilidade com as pacientes. Os críticos dizem que, tendo em vista a carência de dados, as mulheres podem não estar preparadas no longo prazo para o sofrimento ou o custo financeiro vinculados a cirurgias subseqüentes.

"Os seus implantes podem durar menos ou mais de dez anos, mas quando você começar a ter problemas com eles, dificilmente o seu plano de saúde cobrirá os exames feitos com ressonância magnética ou as novas operações", adverte Carol Ciancutti-Leyva, diretora de um documentário de denúncia dos implantes, feito em 2007, chamado "Absolutely Safe" ("Totalmente Seguro"). "Esta pode ser uma proposta bem cara, especialmente se você for jovem".

Muitas mulheres estão conscientes de que os implantes podem romper-se com o tempo, exigindo uma substituição, como se fossem pneus de automóveis. Mas os implantes salinos, feitos com uma solução de água e sal, e os implantes de silicone, podem formar pequenos rasgos nos invólucros de borracha, causando rupturas. A Mentor oferece uma garantia de dez anos para a substituição dos implantes e cobre algumas despesas cirúrgicas; a Allergan tem uma garantia de prazo indefinido de substituição do implante e paga até US$ 1.200 para a cobertura de despesas nos primeiros dez anos.

Mark L. Jewell, um cirurgião plástico de Eugene, no Estado de Oregon, que já foi presidente da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética, diz que adverte às pacientes que a cirurgia para aumento dos seios implica automaticamente em uma segunda operação em algum momento no futuro. Ele acrescenta que em estudos clínicos várias pacientes optaram por fazer outras operações para modificar o tipo, o tamanho ou a posição do implante.

"As mulheres estão acostumadas a cortar os cabelos ou a fazer as unhas regularmente para manter a aparência", diz Jewell, que realizou testes clínicos para ambos os fabricantes de implantes, sendo consultor da Allergan, a empresa responsável pelas propagandas publicadas na revista "Elle". "No fim das contas, os implantes de seios podem ser também uma questão de manutenção".

Mas uma ruptura é apenas uma das complicações locais que podem implicar em cirurgias adicionais. Assim como casulos que crescem em volta de larvas, tecidos cicatriciais podem formar-se em torno dos implantes. E às vezes tais cápsulas cicatriciais enrijecem-se e comprimem o implante, provocando dor e deformando os seios. E os implantes salinos podem causar ondulações sob a pele, visíveis e percebidas pelo tato.

Porém, nem todos os médicos são tão diretos quanto Jewell quando se trata de falar a respeito do risco de cirurgias adicionais.

"O meu cirurgião plástico me disse que os meus implantes salinos durariam para sempre", conta Krista Schell.

Schell, 29, que mora em Thornton, no Colorado, e que é funcionária do governo estadual, diz que no princípio gastou US$ 6.500 em 2003 com uma cirurgia para aumento dos seios feita por um médico da Califórnia. Ela fez uma segunda operação com o mesmo médico em abril do ano passado a fim de substituir um implante salino furado, cujo colapso fez com que o seu seio esquerdo parecesse "oco". Os implantes de Schell ainda estavam na garantia, mas ela teve que pagar pela viagem até a Califórnia e perdeu uma semana de salário.

Em novembro passado, Schell passou por uma terceira operação, que custou US$ 6.000, desta vez com um cirurgião de Denver, que removeu os dois implantes, bem como uma grande quantidade de tecido cicatricial. Ela perdeu duas semanas de trabalho e de salário. Os implantes também causaram ondulações, um caroço em torno de um mamilo e dor. "Se olharmos para os aspectos negativos, é melhor não fazer essa cirurgia", afirma Schell.

Médicos de todos os Estados Unidos realizaram cerca de 329 mil cirurgias para aumento de seios em 2006, contra 291 mil em 2005, de acordo com uma pesquisa feita pela Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos. Mas especialistas médicos afirmam que não são capazes de determinar exatamente quanto tempo os implantes de seios podem durar.

"A resposta curta é: não sabemos especificamente quanto tempo duram os implantes", diz o médico Stephen Li, presidente de uma companhia de testes de dispositivos médicos de Sarasota, na Flórida.

Li, que participou de três dos painéis da FDA que analisaram a segurança dos implantes, votou a favor da aprovação desses dispositivos. Ele diz que os dados das empresas sugerem que os implantes devem durar pelo menos uma década. "Os atuais implantes não são piores do que os anteriores, devendo ser até melhores, com base em dados clínicos e de laboratório. Essa é a única maneira de racionalizar a aprovação de um dispositivo para o qual só existem dados relativos a um período de três ou quatro anos".

Como condição para aprovação, a FDA pediu aos fabricantes de implantes de silicone que acompanhassem os grupos de estudo existentes por um total de dez anos, e que colocassem 80 mil novas pacientes nos seus bancos de dados. Ambas as companhias também criaram amplos processo para garantir um consentimento bem informado das pacientes.

Caroline Van Hove, a vice-presidente de comunicações corporativas da Allergan, escreveu em uma mensagem de e-mail que depois que uma paciente passa por um detalhado questionário para a obtenção de informações relativas ao implante, ela assina um formulário de consentimento afirmando que entende os riscos intrínsecos à cirurgia.

Embora o número de operações posteriores pareça alto - cerca de um terço das pacientes em um estudo da Allergan passaram por uma segunda operação em um período de quatro anos após a cirurgia inicial -, Van Hove diz que menos de um terço dessas operações envolveram a remoção do implante. Também foram registradas como operações posteriores as cirurgias para o reposicionamento dos implantes ou para biópsias. No mesmo estudo descobriu-se que mesmo que 28% das pacientes tivessem necessitado de uma segunda operação em seis anos, 95% delas mostraram-se satisfeitas.

Mas o médico Eugene Goldberg, professor de biomateriais na Universidade da Flórida em Gainesville, diz que a FDA deveria exigir estudos de longo prazo antes de aprovar tais dispositivos. Segundo ele, pesquisas realizadas por fabricantes de próteses da articulação da bacia, por exemplo, deixaram claro que tais juntas artificiais duram cerca de dez ou 12 anos.

"Mas no caso dos implantes de seios, o consentimento por parte de pacientes bem informadas é mais nebuloso porque cada médico tem o seu próprio ponto de vista em relação à duração do implante, tornando difícil para a paciente calcular realisticamente os riscos e benefícios", diz Goldberg. Ele testemunhou como especialista para acusados e acusadores em casos de litígio relativos aos implantes, e dá aulas na qual usa os implantes de seios como um estudo de caso de um dispositivo médico mal elaborado.

Linda Huang, cirurgião plástica em Denver, diz às pacientes que os seus implantes deverão ser removidos entre 10 e 15 dias após a cirurgia. Ela conta que precisou remover implantes de mais de mil pacientes. A médica cobra cerca de US$ 7.000 por cirurgia de aumento de seios; cerca de US$ 5.000 para a remoção de implantes; US$ 7.500 para a substituição de implantes antigos e aproximadamente US$ 9.000 para cirurgias nas quais os implantes são removidos e os seios são elevados com a utilização do próprio tecido da paciente. "Se elas preferirem gastar o dinheiro com uma viagem a Paris do que comigo, então eu recomendo que não façam cirurgia para aumento dos seios", diz Huang.

Os cirurgiões dizem que a substituição dos implantes pode ser uma operação simples. Mas a cirurgia conhecida como "explantation", na qual o cirurgião remove os implantes definitivamente, juntamente com os tecidos cicatriciais, pode ser mais complicada, especialmente quando se trata dos modelos mais antigos de silicone.

"Se o envelope rompeu-se e o silicone vazou, o médico precisa tentar remover todo o material gelatinoso", explica Susan E. Kolb, cirurgião plástica em Atlanta, que realiza de três a cinco cirurgias desse tipo por mês. Para remover o tecido cicatricial, que pode aderir a músculos e ao tecido fibroso que recobre as costelas, alguns médicos removem também, por engano, muito músculo ou tecido do seio, o que pode provocar deformidades do peito, diz Kolb.

Tendo em vista a natureza provisória do aumento dos seios, talvez tenha sido apropriado o fato de uma propaganda diferente na edição de janeiro da revista "Elle" ter comparado os implantes com um produto de duração mais curta: calçados.

"Você tem aquela sensação quando encontra o par perfeito", diz o texto da propaganda sob uma foto de uma outra mulher nua de expressão feliz. "E não estamos falando sobre sapatos". UOL

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