UOL Notícias Internacional
 

23/01/2008

Temor a Chávez faz classe média venezuelana buscar refúgio no sul da Flórida

The New York Times
Kirk Semple

Em Weston, Flórida
Em dezembro de 2002, Ariel Dunaevschi, na época proprietário de uma rede de lojas de móveis em Caracas, Venezuela, estava de férias em Nova York com sua família quando oponentes do presidente Hugo Chávez convocaram uma debilitante greve dos trabalhadores na esperança de deixar o governo dele de joelhos.

Enquanto o protesto prosseguia, paralisando a indústria do petróleo do país e devastando a economia, os Dunaevschis viram um futuro muito incerto para a Venezuela e chegaram a uma dolorosa decisão: seria melhor permanecerem nos Estados Unidos.

Eles voaram para a Flórida e alugaram uma casa aqui em Weston, uma cidade suburbana a oeste de Fort Lauderdale que se tornou tão popular entre os imigrantes venezuelanos que é conhecida como Westonzuela.

Alex Quesada/The New York Times 
Manuel Corao, diretor do Venezuela al Dia, um dos jornais da comunidade na Flórida

"Eu tinha um negócio na Venezuela, eu tinha lojas em Caracas, tudo estava funcionando perfeitamente", disse Dunaevschi, 39 anos. "Eu abandonei tudo." Ele acrescentou: "Eu comecei aqui do zero".

Os Dunaevschis são parte de uma onda de venezuelanos, a maioria de classe média e alta, que fugiram para os Estados Unidos à medida que Chávez aumentava seu controle das instituições políticas do país, impondo sua visão socialista e ameaçando promover um maior controle do Estado sobre muitas partes da economia.

Apesar de muitos terem conseguido estabelecer residência legal e obter o green card (o visto de permanência), seja por meio de negócios ou casamento, outros permaneceram aqui ilegalmente.

O aumento da emigração é um exemplo de como as realidades políticas e sociais da América Latina se refletem imediatamente nas ruas do sul da Flórida, uma dinâmica que passou a definir esta região no último meio século.

Muitos venezuelanos conseguiram transferir parte de sua riqueza ao se estabelecerem nos Estados Unidos. Por dois anos, Dunaevschi voava para Caracas a cada dois meses carregando malas vazias, que ele enchia com os pertences essenciais de sua família e os transportava de volta para Miami.

Em Caracas, ele dispensou os empregados da família, vendeu seus carros, móveis e propriedades e no final fechou seu negócio. Enquanto isso, em Miami, ele abriu uma nova empresa de móveis e se estabeleceu em sua nova vida americana.

Segundo dados do censo, a comunidade venezuelana nos Estados Unidos cresceu mais de 94% nesta década, de 91.507 em 2000, o ano após Chávez assumir a presidência, para 177.866 em 2006. Grande parte de tal aumento ocorreu no sul da Flórida, tornando a comunidade venezuelana uma das subpopulações latinas que mais crescem na região nesta década. De muitas formas, o afluxo de venezuelanos lembra a emigração cubana provocada pela derrubada de Fulgêncio Batista por Fidel Castro, em 1959, e sua imposição de um Estado socialista.

Manuel Corao, diretor de um dos vários jornais venezuelanos publicados no sul da Flórida, disse que o principal motivo para a emigração é o temor de que Chávez altere significativamente a qualidade de vida para as classes média e alta.

"O principal motivo é o temor de mudança no dia a dia, a perda da propriedade privada, a perda da independência para o governo, o temor de perda de direitos constitucionais e das liberdades individuais", disse Corao, que se mudou permanentemente para a Venezuela em 1996 e dirige o "Venezuela al Dia", um tablóide publicado três vezes ao mês com redação em Doral, um subúrbio de Miami onde venezuelanos se estabeleceram.

Como muitos dos cubanos que vieram para o sul da Flórida no início dos anos Castro, a maioria dos venezuelanos que chegou durante os primeiros anos do governo Chávez provavelmente não esperava permanecer muito tempo.

"Eles não achavam que Chávez duraria tanto, então muitos venezuelanos mudaram suas famílias para um local próximo, e o local mais próximo nos Estados Unidos é Miami", disse Thomas D. Boswell, professor de geografia na Universidade de Miami.

Fincando raízes no sul da Flórida, os venezuelanos transferiram seu dinheiro para bancos americanos, se casaram e divorciaram, abriram negócios, se tornaram ativos na política local e viram seus filhos se formarem em escolas americanas.

A decisão de Dunaevschi de manter sua família nos Estados Unidos foi facilitada por sua esposa, de quem está se divorciando, ser uma cidadã americana. "Eu podia trabalhar", ele disse. "Mas para muitas pessoas sem documentos, é mais complicado."

Como muitos venezuelanos que vieram recentemente para o sul da Flórida, Dunaevschi passou por uma mudança significativa em seu padrão de vida. Diante de um custo de vida muito mais alto, ele abandonou alguns luxos que tinha na Venezuela, como chofer e um quadro de funcionários domésticos.

"A vida era muito boa lá", ele disse. Mas como muitos venezuelanos aqui, ele não consegue imaginar um retorno enquanto Chávez estiver no poder, um sentimento semelhante ao de muitos exilados cubanos, que não retornarão a Cuba até que Castro morra.

"Eu não considerarei isso enquanto aquele sujeito estiver lá", disse Dunaevschi.

Até mesmo a derrota da reforma constitucional de Chávez em dezembro, que lhe permitiria permanecer na presidência indefinidamente, não ofereceu muita esperança para a comunidade de exilados. Enquanto isso, os exilados venezuelanos prosseguem com suas vidas aqui.

Atualmente há pelo menos cinco jornais e revistas com notícias sobre a Venezuela e a comunidade venezuelana no sul da Flórida. Os venezuelanos abriram restaurantes e padarias, empresas, organizações políticas que tratam de assuntos tanto americanos quanto venezuelanos, e até mesmo um centro médico para venezuelanos de baixa renda.

"Nós desatracamos o barco na Venezuela e agora estamos aqui", disse Ernesto Ackerman, que dirige uma empresa de suprimentos médicos em Miami. "E atracamos neste porto."

Ackerman também é presidente da Cidadãos Venezuelanos-Americanos Independentes, um grupo que está tentando encorajar a participação dos venezuelanos na política local. Ele e outros líderes comunitários dizem se inspirar no exemplo dos cubanos, que passaram a dominar a política do sul da Flórida, mas reconhecem que os venezuelanos ainda estão na infância política aqui.

Os venezuelanos são superados em número no sul da Flórida pelos cubanos, porto-riquenhos, colombianos, mexicanos, nicaragüenses e dominicanos, segundo dados de um censo de 2006, mas os líderes venezuelanos acreditam que sua população pode ter saltado para o quarto lugar nesta lista, acima de 100 mil, levando em consideração aqueles que permaneceram após a expiração de seus vistos de turista.

A crescente população venezuelana foi uma bênção para os bancos de Miami, já que muitos venezuelanos trouxeram seu dinheiro para cá. Ken Thomas, um analista do setor bancário em Miami, disse que o tamanho de tal afluxo de capital é incerto, apesar de ter dito que "claramente está na casa de bilhões".

"Uma das coisas interessantes sobre o sul da Flórida é que quando a América Latina está se saindo bem, nós nos saímos bem", disse Israel Kreps, que cuida das relações públicas do Mercantil Commercebank, um banco de propriedade venezuelana com sede em Coral Gables. "E quando a América Latina vai mal, nós nos saímos bem." Para muitos venezuelanos, a mudança teve um custo emocional. Em troca de uma relativa segurança política e econômica nos Estados Unidos, eles sofrem com o deslocamento cultural e a saudade do lar, familiares para imigrantes de todas as partes.

Um local onde buscam amizade é El Arepazo, um pequeno restaurante venezuelano ao estilo café ligado a um posto de gasolina da Citgo, em Doral.

"Ele se tornou ponto de comemorações e protestos", disse Carlos Nunez, 46 anos, um venezuelano que se mudou para Miami em 2000 e atualmente é dono de uma empresa que vende equipamento pesado de construção. "Nós comemoramos os fracassos de Chávez e lamentamos os sucessos de Chávez."

Em uma recente noite de quinta-feira, várias dezenas de pessoas -a maioria homens, venezuelanos- se reuniram no El Arepazo para uma sessão semanal de jogo de dominó. As partidas eram animadas, os jogadores ruidosos. Eles apupavam uns aos outros e o noticiário nas sete telas de TV no El Arepazo, que exibiam novelas venezuelanas e a cobertura da comemoração de Chávez com duas mulheres colombianas, cuja libertação foi negociada por ele junto aos rebeldes colombianos.

Daniel Garcia, 34 anos, um promotor de eventos em Miami, estava em pé em um canto assistindo aos jogos. Garcia se mudou da Venezuela para Miami em 1996, para assumir um emprego de verão distribuindo a revista de entretenimento de um amigo. Mas ele acabou permanecendo mais tempo do que o esperado, e assim que Chávez chegou ao poder em 1998, ele decidiu tornar sua mudança permanente.

"Não havia dúvida de que eu não voltaria", ele disse. "De jeito nenhum."

Garcia atualmente está casado e tem um filho. Ele disse que locais como El Arepazo mantêm ele e outros venezuelanos unidos e ajuda a matar a saudade de casa.

"Por um instante é possível esquecer de Chávez, esquecer de Miami, beber sua cerveja, insultar todo mundo, se divertir", ele disse. "É uma forma de esquecer de tudo." George El Khouri Andolfato

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