UOL Notícias Internacional
 

20/01/2008

Guerra e campanha presidencial 2008 se encontram

The New York Times
Michael R. Gordon
Em Washington
Ao longo do último ano, eu levei uma vida dupla, dividindo meu tempo entre a cobertura da guerra no Iraque e do debate eleitoral nos Estados Unidos.

Eu segui para o norte, até Baqouba, com uma brigada Stryker que varreu os rebeldes da cidade e permaneci com um esquadrão de cavalaria que encontrou uma causa em comum com os xeques sunitas em Hawr Rajab. E de Iowa a Washington, eu falei com os principais candidatos que estavam dispostos a ser entrevistados sobre a guerra (quatro, até o momento) e fiquei atento àqueles que não estavam.

Eram universos paralelos, nos quais a discussão da exigente estrada à frente e potenciais opções alternativas freqüentemente eram tão divergentes que generais e políticos pareciam não estar falando sobre a mesma guerra.

Os oficiais militares americanos com quem conversei estavam longe de apresentar um consenso sobre como proceder no Iraque, mas estavam lidando com decisões sobre como tentar estabilizar um país traumatizado, acompanhados de um senso de que apesar dos ganhos significativos, um trabalho longo e difícil ainda os aguardava -uma suposição que freqüentemente está ausente na campanha.

Os políticos, por outro lado, parecem mais dispostos a tratar a impaciência da população com um compromisso ilimitado no Iraque com a promessa de uma pronta retirada (os democratas) ou com a sugestão de que a vitória pode estar próxima (os republicanos).

Anthony Cordesman, um especialista em assuntos militares do Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos que visita regularmente o Iraque, colocou desta forma: "É preciso dar uma nota entre D- e F+ para todos os candidatos. Os republicanos estão conversando sobre isto como se tivéssemos vencido e como se o Iraque fosse o centro da guerra contra o terrorismo, em vez do Afeganistão, do Paquistão e de uma série de movimentos em 50 outros países".

"Os democratas falam sobre isto como se o único problema fosse a retirada e a dúvida fosse quão rapidamente fazê-lo."

Em solo com as tropas, fica claro que uma grande mudança militar de fato ocorreu no Iraque no ano passado - não tanto a adição de 30 mil soldados, mas a adoção de uma estratégia de contra-insurreição para usá-los. Tal estratégia tornou a proteção do povo iraquiano a meta principal, em um esforço para separar a população dos militantes e encorajar os iraquianos a fornecer a inteligência que as forças armadas americanas precisam para caçar um adversário esquivo.

Mas contra-insurreição é uma proposta inerentemente de longo prazo, e tal proposta tem guiado grande parte do pensamento militar sobre o futuro, ao mesmo tempo em que aumenta o debate político em casa.

"A menos que haja uma supressão dos rebeldes da forma como os romanos faziam -criando um deserto e o chamando de paz - isso normalmente levará uma década ou mais", disse Andrew Krepinevich, um especialista em assuntos militares do Centro de Avaliação Estratégica e Orçamentária.

"O paradoxo é que a contra-insurreição exige convencer os iraquianos da nossa permanência. Ao mesmo tempo, o povo americano vê sucesso em termos de quão rapidamente sairemos de lá", ele acrescentou.

Os militares americanos planejam para meados de julho uma volta às 15 brigadas de combate, o total no Iraque antes do aumento do número de soldados. Nenhuma decisão foi tomada em relação a novas reduções, mas oficiais americanos prevêem a necessidade da manutenção da presença das forças de combate americanas e costumam antecipar uma transferência mais gradual das responsabilidades para as forças iraquianas do que dizem muitos candidatos - uma demonstração de cautela que dizem ser resultado de anos de experiência conscientizadora.

"Se trata de reduzir o risco e não repetir os erros do passado", disse um alto oficial americano no Iraque, se referindo à abordagem cautelosa.

Os políticos estão sugerindo que podem produzir resultados mais rápidos. Mas os candidatos que atacaram o presidente Bush por não ter feito as perguntas difíceis sobre o que aconteceria após a remoção de Saddam Hussein do poder, freqüentemente não abordam as duras questões sobre o que aconteceria após uma retirada militar americana.

A senadora Hillary Clinton, democrata de Nova York, defende uma rápida retirada das forças americanas, deixando apenas uma força residual para lutar contra os terroristas, proteger os curdos, impedir uma agressão iraniana e, possivelmente, apoiar os militares iraquianos. Mas é notável que entre as tarefas não esteja a missão central da doutrina de contra-insurreição: proteger os civis iraquianos da violência sectária, que ela considera um envolvimento das forças americanas em uma guerra civil.

Foi pedido a ela em uma entrevista que explicasse seu pensamento. "Nós tentaríamos não nos meter entre as várias facções xiitas e sunitas", ela disse em março passado, em seu gabinete no Senado. "Este é um problema iraquiano - nós não podemos salvar os iraquianos de si mesmos."

Mas isso levanta a pergunta sobre se as forças americanas poderiam realmente permanecer dentro da segurança de suas bases enquanto milhares de civis são mortos do lado de fora de seus portões. Provavelmente não demoraria para a imprensa e talvez até para os próprios soldados começarem a perguntar se o país que tinha aberto a caixa de Pandora ao invadir o Iraque não seria o responsável por proteger os indefesos.

O senador Barack Obama, democrata de Illinois, prometeu retirar as forças de combate, mas talvez não as unidades de contraterrorismo ou treinadores, em um prazo de 16 meses de sua posse. Ciente do risco de que tal retirada em massa possa levar a uma escalada da violência sectária, ele disse que estaria preparado a enviar soldados americanos de volta ao Iraque como parte de uma força internacional para deter ataques genocidas.

(Isto está longe de ser um cenário exagerado: uma Avaliação Nacional de Inteligência sobre o Iraque, apresentada em janeiro de 2007 pelas agências americanas, alertou que uma rápida retirada de todas as forças americanas provavelmente levaria a "baixas civis em massa e deslocamento populacional forçado".)

"É concebível que chegue a um ponto onde as coisas mergulhem em um caso que choque a consciência e em que diremos a nós mesmos: 'Isto é inaceitável'", disse Obama em uma entrevista em novembro, em seu escritório em Chicago. "Nós não sabemos se isto é, de fato, um problema, mas eu reconheço que você nunca sabe o que poderá acontecer."

Mas lutar para voltar ao Iraque no meio de uma guerra civil em andamento poderia ser muito mais difícil e perigoso para as forças americanas do que suas operações atuais.

"Quando passar pelas estradas, você encontrará bombas, porque não passou os últimos meses patrulhando os locais onde foram plantadas", disse Michael O'Hanlon, um especialista em assuntos militares da Instituição Brookings. "Você se deparará com emboscadas porque não contará com os informantes locais que trabalhavam com você, porque seriam os primeiros alvos nas primeiras semanas de um genocídio."

John Edwards disse que removeria todas as tropas do Iraque em um prazo de 10 meses após tomar posse, exceto por uma pequena força para proteger a embaixada americana e possivelmente trabalhadores humanitários. Mas ele também enfatizou que manteria uma força de contraterrorismo no vizinho Kuwait ou talvez na Jordânia; ela poderia ingressar no Iraque e agir contra os militantes dentro do país.

Mas isto coloca em dúvida se, de tamanha distância, essa força poderia responder a tempo a ameaças terroristas, e sem o tipo de inteligência obtida por meio da interação regular com os civis iraquianos.

Um argumento apresentado por Edwards e outros candidatos democratas é de que a retirada das tropas de combate americanas forçaria os líderes políticos iraquianos a tomarem as decisões difíceis sobre reconciliação política, que podem evitar com o apoio das forças armadas americanas. Mas se estiverem cientes de que as forças americanas sairão independente do que façam, os iraquianos estariam mais dispostos a responder com superação de suas diferenças ou se preparando para o banho de sangue sectário que se seguiria?

Os principais candidatos republicanos não falam sobre uma rápida retirada de tropas, mas fornecem pouco detalhe sobre como ampliariam as vitórias táticas para obter a "segurança sustentável", que é a meta declarada do plano militar.

O senador John McCain, republicano do Arizona, que argumentou que os Estados Unidos careciam de número suficiente de tropas antes de Bush enviar o reforço de 30 mil soldados, declarou como sendo um sucesso o "aumento" das tropas ao mesmo tempo em que reconheceu que o progresso político iraquiano que deveria estimular tem sido lento.

Entre as perguntas não respondidas em solo no Iraque estão: os Estados Unidos podem persuadir o atual governo a conseguir algum progresso em sua agenda política? Que abordagem alternativa poderia ser seguida caso os esforços de acomodação política dos iraquianos fiquem aquém do esperado?

À procura de uma segunda possibilidade, alguns analistas como Stephen Biddle, um especialista em assuntos militares do Conselho de Relações Exteriores, disseram acreditar que a segurança poderia, supostamente, ser mantida pelo recrutamento de voluntários sunitas para proteção das áreas de seus lares enquanto soldados americanos e estrangeiros policiariam um cessar-fogo ao estilo da Bósnia. Mas essas sugestões parecem ser debatidas mais pelos especialistas do que pelos candidatos.

Rudolph Giuliani, Mitt Romney e Mike Huckabee discutiram o Iraque em menos detalhe do que McCain. Em uma aparição em novembro em New Hampshire, Giuliani resumiu sua estratégia em uma única palavra: "vitória". Mas vitória parece um conceito quase irrelevante em um conflito que envolve o compromisso de construção de uma nação e tem mais em comum com o esforço para evitar massacres étnicos nos Bálcãs do que com as batalhas decisivas da Segunda Guerra Mundial.

Generais e diplomatas são ensinados a permanecerem distantes da política americana. No momento, eles estão muito ocupados tentando conceber uma forma de reduzir a presença de soldados americanos e transferir um maior fardo para os iraquianos sem comprometer os ganhos duramente conseguidos. A esperança deles, disse um funcionário americano, é conseguir neste ano avanços militares e políticos suficientes para que o próximo presidente tenha tempo para reavaliar os desdobramentos no Iraque e talvez optar por uma correção de curso em vez de uma mudança total.

Enquanto isso, alguns altos oficiais parecem confusos com o debate em casa. "O que me surpreende é o fato de não ter ouvido nenhum candidato descrever quais são suas metas de curto e longo prazo para o Iraque, como isto se encaixa em suas metas regionais para o Oriente Médio e o terrorismo transnacional", disse um oficial americano. "A meta deles é apenas retirar as tropas o mais rápido possível?" George El Khouri Andolfato

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