UOL Notícias Internacional
 

21/01/2008

Revisitando a "Geração Eu" x "Você"

The New York Times
Stephanie Rosenbloom
Em cada um dos seguintes pares de afirmações, foi solicitado às pessoas que participaram da pesquisa, que escolhessem a declaração com a qual concordam mais:

a) "Tenho um talento natural para influenciar pessoas"
b) "Não sou bom para influenciar pessoas"

a) "Consigo 'ler' as pessoas como se fossem um livro"
b) "Às vezes é difícil entender as pessoas"

a) "Serei uma grande pessoa"
b) "Espero ser bem-sucedido"

Essas são algumas das 40 perguntas de uma versão popular do Inventário da Personalidade Narcisista. Ele pode se parecer com um daqueles testes feitos só para passar o tempo, do mesmo nível do "Qual dos super-heróis você é?" mas geralmente é usado por cientistas sociais para medir as características de uma personalidade narcisista. (A escolha da primeira afirmação em qualquer uma das duplas acima seria classificada de narcisista)

O bom senso, com o apoio de estudos acadêmicos que usaram o Inventário da Personalidade Narcisista, garante que os jovens de hoje, educados na religião da auto-estima, incentivados por anúncios de reality shows, promoções pessoais no YouTube - são mais narcisistas que seus predecessores. Eles participam de grupos como a Associação para o Narcisismo Justificado, no Facebook. Um estudo divulgado no ano passado pelo Pew Research Center for the People and The Press, chamou os americanos entre 18 e 25 anos de geração "Olhe para Mim" e informou que as metas principais desse grupo eram fortuna e fama.

"Qualquer coisa que façamos, voltada para a política, sempre fica sem graça", disse Ricky Van Veen, de 27 anos, fundador e editor-chefe do CollegeHumor.com, um site popular e bem-sucedido. "Parece que os jovens não estão muito interessados em política atualmente, especialmente em comparação com a geração de seus pais. Acho que isso se credita ao argumento de que existe mais narcisismo e que eles estão mais preocupados com eles mesmos, não com as coisas que acontecem em torno deles."

Mas apesar de exibir alguns sinais de obsessão com eles mesmos, os jovens americanos não são mais autocentrados que as gerações anteriores, segundo uma nova pesquisa que contesta a opinião predominante.

Alguns estudiosos assinalam que queixar-se do egocentrismo de um jovem é uma atividade dos adultos. ("As crianças agora amam o luxo," escreveu Platão há 2.400 anos. "Elas têm maus modos, desprezo pela autoridade; mostram desrespeito pelos mais velhos e preferem conversar em vez de se exercitar.") Outros advertem que se os jovens continuarem a ser rotulados como egoístas e narcisistas, eles simplesmente terão de fazer jus à reputação.

"Essa é uma profecia que cumpre as suas próprias expectativas," disse Kali H. Trzesniewski, professor assistente de psicologia na Universidade de Western Ontario. Trzesniewski, junto de colegas da Universidade da Califórnia, Davis e da Michigan State University, vai publicar uma pesquisa na revista Psychological Science de fevereiro, mostrando que houve poucas alterações nos pensamentos, sentimentos e comportamento dos jovens nos últimos 30 anos. Em outras palavras, as transmissões Twitter (misto de blog com serviço instantâneo de mensagens) de hoje em dia são os seminários de introspecção de 1978.

Trzesniewski disse que seu estudo é uma resposta à muito divulgada pesquisa de Jean Twenge, professora associada de psicologia na San Diego State University, que com outros colegas constatou que o narcisismo aparece muito mais entre as pessoas nascidas na década de 1980 que em gerações anteriores. O título do livro de Twenge resume a pesquisa: "Generation Me: Why Today's Young Americans Are More Confident, Assertive, Entitled - and More Miserable Than Ever Before", 2006, Free Press. (Numa tradução livre, "A Geração Eu: porque os jovens americanos de hoje estão mais confiantes, decididos, capacitados - e mais infelizes que nunca").

Twenge atribuiu suas conclusões em parte a uma mudança nas crenças culturais básicas, que emergiu quando os pais da geração baby-boom e os educadores dedicaram-se a instilar a auto-estima em crianças no início da década de 1970. "Achamos que se sentir bem consigo mesmo é muito, muito importante," ela disse em uma entrevista. "Bem, esse não era o caso, nas décadas de 1950 e 1960, quando as pessoas pensavam sobre 'o que precisamos ensinar aos jovens? '" Ela menciona também a cultura revelada nas frases da época: "acredite em você e tudo será possível" e "faça o que for certo para você." "Todas são narcisistas," ela diz.

"Geração Eu" inspirou uma série de artigos na imprensa popular com manchetes como "Sou o centro de tudo," "Super-tudo, extra-egoístas" e "Grandes bebês: você acha que os baby-boomers são auto-centrados? Espere até conhecer os filhos deles."

Twenge está trabalhando em um outro livro, com W. Keith Campbell da Universidade da Geórgia, que pode vir a se chamar "A epidemia de narcisismo."

No entanto, alguns estudiosos argumentam que o súbito aumento de egoísmo entre jovens é, como a história de Narciso, um mito.

"É como uma queixa doméstica: colocá-los para baixo e se queixar deles e lamentar porque eles não crescem," disse Jeffrey Jensen Arnett, que segue a linha da psicologia desenvolvimentista, referindo-se a jovens americanos.

Arnett, autor de "Emerging Adulthood: The Winding Road From the Late Teens through the Twenties" (2004, Oxford University Press) (Em tradução livre: Maturidade emergente: o tortuoso caminho do final da adolescência em direção aos 20 anos"), escreveu uma crítica ao livro de Twenge, que será publicada no American Journal of Psychology.

Arnett e outros estudiosos sugerem várias razões que explicam como os jovens podem ter sido vistos como um grupo com características narcisistas em alta. Estas incluem os preconceitos pessoais de adultos mais velhos, a falta de matizes no Inventário da Personalidade Narcisista, a mudança das normas sociais, a ênfase da mídia no noticiário sobre celebridades e a ascensão de sites de relacionamento social que incentivam o egocentrismo.

Richard P. Eibach, professor assistente de psicologia em Yale, constatou que crenças exageradas no declínio das normas culturais e morais estão disseminadas - em grande parte porque as pessoas tendem a confundir as mudanças nelas mesmas com as mudanças no mundo exterior. "Nossa constatação automática é que alguma coisa real mudou," disse Eibach. "É preciso um raciocínio extra para perceber que algo a respeito de sua própria perspectiva ou a informação que você está recebendo possa ter mudado."

Trzesniewski cita como exemplo dessa predisposição uma cena do filme "Ligeiramente Grávidos" no qual os novos pais levam seu bebê, de volta para casa, do hospital, dirigindo bem devagar. A estrada, claro, não está mais perigosa que antes de o casal se tornar mãe e pai. Mas uma vez que eles passaram por aquela transição na vida, assumem a percepção de perigo na jornada.

Na verdade, transição para a paternidade, maior responsabilidade e envelhecimento físico são exemplos das mudanças que ocorrem nos indivíduos e tendem a ser as fontes reais da percepção, pelas pessoas, de que os outros têm menos respeito pelas normas morais, escrevem Eibach e Lisa K.Libby da Ohio State University em um capítulo do livro de psicologia que explora a "ideologia dos bons velhos tempos," a ser publicado pela Oxford University Press no fim deste ano. (Eles também dizem que as percepções de falta de adesão às normas tendem a ser associadas a atitudes conservadoras.)

Twenge e Trzesniewski usaram o inventário em seus estudos, embora tenham escolhido diferentes conjuntos de dados e tenham conclusões opostas. Cada um deles disse que seu conjunto de dados é melhor que o do outro, por varias razões - todas boas, mas um relato extenso demais para entrar aqui. Twenge, que leu a crítica de Trzesniewski, disse que mantém sua própria análise nacional e tem uma resposta abrangente, junto de um outro estudo, a ser publicado no Journal of Personality. Ele afirma que em parte, "sua crítica no final reforça nossa opinião de que o narcisismo aumentou de geração em geração, entre estudantes universitários."

Arnett descarta testes como o inventário. "Eles possuem uma validade muito limitada", ele diz. "Não avaliam realmente a complexidade da personalidade das pessoas." Algumas das escolhas do teste ("Eu me considero um bom líder") "parecem características de uma personalidade bastante normal," ele afirma.

Twenge diz compreender tal sentimento, mas o inventário tem se mostrado de forma confiável uma medida precisa (ela o chama de "teste amigo"). "Existe um número razoável de testes de personalidade que, quando se olha para eles, parecem estranhos, mas o importante é o que eles prevêem," ela diz.

Testes ou não, Arnett teme que criticar os jovens tornou-se tão comum que suas realizações tendem a ser esquecidas, como o fato de os jovens hoje terem um relacionamento mais íntimo com os seus pais do que o existente entre crianças e seus pais na década de 1960 ("eles realmente entendem coisas da perspectiva de seus pais," disse Arnett), ou que eles popularizaram a alternativa da folga primavera, na qual o estudante opta por passar os dias sem aula ajudando pessoas em um país do Terceiro Mundo em vez de se embebedar em Cancún. "É o desenvolvimento de um novo estágio de vida entre a adolescência e a maturidade," disse Arnett. "É uma condição temporária de estar autocentrado, não uma característica permanente de geração." Claudia Dall'Antonia

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