UOL Notícias Internacional
 

21/01/2008

Incentivos à educação na Índia mal chegam aos pobres

The New York Times
Somoini Sengupta
Em Lahtora, Índia
Com o orvalho da noite ainda emanando dos campos, dezenas de crianças entram correndo pela escola de duas salas, nesse povoado pequeno e pobre, com sacos usados de arroz dobrados sob os braços para usá-los como cadeiras improvisadas. São tantas as crianças que chegaram, que o novo professor, Rachid Hassan, estudou cuidadosamente as listas de chamada durante as duas primeiras horas da aula, queixando-se. Ele não fazia a menor idéia de quem era aluno de qual série. Não tinha condições de dar aula.

Outro professor chegou com atraso de 90 minutos. Um terceiro faltou. O professor mais antigo, o único habilitado para o magistério, aparentemente estava num serviço oficial para o governo, preparando títulos de eleitores. Ninguém se lembrava qual a última vez em que ele dera aula.

"Quando ficarem mais velhos, eles vão reclamar dos professores", disse Arnab Ghosh, de 26 anos, assistente social que tenta ajudar o governo a aprimorar as escolas, enquanto olhava para os grupos de crianças sentadas na grama. "Eles dirão: 'Nós viemos todos os dias e não aprendemos nada.'"

Ruth Fremson/The New York Times 
Estudantes esperam o início da aula em Lahtora, no Estado de Bihar, Índia

Sessenta anos após a independência, com 40% de sua população com menos de 18 anos, a Índia enfrenta agora os riscos de um fracasso na instrução dos cidadãos, principalmente os pobres. Há mais crianças indianas nas escolas do que em qualquer outra época, mas a qualidade de escolas públicas como esta, despencou para níveis incrivelmente baixos, pois as escolas do governo tornaram-se reservas de crianças no degrau mais inferior da escala social da Índia. As crianças dessa escola vêm das famílias mais pobres - aquelas que não têm condições de mandar seus jovens para instituições particulares em outros lugares, como o faz a maior parte das famílias indianas com alguns recursos.

A Índia tem há tempos um legado de baixa escolaridade para seus jovens, apesar de ter promovido universidades de alta qualidade com financiamento do governo. Mas, se no passado um país basicamente pobre e agrário poderia dar-se ao luxo de deixar milhões de pessoas no analfabetismo, esse não é mais o caso. Não só a florescente economia mostra sinais de falta de mão-de-obra qualificada, como a profusão de novas estradas, telefones e aparelhos de televisão estimularam novas ambições para o progresso econômico na população - e maiores expectativas para que as escolas ajudem nisso.

O fato de elas continuarem mal equipadas para a tarefa fica evidentemente ilustrado com uma pesquisa anual, realizada pela Pratham, a organização para a qual Ghosh trabalha. A pesquisa mais recente, feita em 16 mil povoados em 2007 e divulgada na quarta-feira da semana passada, descobriu que embora houvesse muito mais crianças nas salas de aula, um imenso número delas não sabia ler, escrever ou resolver operações aritméticas, sem falar daquelas que sequer freqüentavam a escola. Entre as crianças da quinta série, quatro em cada 10 não conseguiam ler textos de nível do segundo grau e sete em 10 não faziam subtrações. Os resultados refletem uma ligeira melhora nos preocupantes resultados de leitura em 2006 e um pequeno declínio em aritmética; juntos eles dão destaque a uma das mais preocupantes lacunas nas perspectivas da Índia para a continuidade do crescimento.

Especialistas em educação debatem as razões do fracasso. Alguns assinalam que os filhos de pais analfabetos têm menos chances de conseguir ajuda em casa; a pesquisa da Pratham mostra que o filho de uma mulher analfabeta tem melhor desempenho na escola. Outros culpam a persistente negligência, o insuficiente financiamento público e a não prestação de contas, além da falta de motivação entre alguns dos professores, de dar atenção especial às crianças mais pobres de castas inferiores.

"Educação é um investimento de longo prazo," disse Montek Singh Ahluwalia, vice-presidente da Comissão de Planejamento e o principal czar da política do governo. "Nós a temos negligenciado, na minha opinião, de forma criminosa, por um período de tempo longo demais."

Em busca de uma saída
Diferenças à parte, a Índia está engajada hoje em dia em uma experiência épica para elevar o nível de suas escolas. Ao longo do caminho há muitos obstáculos, e Ghosh, nas visitas que fez aos povoados como esse, os encontra de todos os tipos. Os assessores contratados para atrair mais crianças das localidades para as escolas queixam-se de não ter recebido dinheiro para comprar os materiais educativos. Ou a escola parou de servir o almoço, mesmo que haja sacos de arroz empilhados na sala de aula. Ou os pais concordam em matricular os filhos na escola, mas sabendo que em breve os tirarão, para mandá-los para o trabalho. Ou, pior de tudo, do ponto de vista de Ghosh, todas essas crianças magras e altas, de olhos brilhantes que freqüentam a escola todas as manhãs receberem tão pouco de volta. "Elas chegam com a esperança de receber algo," queixa-se Ghosh. "A culpa é nossa se não podemos dar nada a elas."

Mesmo aqui, o tipo de lugar de onde milhões de homens e mulheres sem instrução migraram para as cidades, o interesse pela educação começa a se impor. Os pais concluíram que uma pessoa instruída não só terá maior probabilidade de encontrar um bom trabalho, como terá menos chances de ser enganada em um trabalho ruim. "Quero que meus filhos façam algo, progridam sozinhos," é o que afirma Muhammad Ansari. "Para fazer isso, precisam estudar."

A educação na nova Índia tornou-se um identificador crucial de desigualdade. Entre os 20% mais pobres entre os homens indianos, metade é composta por analfabetos e quase 2% têm o segundo grau, segundo dados do governo. Em contraposição, entre os 20% de homens mais ricos, quase metade formou-se no secundário e apenas 2% são analfabetos.

Tão importante quanto isso, numa época em que apenas um entre 10 indianos em idade escolar de fato vai para a faculdade, a instrução superior tornou-se a forma mais eficaz de escalar a escada dourada da nova economia. Um estudo recente feito por dois economistas de Nova Délhi constatou que entre 1993-94 e 2004-05, formados em faculdades desfrutavam de aumentos de salário de 11% por ano, e os analfabetos viram seus salários aumentarem aproximadamente 8,5%, a partir de uma base lamentavelmente baixa; aqui, no Estado de Bihar, por exemplo, um trabalhador que recebe por dia mal consegue um dólar diário.

"A conexão entre ter seus filhos preparados e fazer parte dessa Índia grande e em mutação, certamente está na mente de todos," disse Rujmini Banerji, diretora de pesquisa da Pratham. "A questão é: qual o melhor meio de chegar lá, quanto se preparar, o que fazer? O país, acredito, está tentando descobrir isso."

Ela acrescentou: "Se esperarmos mais 5 ou 10 anos, perderemos milhões de crianças."

Dinheiro do governo
A Índia começou a investir em educação recentemente. Os gastos públicos em escolas têm aumentado estavelmente nos últimos anos, e o governo agora se propõe a triplicar seu compromisso de financiamento para os próximos cinco anos. No momento, os gastos com educação são de cerca de 4% do produto interno bruto. Cada povoado com mais de mil moradores tem uma escola primária. E dinheiro para uma refeição gratuita por dia.

Mesmo um Estado como Bihar, que possuía uma população estimada de 83 milhões em 2001 e onde as escolas estão particularmente em mau estado, a escala do esforço é impressionante. No ano passado, 100 mil novos professores foram contratados. Os moradores desempregados recebem para recrutar crianças que jamais foram à escola. Foi criada uma comissão de educação do povoado, em teoria para garantir que as escolas e seus diretores prestem contas à comunidade. E muito dinheiro foi aplicado na educação, para a compra de balanços e bancos, na pintura das salas de aula, e até mesmo para a colocação de cercas ao redor da escola, para impedir que as crianças fujam.

E, no entanto, mostra Lahtora, boas intenções tornam-se terrivelmente complicadas quando postas em prática.

No momento, não falta dinheiro para a escola da localidade. O governo destinou US$ 15 mil para construir um novo edifício para a escola, US$ 900 para uma nova cozinha e US$ 400 para novos bancos escolares. Mas apenas parte do dinheiro chegou e o presidente da comissão escolar disse não ter certeza do quanto os funcionários locais cobrarão em subornos. Um amigo do presidente de um vilarejo vizinho disse que foi exigido US$750 da comissão de sua região em troca dos alvarás de construção.

Acontece que o presidente da comissão também é tio do professor diretor, o que torna a idéia de prestação de contas ainda mais complicada. Um pai disse a Ghosh que suas culpas caem em ouvidos moucos: os professores são ligados a pessoas poderosas na comunidade. É um tema comum num país onde os empregos de professor são um instrumento poderoso de clientelismo.

A torneira de água potável da escola parou de funcionar há muito tempo, assim como em 30% das escolas do país, segundo a pesquisa da Pratham. Apesar do dinheiro extra, o banheiro está quebrado, como ocorre em quase metade de todas as escolas do país.

Por sorte, havia uma boa reserva de arroz em um dos cantos da sala de aula, provisões para o saboroso mingau de arroz que é um dos principais atrativos das escolas do governo. Exceto que Hassan, o principal professor, disse que o arroz não estava oficialmente creditado na contabilidade, porque não havia arroz para servir às crianças - pelo menos não no registro de seus livros, e então ele não serviu almoço na semana passada.

E o quanto ao dinheiro que vem do governo para a compra de ovos e outras provisões para o almoço, indagou Ghosh? Esse também não foi gasto, explicou Hassan, porque não havia arroz para servir junto - pelo menos não nos seus livros de contabilidade.

(Analistas dos programas anti-pobreza do governo dizem que o arroz pode ser uma tentadora fonte extra de renda para funcionários inescrupulosos de escolas; descobre-se que o alimento destinado aos pobres em geral, não nessa escola em particular, é às vezes desviado e vendido mo mercado privado, embora uma das descobertas mais positivas da pesquisa da Pratham tenha sido que as refeições gratuitas são servidas em mais de 90% das escolas.)

Ghosh oscila entre confuso e furioso. "Temos o arroz. Existe o dinheiro. Você prefere que as crianças não comam?" ele indaga.

Hassan discorda, com um movimento de cabeça. Ele disse que só poderia cozinhar o arroz que estivesse em seus registros, ou cozinhar o arroz se um alto funcionário do governo o autorizasse a fazer isso. Ghosh prosseguiu assinalando que uma das assessoras apareceu mais de uma hora de atraso, com um bebê chorando nos braços. Dois outros professores estavam ausentes. Até mesmo Hassan, acrescentou Ghosh, tinha meia hora de atraso.

"Você é o diretor dessa escola," disse Ghosh a ele. "Só você pode melhorar essa escola." Hassan respondeu rápido: "Do que você está falando? Nos últimos 25 anos, essa escola simplesmente não funcionou."

Planos novos, atitudes antigas
Ghosh não pode contestar isso. Houve épocas em que as portas da escola sequer foram abertas. Um pai, um trabalhador agrícola, disse que tentou algumas vezes matricular seus filhos, mas desistiu depois que o antigo diretor exigiu dinheiro. Muitos pais nesse vilarejo predominantemente muçulmano escolhem escolas islâmicas porque se considera que elas oferecem melhor disciplina.

Outros não viram qualquer necessidade de mandar os filhos à escola.

Ghosh, também, freqüentou as escolas do governo, em uma cidade pequena no Estado vizinho de Bengala Oeste, que está em condições ligeiramente melhores que as daqui. Mas, se ele se atrevesse a cabular aula, ele se lembra, apanharia do pai, diretor de uma escola pública. As crianças desse vilarejo, ele afirma, podem não ter tanta sorte. "Quando elas começaram a vir para cá," Ghosh lembra, os pais lhe perguntavam, "O que você vai me dar? Só o mingau não é suficiente. Porque se eu mandar o meu filho cuidar de um búfalo, pelo menos ele ganha três rúpias." Três rúpias é menos de 10 centavos de dólar.

Uma manhã, Ghosh foi à moradia de barro e sapé de Mohammed Zakir, um operário migrante que vai trabalhar em Nova Délhi todos os anos. O filho de Zakir, Farooq, de 10 anos de idade, foi à escola pela primeira vez esta semana. E na opinião de Zakir, está tudo bem até que Farooq complete 14 anos, a idade legal para ter um emprego, quando ele terá de ir a Nova Délhi. Manter uma criança na escola durante a adolescência, disse o pai com toda franqueza, não é um luxo que a família poderia sustentar.

Saindo da casa da família Zakir, Ghosh estava totalmente desanimado. "Se eu não conseguir que essa criança fique na escola," ele disse, "essa criança acabará por jamais freqüentar as aulas." Claudia Dall'Antonia

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