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24/01/2008

Palestinos da Faixa de Gaza derrubam muro e entram no Egito

The New York Times
Steven Erlanger, em Rafah, no Egito
e Graham Bowley, em Nova York
Milhares de palestinos passaram da Faixa de Gaza para o Egito na quarta-feira (23/01), depois que uma cerca na fronteira em Rafah, no Egito, foi derrubada. Ao entrarem no Egito os palestinos compraram freneticamente combustível, remédios, sabão, cigarros e outros produtos cujo fornecimento foi interrompido após vários dias de bloqueio imposto por Israel.

A cena na fronteira era a de um grande bazar. Os palestinos usavam burros, carroças e motocicletas para transportar cabras, colchões, galinhas, televisores, cimento e outros produtos que eles estão impossibilitados de comprar na Faixa de Gaza.

Israel ordenou o fechamento das suas fronteiras com a Faixa de Gaza na semana passada, interrompendo todas as remessas de mercadorias, com a exceção de produtos de emergência, depois de sofrer um intenso e constante ataque com foguetes desfechado por grupos militantes no território palestino, que é controlado pelo Hamas. Na terça-feira Israel permitiu a entrada de um pouco de combustível, produtos médicos e alimentos, como um alívio temporário, mas afirmou que a política de bloqueio continua em vigor.

Mahmud Hams/AFP - 14.jan.2007 
Palestinos atravessam a fronteira da Faixa de Gaza com o Egito para comprar produtos

Relatos iniciais sugerem que militantes do Hamas usaram explosivos para abrir um buraco na cerca de aço em Rafah. O ponto de travessia para o Egito estava fechado desde que o Hamas assumiu o controle sobre a Faixa de Gaza durante uma curta guerra com o Fatah no verão passado.

Testemunhas disseram ter ouvido explosões no início da manhã de quarta-feira, e afirmaram que a seguir o Hamas enviou tratores para derrubar a barreira. Segundo alguns relatos os militantes do Hamas abriram cerca de 15 buracos na cerca. Mais tarde, imagens de televisão mostraram que a cerca foi derrubada em diversas partes.

Segundo Fatan Hessin, 45, que viu o que ocorreu, as pessoas começaram a passar pela cerca antes do amanhecer. Ela também entrou no Egito a fim de se encontrar com uma amiga de infância. "Não sou a favor do Hamas nem do Fatah, mas agradeço ao Hamas por isso", disse Hessin.

Arye Mekel, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, disse: "Acho que o Hamas vinha planejando isso durante muito tempo. Talvez eles tenham achado que este era o momento oportuno". Mekel referia-se às crescentes preocupações internacionais devido ao bloqueio imposto por Israel.

Os simpatizantes do Hamas fizeram uma manifestação de protesto em Rafah na terça-feira, quando dezenas de manifestantes, muitos deles mulheres, tentaram por duas vezes entrar à força no Egito, tendo sido forçados a recuar pelos policiais e soldados egípcios, que chegaram a usar canhões de água e a disparar tiros para o alto.

ATRAVESSANDO A FRONTEIRA
Hatem Moussa/AP
Milhares de palestinos chegam ao Egito para comprar alimentos
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PATIFARIA E COMÉRCIO
Na quarta-feira, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, disse ter ordenado às suas tropas que permitissem que os palestinos finalmente cruzassem a fronteira, porque estavam passando fome, segundo anunciou a agência de notícias Associated Press.

"Mas na verdade um grande número deles retornou, já que os palestinos na Faixa de Gaza estão passando fome devido ao sítio israelense", disse Mubarak, de acordo com a Associated Press.

A população da Faixa de Gaza de 1,5 milhão de habitantes depende da importação dos produtos de consumo mais básicos. Depois que a cerca na fronteira caiu, comerciantes egípcios levaram produtos até o lado egípcio de Rafah para vender, e alguns palestinos voltaram para casa trazendo televisores e computadores.

Há uma demanda especial por sacos de cimento, já que há meses existe uma escassez de materiais de construção devido às restrições impostas por Israel depois que o Hamas assumiu o controle sobre a Faixa de Gaza. Israel suspeita que o Hamas use cimento para a construção de túneis.

Muhammed Mowab, 22, estudante e barbeiro, diz ter trazido 25 sacos de cimento para construir uma casa, para que possa se casar. Ele disse que há um ano está adiando o casamento. Mowab afirma ter pago o equivalente a US$ 5 por saco, comparado aos US$ 75 por saco cobrados na Faixa de Gaza.

Segundo a BBC, os postos de gasolina do lado egípcio da fronteira ficaram repletos de palestinos.

Dificilmente se via policiais orientando a multidão, e os guardas egípcios de fronteira abriram caminho para que os palestinos passassem. A tropa de choque da polícia aguardava algumas ruas adiante.

O ponto de travessia em Rafah tem sido um motivo de controvérsia entre Egito e Israel. O Hamas e o Egito abriram a passagem brevemente em algumas ocasiões. A mais recente dessas aberturas se deu para permitir que 2.000 palestinos fizessem a peregrinação muçulmana anual a Meca, na Arábia Saudita.

Mas as autoridades israelenses alegam que o Hamas aproveita essas ocasiões para trazer armas e dinheiro do Egito para a Faixa de Gaza.

Mekel, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, disse a respeito deste último episódio: "O perigo é que o Hamas e outras organizações terroristas tirem vantagem da situação para contrabandear armas e homens, e façam com que a situação na Faixa de Gaza, que já é ruim, piore".

Funcionários de organizações de auxílio humanitário alertaram no início desta semana que a Faixa de Gaza, afetada por racionamentos de combustível e energia elétrica, entraria em crise, por falta de assistência média e alimentos, dentro de três ou quatro dias.

A Agência das Nações Unidas de Auxílio e Trabalhos para os Refugiados Palestinos no Oriente Próximo (UNRWA, na sigla em inglês), que presta assistência aos refugiados palestinos e aos seus descendentes, anunciou na segunda-feira que teria que suspender a remessa de alimentos para 860 mil moradores da Faixa de Gaza na quarta ou na quinta-feira, caso os pontos de passagem entre Israel e o território palestino não fossem reabertos, já que o estoque de sacolas de nylon usadas pelo grupo para medir e distribuir alimentos, como farinha de trigo, estava acabando.

Hessin, que usou a brecha na fronteira para reencontrar-se com a amiga de infância, Inshira Hanbal, no lado egípcio, disse: "Estamos extremamente cansados desta vida. O bloqueio, o desemprego, a pobreza. Na minha casa todos estão sem trabalho".

Na terça-feira, Israel bombeou 750 mil litros de óleo diesel industrial para a Faixa de Gaza, parte dos 2,2 milhões de litros que os israelenses disseram que forneceriam durante apenas uma semana à principal usina de geração de energia da Faixa de Gaza, que encerrou as suas operações depois que o combustível acabou.

Na tarde da terça-feira, a usina acionou uma das suas três turbinas, gerando energia elétrica para partes da Cidade de Gaza que estavam na escuridão ou que vinham obtendo eletricidade por meio de geradores.

* Isabel Kershner, em Jerusalém, contribui para esta matéria. UOL

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