UOL Notícias Internacional
 

25/01/2008

Governo da Itália desmorona e abre brecha para a volta de Berlusconi

The New York Times
Ian Fisher e Elisabetta Povoledo
Em Roma
O governo da Itália finalmente caiu na quinta-feira (24/1), depois que o primeiro-ministro Romano Prodi perdeu o voto de confiança. O desdobramento deixou claro que os líderes da Itália sabem que enfrentam uma profunda crise política e econômica, mas estão terrivelmente divididos sobre como resolvê-la.

Em um símbolo dessas divisões, um senador enfurecido correu durante o debate até a mesa de um colega, Stefano Cusumano, insultou-o e aparentemente tentou atacá-lo. Cusumano, 60, teria gritado e depois caído.

"Se tivesse tido a chance, teria cuspido na cara dele", disse o agressor, senador Tommaso Barbato, que teve que ser contido pelos colegas. Sua atitude ocorreu depois de Cusumano mudar seu voto para apoiar Prodi.

Ettoe Ferrari/EFE - 24.jan.2008 
Senadores tentam conter Tommaso Barbato (centro), irritado com declaração de colega

Depois da votação, que Prodi perdeu por 161 votos contra 156, o primeiro-ministro submeteu sua renúncia, terminando seus 20 meses turbulentos no cargo e o 61º governo desde a Segunda Guerra.

Se houve um vencedor nessa batalha ferozmente combatida, pareceu ser o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, o homem mais rico da Itália -e o mais contencioso, dizem alguns. Berlusconi, que trabalhou incansavelmente para voltar desde que perdeu as eleições para Prodi, em 2006, instou o presidente Giorgio Napolitano a convocar eleições imediatas, as quais provavelmente venceria, segundo as pesquisas.

"Agora temos que ir ao voto", disse Berlusconi após a ação no Senado, referindo-se a uma eleição. "Eu quero uma grande maioria na Câmara e no Senado, que seja capaz de aprovar duras medidas."

Nada, entretanto, parecia garantido, nem mesmo eleições imediatas, em um país em que muitos eleitores indecisos estão cada vez mais desconfiados e com raiva dos políticos.

Napolitano pode convocar as eleições, apesar de Prodi dizer no início do dia que o presidente se opunha a isso até que a lei eleitoral fosse mudada. O presidente também pode pedir a Prodi ou ao outro membro da centro-esquerda para tentar formar uma nova maioria. Ou pode nomear um governo interino de tecnocratas, que teria como tarefa, entre outras coisas, reformar a lei eleitoral, que cria maiorias estreitas e instáveis, segundo a maior parte dos especialistas.

Muitos analistas, entretanto, duvidam que um novo governo possa ser reunido sem eleições, dada a oposição de Berlusconi, entre outros. Napolitano deve começar a consultar os congressistas na sexta-feira.

Com a volta de Berlusconi sendo uma das poucas possibilidades concretas, muitos italianos expressaram frustração com um sistema político que parece incapaz de produzir líderes novos e dinâmicos, enquanto as pessoas já estão preocupadas com o baixo crescimento econômico e baixos salários e se a política italiana será capaz de se transformar.

"Tentamos a direita, depois uma falsa esquerda", disse Beppe Grillo, humorista político e blogueiro. "Onde está a diferença entre a direita e a esquerda? Não há nenhuma. Se formos às eleições com a mesma lei antiga, as pessoas enfrentarão uma situação sem esperança."

De muitas formas, o governo de Prodi parecia malfadado desde o início, um reflexo das dificuldades para reunir uma coalizão estável em uma nação com inúmeros pequenos partidos, cada um com um sentido forte de auto-preservação.

Sua coalizão era composta de nove partidos, desde cristãos democratas conservadores até comunistas. Eles concordavam em pouca coisa, e algumas vezes os ministros manifestavam-se contra seu próprio governo.

Depois de o governo balançar em fevereiro de 2007, desmoronou fatalmente na segunda-feira, após Clemente Mastella, ex-ministro da justiça de Prodi, retirar os três votos que controlava no Senado. Isso deixou Prodi sem a maioria.

Em vez de renunciar imediatamente, Prodi, 68, ex-professor de economia e presidente da Comissão Européia, exigiu votos de confiança nas duas casas do Parlamento, apesar de parecer improvável desde o início que venceria.

Então os votos de confiança viraram uma vigília de dois dias, com Prodi -cuja postura sóbria e elevada é freqüentemente comparada a de um padre de paróquia- presidindo o funeral de seu próprio governo.

Na quinta-feira, ele disse aos senadores que não havia sido por "teimosia" que pedira os votos de confiança, mas um desejo de ressaltar publicamente a responsabilidade de cada congressista de fazer as reformas "urgentemente necessárias."

Ele defendeu fortemente as realizações de seu governo, inclusive um aumento modesto no crescimento econômico -a começar de zero- e disse que a Itália precisava de "continuidade" para fazer uma verdadeira mudança.

"Não podemos nos permitir um vácuo de poder", disse ele. "Ninguém pode evitar a obrigação de indicar qual outro programa de governo seria introduzido no lugar daquele que é a legítima escolha dos eleitores."

No debate do Senado, entretanto, a oposição martelou Prodi, acusando seu governo de inação em um momento particularmente negativo.

Depois de usarem palavras como "crise" ou "emergência", os senadores reclamaram dos problemas com o lixo em Nápoles e uma briga nacional que levou o papa Bento 16 a cancelar um discurso neste mês na Universidade La Sapienza, depois de um protesto de professores e estudantes.

O governo "atingiu o fim da linha", disse Renato Schifano, do partido de Berlusconi, Forza Italia, antes da votação. "É isso que os italianos sentem agora, e eles estão prontos, mal podem esperar para respirar com alívio." Deborah Weinberg

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