UOL Notícias Internacional
 

22/01/2008

Ação do México contra gangues do narcotráfico lembra uma guerra

The New York Times
James C. McKinley Jr.*
Em Rio Bravo, México
Atualmente é fácil ter a impressão de que uma guerra está ocorrendo no México. Milhares de soldados de elite em uniformes de combate seguem para as cidades da fronteira e percorrem as ruas em jipes armados com metralhadoras de calibre .50, enquanto caças da Marinha mexicana realizam missões de reconhecimento aéreo.

Combates entre forças federais e membros do cartel das drogas empunhando lançadores de granadas propelidas por foguete ocorreram nas duas últimas semanas em cidades de fronteira como Rio Bravo e Tijuana, com resultados mortais.

Mas o que está acontecendo é menos uma guerra e mais uma intervenção federal sustentada em Estados onde, há décadas, policiais municipais corruptos e gangues das drogas trabalham juntos em relativa paz, disseram as autoridades. As forças federais não estão apenas caçando os líderes do cartel, mas também atrás de bandos de matadores, como os guardas do Cartel do Golfo conhecidos como os Zetas, que aterrorizam as cidades que controlam.

Oscar Hidalgo/The New York Times 
Policial federal revista suspeito em Reynosa, México, na região de fronteira com os EUA

O ataque quebrou um antigo sistema no qual a polícia dava às costas em troca de suborno e os líderes do cartel ficavam à vontade para realizar seus negócios.

Em Rio Bravo, por exemplo, a delegacia da polícia estadual fica em frente a uma propriedade murada que até recentemente servia como esconderijo para os matadores Zetas. Um tiroteio com vítimas fatais ocorreu quando agentes federais tentaram prender homens portando metralhadoras em um carro.

Enquanto granadas explodiam e disparos cortavam o ar, Jesus Vasquez, 65 anos, mergulhou atrás do balcão de sua loja. Ele abraçou o chão de concreto e rezou.

"Foi feio", ele lembrou. "Foi a primeira vez que algo assim aconteceu."

O presidente Felipe Calderón, que foi eleito em 2006 com a promessa de criar empregos, passou grande parte de seu primeiro ano de governo tentando erradicar o crime organizado. Para consternação de alguns liberais daqui, ele mobilizou as forças armadas para isto, enviando 6 mil soldados apenas para o Estado de Tamaulipas.

Assim que estes soldados, juntamente com milhares de agentes federais, começaram a pressionar as gangues do narcotráfico, gângsteres do escalão médio e matadores montaram uma resistência surpreendente. Repetidas vezes, eles têm optado por lutar em vez de se renderem.

Eles emboscaram e mataram mais de 20 policiais neste ano. Nas duas últimas semanas, quatro agentes federais e três comandantes da polícia da Baixa Califórnia foram assassinados, juntamente com a esposa e filho de um deles, aparentemente em retaliação às prisões, disseram as autoridades.

Tal violência já se espalhou para os Estados Unidos. Na manhã de sábado, traficantes do México mataram um agente da patrulha de fronteira americana, Luis Aguilar, 32 anos, quando ele tentou parar o carro deles nas dunas de areia a cerca de 32 quilômetros a oeste de Yuma, Arizona, e então fugiram cruzando a fronteira. Michael Chertoff, o secretário de segurança interna, disse que o assassinato demonstrou como as organizações criminosas responderam à repressão contra suas operações com uma maior brutalidade.

"Os Zetas estão desafiando o Estado", disse Jorge Chabat, um especialista em narcotráfico e segurança do CIDE, um grupo de pesquisa mexicano. "Esta operação dos últimos dias no norte do México não tem precedente."

Ainda não se sabe se a estratégia de Calderón funcionará a longo prazo. Muitos dos chefões das drogas mais procurados do país continuam escapando das forças federais, freqüentemente com a ajuda de policiais locais.

Algumas autoridades federais reconheceram privativamente que enfrentam uma batalha colina acima enquanto policiais locais continuarem informando o narcotráfico sobre seus movimentos. A ameaça ficou clara no sábado, quando autoridades federais prenderam quatro policiais locais em Nuevo Laredo, juntamente com sete civis, e os indiciaram por fornecerem informações aos Zetas por freqüências de rádio policiais.

"Não se pode contar com a polícia local", disse um inspetor federal veterano em Reynosa, que falou sob a condição de anonimato por temer perder seu emprego. "O problema está nas polícias estaduais. Elas estão totalmente a serviço desses caras."

No Estado de Tamaulipas, a sudeste do Texas, o foco do governo tem sido estrangular os Zetas. Fundados por ex-comandos mexicanos treinados nos Estados Unidos, os Zetas há muito são os assassinos profissionais do Cartel do Golfo, que controla o fluxo de drogas ao longo da Costa do Golfo e pela fronteira do Texas. Acredita-se que o grupo tenha uma grande quantidade de membros, apesar do número exato ser desconhecido.

Os matadores continuam sendo uma força formidável, disseram as autoridades. Os comandantes da polícia federal no Estado precisam permanecer em movimento constante para manter sua localização em segredo e evitar tentativas de assassinato. O gabinete do procurador-geral federal no Estado está vago há meses; as autoridades na Cidade do México dizem que estão tendo dificuldade para preencher o cargo.

Edgar Millan, um comandante da polícia federal que está encarregado da caça aos Zetas, disse que um contingente de 1.200 agentes em Tamaulipas realiza diariamente buscas por membros do grupo, atacando alvos específicos que supostamente são esconderijos e atentos a carros levando homens armados.

A polícia federal também montou um sistema de 10 barreiras nas principais rodovias na metade leste do Estado. Na maior parte do tempo eles param carros com vidros escurecidos que transportam dois ou mais jovens, na esperança que isto dificulte a movimentação dos bandidos.

Mas os Zetas também possuem uma rede sofisticada de espionagem, disse Millan em uma entrevista. Eles empregam taxistas, balconistas, vendedores ambulantes e membros da polícia local para mantê-los a par da movimentação dos agentes federais.

Várias vezes nos últimos quatro meses, a polícia esteve perto de capturar o líder do cartel, Heriberto Lazcano, apenas para vê-lo escapar no último instante, disse Millan. Dois outros importantes líderes do cartel, Jorge Eduardo Costilla e Miguel Angel Trevino, também escaparam da captura.

Mas apesar dos líderes do Cartel do Golfo permanecerem foragidos, o governo obteve um sucesso em Sinaloa na segunda-feira, quando capturou Alfredo Beltran Leyva, um dos cinco irmãos que são altos tenentes no cartel baseado em Culiacan.

Apesar dos grandes chefes terem escapado da polícia, a ofensiva iniciada contra os Zetas em novembro passado, após o assassinato de um proeminente político local em Rio Bravo, foi positiva em muitos aspectos, disseram as autoridades. A polícia prendeu cerca de 40 membros reputados da gangue e apreendeu dezenas de metralhadoras, rifles, revólveres, granadas e caixas de munição.

A polícia federal também começou a submeter os policiais locais a uma bateria de testes para determinar quem pode estar ligado ao crime organizado. Entre os testes estão polígrafos, exames para drogas e verificação das finanças pessoais. A meta é erradicar os colaboradores.

Muitas pessoas daqui dizem apreciar a intervenção federal, mesmo que signifique a presença de tropas patrulhando suas ruas. Mas outras expressaram dúvida de que as forças do governo possam esmagar o cartel, dada sua infiltração na polícia local. Tudo o que as forças federais conseguiram, eles disseram, é provocar mais violência.

"Viver no México se tornou muito difícil", disse um homem que foi parado e revistado em uma barreira perto de Matamoros. Ele falou sob a condição de anonimato por temer os traficantes. "Até a Colômbia parece melhor."

Outros se queixam de que a presença de soldados e agentes federais, juntamente com os combates armados, afugentou os turistas americanos, uma fonte importante de renda. No ano passado, cerca de 6 milhões a menos de pessoas visitaram as cidades de fronteira em comparação a 2006; há queda na ocupação dos hotéis e as vendas de pacotes turísticos diminuíram acentuadamente, segundo a Associação dos Hotéis e Motéis Mexicanos.

"Muita gente costumava cruzar a fronteira para comer e comprar coisas", disse Alfredo Tantu, 40 anos, o proprietário do restaurante El Cazador, perto de Rio Bravo, enquanto o cheiro de cabrito assado vinha de sua cozinha. "Agora quase ninguém vem por causa desta ação policial."

* Reportagem de James C. McKinley Jr., em Rio Bravo, na semana passada, com acréscimo de informação atualizada da Cidade do México, no domingo e segunda-feira. George El Khouri Andolfato

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