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22/01/2008

Política é coisa de animal... Ei, estamos falando dos não humanos!

The New York Times
Natalie Angier
Yvetta Fedorova/The New York Times

Conforme os candidatos nos demonstraram na telenovela suculenta que é a disputa presidencial de 2008, existem muitas formas de lutar pelo poder político. É possível agir de forma fria e dura usando uma jaqueta de caça de cor laranja, ou apelar para o sentimentalismo com uma caixa de Kleenex. Dá também para se aliar a um macho alfa como Chuck Norris, saudar amigavelmente uma fêmea alfa como Oprah Winfrey ou equilibrar essa diferença e fazer a campanha com a mãe. Pode-se buscar o apoio comedido dos anciães da cidade, ou apelar para a energia inesgotável dos jovens, segurar teatralmente no colo bebês desconhecidos ou criticar furtivamente o oponente.

Assim como existe uma infinidade de estratégias abertas para o animal político humano que nutre a ambição de chegar à Casa Branca, há também alguns animais não humanos que comportam-se como os políticos típicos. Os pesquisadores que estudam espécies altamente gregárias e relativamente inteligentes como os macacos rhesus, os babuínos, os golfinhos, os cachalotes, os elefantes e os lobos descobriram recentemente indicações de que essas criaturas envolvem-se em formas extraordinariamente complicadas de política, freqüentemente através de amplas redes sociais.

Os golfinhos machos, por exemplo, organizam-se em pelo menos três grupos de amigos e cúmplices, diz Richard C. Connor, da Universidade de Massachusetts em Dartmouth, de maneira similar àquela como as sociedades humanas são construídas com base em pequenos grupos familiares, em tribos maiores e em nações-estados ainda maiores. Os golfinhos mantêm as suas alianças por meio de torções, saltos e rotações elaboradamente sincronizados, como se fossem pilotos da esquadrilha Blue Angels (esquadrilha de acrobacias aéreas da Marinha dos Estados Unidos) exibindo nas alturas a sua fraternidade acrobática.

Entre os elefantes, são as fêmeas as políticas natas, cultivando laços sociais robustos e duradouros com pelo menos cem outros elefantes, uma tarefa facilitada pelo poder que elas têm de se comunicar através de infra-sons por distâncias de vários quilômetros pelas savanas. Os lobos, ao que parece, alteram as suas sociedades altamente hierarquizadas com exibições ocasionais de ressentimento populista, e caso o líder de uma alcatéia comporte-se de uma forma demasiadamente tirânica, os lobos subordinados podem conspirar para derrubá-lo.

Segundo os cientistas, onde quer que os animais invistam os seus talentos e quantidades em grupos sociais coesos, com o objetivo de se defender melhor de predadores, aumentar o território ou adquirir parceiros sexuais, surgem as condições para a emergência de habilidades políticas - a capacidade de agradar e aplacar, manipular e intimidar, trocar favores e coçar as costas dos outros ou, melhor ainda, retirar carrapatos e outros parasitas das costas dos companheiros.

Com o passar do tempo, as exigências da vida social dos animais podem sobrepujar todas as outras pressões seletivas no ambiente, possivelmente atuando como o impulso dominante para a evolução de cérebros ainda maiores e caçadores de votos. E embora nós humanos possamos desaprovar vagamente os nossos impulsos políticos e alimentar fantasias de nos livrarmos gloriosamente da tribo barulhenta, o fato é que para nós e outras espécies altamente sociais não há mais retorno. Um lobo solitário é um lobo fraco, um fracasso, sem nenhuma chance de prosperar.

Dario Maestripieri, primatologista da Universidade de Chicago, observou um dilema similar em humanos e nos macacos rhesus que estuda.

"O paradoxo de espécies altamente sociais como o macaco rhesus e os humanos é o fato de a nossa sociabilidade complexa ser a razão do nosso sucesso, mas também a fonte dos nossos maiores problemas", diz ele. "No decorrer da história humana, vemos que os piores problemas para as pessoas quase sempre são oriundos de outros indivíduos, e o mesmo ocorre com os macacos. Você pode colocá-los onde quiser, mas o principal problema deles será sempre os outros macacos rhesus".

Segundo a ótica de Maestripieri, os macacos rhesus encarnam o conceito "maquiavélico" (e ele, apropriadamente, intitulou o seu recente e popular livro sobre macacos "Macachiavellian Intelligence", algo como "Inteligência Macaquiavélica").

"Os indivíduos não brigam por comida, espaço ou recursos", explica Maestripieri. "Eles lutam por poder. Com poder e status eles contam com controle sobre tudo o mais".

Os macacos rhesus, onívoros de porte médio com uma pelagem marrom-avermelhada, faces longas e barbadas e orelhas que parecem-se perturbadoramente com as dos humanos, são encontrados na Ásia, incluindo diversas cidades, nas quais, assim como todo mundo, gostam de assediar os turistas. Os macacos geralmente vivem em grupos de cerca de 30 indivíduos, sendo que a maioria é composta de fêmeas geneticamente aparentadas e dos seus filhotes dependentes.

O status de uma macaca é geralmente determinado pelo status da sua mãe. Os machos adultos, sendo aqueles que vêm de fora e ingressam no grupo, precisam firmar as suas posições sociais arranhando, mordendo, exibindo os caninos e, o mais importante, conquistando as suas bases de apoio.

"A luta nunca é algo que ocorre entre dois indivíduos", afirma Maestripieri. "Outros envolvem-se o tempo todo, e as chances de sucesso dependem de quantos aliados se tem e da dimensão da rede de apoio".

Os macacos cultivam os relacionamentos sentando-se perto dos amigos, coçando-lhes a pelagem sempre que surja oportunidade para isso e correndo ao auxílio deles - pelo menos quando há uma platéia observando. "Os machos rhesus são o supra-sumo do oportunismo", afirma Maestripieri. "Eles fingem ajudar os outros, mas só ajudam os adultos, e não os filhotes. Eles só ajudam aqueles que ocupam um patamar mais alto na hierarquia. Eles só entram em brigas quando sabem que vão ganhar e quando o risco de se machucar é pequeno. Em suma, eles tentam obter os benefícios máximos ao menor custo possível, e esta é uma estratégia que parece dar certo para conquistar status".

Nem todos os primatas machos buscam o poder apelando para os outros machos. Entre os babuínos oliva, por exemplo, um jovem macho adulto que deixa a sua terra natal e procura ser eleito para ingressar em um novo grupo de babuínos começa a sua investida cortejando uma fêmea que não esteja no cio no momento, e que portanto não será contestada por outros machos.

"Caso o macho tenha sucesso em estabelecer uma amizade com uma fêmea, isso abre um canal de acesso aos parentes dela e permite que ele se infiltre em toda a rede social formada pelas fêmeas", diz Barbara Smuts, bióloga da Universidade de Michigan. "Nos babuínos oliva, as amizades com as fêmeas podem ser bem mais importantes do que as alianças políticas com outros machos".

Como os machos são freqüentemente chamados de o sexo que se dispersa, enquanto as fêmeas ficam para trás apoiando a rede de fêmeas aparentadas, estas formam a espinha dorsal política entre vários mamíferos sociais. Quando maior a longevidade da espécie, mais densa e mais ricamente articulada tende a ser esta espinha dorsal.

Com expectativas de vida semelhantes às nossas, os elefantes estão demonstrando que possuem algumas das redes sociais mais elaboradas que já foram observadas, e as suas memórias relativas a amigos que estão longe e a relacionamentos condizem com a reputação da espécie. A sociedade dos elefantes é organizada como um matriarcado, afirma George Wittemyer, especialista em elefantes da Universidade da Califórnia em Berkeley, sendo que um grupo central de talvez dez elefantes é liderado pela fêmea mais velha. O grupo central fica junto praticamente o tempo inteiro, viajando distâncias consideráveis, parando para escavar buracos em busca de água e procurando plantas frescas para arrancar e comer.

"Eles estão constantemente tomando decisões, debatendo entre si, a respeito de comida, água e segurança. Dá para ver isso no campo. Você os ouve discordar vocalmente. Tipicamente, a matriarca dá a palavra final, e os outros acatam a decisão. Caso uma facção discorde de forma suficientemente intensa e queira adotar uma abordagem diferente, o grupo se separa e se reúne novamente mais tarde", diz Wittemyer.

Segundo ele, a idade confere os seus privilégios, e as fêmeas mais velhas, mesmo que não sejam as maiores, freqüentemente conseguem os melhores locais para dormir e a melhor comida. Mas isso também implica em responsabilidades, e uma matriarca é muitas vezes aquela que lidera a ação frente a conflitos com outros elefantes ou a ameaças de predadores, às vezes com conseqüências fatais.

Hal Whitehead, da Universidade Dalhousie, e os seus colegas descobriram paralelos surpreendentes entre o elefante e um outro animal gigantesco, o cachalote, que possui o maior cérebro, em termos absolutos, que o mundo já viu. Assim como os elefantes, a sociedade dos cachalotes é sexualmente segregada. As fêmeas agrupam-se em regiões oceânicas 40 graus ao norte ou ao sul do equador, e os machos preferem as águas em torno dos pólos.

Como no caso dos elefantes, a unidade social central é um clã de 10 ou 12 fêmeas e seus filhotes. Os cachalotes também comunicam-se bastante por meio de sons. Eles comunicam-se entre si usando um padrão de cliques semelhante ao código Morse. Whitehead diz que cada clã possui um dialeto de cliques distinto que os membros utilizam para identificarem-se e que os adultos ensinam aos jovens.

"Em outras palavras, parece que eles possuem uma forma de cultura", diz o pesquisador.

Ninguém sabe a respeito do que as baleias fazem cliques, mas isso poderia ser uma forma de votação - por exemplo, é hora de parar aqui e mergulhar de forma sincronizada em busca de lulas de água profunda, hora de emergir, seguir em frente, mergulhar de novo. Os clãs de fêmeas também parecem escolher com que macho se acasalarão, e também quais serão coletivamente enxotados. Segundo tudo indica, as fêmeas de cachalote são terrivelmente obcecadas pelo tamanho. No decorrer de gerações, elas votaram consistentemente a favor de machos grandes. Atualmente o candidato dos seus sonhos é um cara chamado Moby que é três vezes maior do que elas. UOL

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