UOL Notícias Internacional
 

25/01/2008

O consumidor americano como combustível que move a economia global

The New York Times
Peter S. Goodman
Há não muito tempo, muitos especialistas estavam convencidos de que uma economia mundial vibrante impediria uma recessão americana. Mesmo se o consumidor americano em dificuldades repentinamente fechasse o bolso, eles raciocinavam, o consumo saudável em outros lugares supostamente sustentaria a expansão.

Mas agora, com a turbulência nos mercados financeiros repercutindo ao redor do mundo, estes mesmos especialistas vêem sinais de que o crescimento econômico no exterior provavelmente não é forte o bastante para impedir que os Estados Unidos entrem em recessão.

De fato, a própria interligação global que muitos imaginavam que pouparia os Estados Unidos agora parece estar funcionando ao contrário: os consumidores americanos suspenderão seus gastos exuberantes, esfriando a demanda por bens de todo o mundo, arrastando para baixo a economia global. Isto por sua vez reduziria a demanda por bens americanos no exterior.

"As exportações eram vistas como um setor forte da economia americana", disse Alan Ruskin, estrategista chefe internacional da RBS Greenwich Capital. "Agora há uma sensação de que o contágio americano está se espalhando para o exterior."

Apesar de toda atividade econômica furiosa na China e na Índia, a recente turbulência é um lembrete de que o consumidor americano continua sendo o motor central da economia global, o principal apetite por bens e serviços que mantém as fábricas funcionando, as minas em produção total e os depósitos de carga cheios de produtos.

Mas nas últimas semanas, vários sinais surgiram sugerindo uma desaceleração por toda a economia global. O preço do petróleo, após atingir US$ 100 o barril, recuou, refletindo uma queda esperada na demanda por energia.

O preço de importantes commodities como carvão, minério de ferro e cereais caiu acentuadamente nas últimas três semanas, apesar de ainda permanecerem muito altos segundo as medidas tradicionais, como indica o Baltic Exchange Dry Index, um índice de preços muito acompanhado que é considerado um indicador da demanda global. E na Ásia, de empresas de vestuário chinesas a fabricantes de equipamentos japoneses, os exportadores estão informando uma menor demanda dos Estados Unidos.

Tudo isso sugere que ainda não há substituto para o consumidor americano. Sim, a China e a Índia estão se desenvolvendo rapidamente, adicionando milhões de novas pessoas de classe média ávidas por bens como fronhas de travesseiro e computadores laptop. A América Latina e a Austrália estão prosperando com a oferta de matérias-primas para as fábricas da Ásia e do Leste Europeu. A Rússia e o Oriente Médio estão vendendo energia a preços recordes, gastando os lucros em mercadorias mundiais.

As empresas americanas poderiam certamente explorar este crescimento, em teoria. Mesmo se os consumidores em casa entrassem em hibernação, graças ao aumento do desemprego e a desvalorização dos imóveis, as empresas ainda poderiam contar com fortes vendas ao exterior.

Grande parte desta narrativa ainda poderá se mostrar verdadeira, mas com a queda das bolsas em Xangai, Londres e Nova York em uma onda de pânico de venda nesta semana, ela repentinamente parecia uma solução inadequada para o que aflige a economia.

Os gastos do consumidor representam cerca de 70% da economia americana de US$ 14 trilhões. Este fluxo de dinheiro comprou nos últimos anos uma parcela cada vez maior de produtos importados -eletrônicos e têxteis da Ásia; carros e bens de luxo da Europa; energia de qualquer lugar onde pudesse ser encontrada.

Empresas americanas astutas exploraram esta realidade. Enquanto empresas coreanas montavam os celulares para as prateleiras americanas, elas usavam chips projetados e fabricados nos Estados Unidos. A Caterpillar, a empresa de equipamento de construção com sede em Peoria, Illinois, vende escavadeiras usadas para extrair minério de ferro do oeste da Austrália, que é enviado para as siderúrgicas da China. As empresas americanas vendem equipamento de prospecção de petróleo que é usado em lugares como Arábia Saudita e Indonésia.

Toda esta atividade se apoiava de forma considerável na disposição dos americanos de comprar. Repetidas vezes, tal força provou ser espetacularmente resistente. Mesmo quando as empresas pontocom se desintegraram e a economia mergulhou em recessão há sete anos, os consumidores americanos continuaram comprando. Mesmo enquanto os preços dos imóveis residenciais caiam e o endividamento aumentava, os americano continuavam indo aos shopping centers.

Mas os mais recentes indicadores apontam um desaquecimento do consumo. Isto, dizem os economistas, é o principal motivo para o recuo dos mercados ao redor do mundo.

Várias artérias de riqueza que davam aos consumidores a disposição de gastar estão rapidamente secando. Durante os anos do boom imobiliário, os americanos extraíam mais de US$ 800 bilhões por ano de seus lares por meio do refinanciamento de hipotecas, venda de casas e linhas de crédito de home equity. A desvalorização dos imóveis residenciais encolheu drasticamente tal fonte de lucro. A desaceleração do mercado de trabalho privou os consumidores de meios para comprar.

Agora, novos dados mostram que os americanos estão usando agressivamente seus cartões de crédito, ao mesmo tempo em que estão aumentando os atrasos de pagamento.

"À medida que aumentam o uso de seu crédito disponível, eles não têm outra fonte de gasto", disse Ellen Zentner, uma macroeconomista americana do Bank of Tokyo-Mitsubishi em Nova York. "Os cartões de crédito são seu último recurso de financiamento."

Do final de 2005 até o terceiro trimestre de 2007, o percentual de inadimplência de dívida de cartão de crédito aumentou de cerca de 3,5% para 4,3%, segundo dados do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. Do início de 2006 ao final do ano passado, o aumento do uso de cartões de crédito pelos consumidores passou de 2,6% para 7,4% em termos anuais.

Outras formas de crédito ao consumidor têm encolhido drasticamente, segundo uma análise de Zentner. O "pool" de crédito inutilizado -predominantemente linhas de empréstimo de home equity, empréstimos bancários e cartões de crédito- ainda estava crescendo em quase 15% ao ano até o final de 2006. Agora, com o aumento do endividamento, a desvalorização dos imóveis e a desaceleração do crescimento da oferta de emprego, tal "pool" está diminuindo em uma taxa de 8% ao ano.

"Para o consumidor, esta é uma situação realmente insustentável", disse Robert J. Barbera, economista chefe da firma de pesquisa ITG. "Nós passamos de dinheiro de refinanciamento de imóvel para cartões de crédito para o ponto atual, em que os consumidores terão que mudar sua trajetória de gastos."

Se a idéia de uma nova frugalidade americana ajudou a assustar os mercados mundiais nesta semana, também contribuíram as preocupações com a extensão das perdas dos bancos com a crise hipotecária. Aqui, também, o que antes era visto como uma força moderadora de interligação global agora se tornou maligna.

Quando os preços dos imóveis residenciais estava em alta e os bancos estavam concedendo hipotecas agressivamente, eles espalharam seus riscos ao venderem seus empréstimos para investidores de todo o mundo. Isto antes era uma fonte de conforto; agora, isto significa que os prejuízos podem estar escondidos em qualquer parte. Bilhões de dólares que ainda podem ser riscados dos balancetes antes do final de um ajuste provavelmente aparecerão em múltiplos continentes.

"Há muita incerteza sobre onde se encontram os riscos", disse Zentner. "Lembra muito a crise financeira asiática, quando havia rumores de uma grande redução do valor contábil dos ativos de um banco chinês."

A história alimentou temores maiores de que bancos em todo mundo relutariam em emprestar, sufocando o crescimento econômico, mesmo com as taxas de juros extremamente baixas do Fed. Se ninguém consegue calcular com confiança quão grande serão as perdas com hipotecas, então ninguém realmente sabe quanto dinheiro deve ser reservado para cobrir empréstimos ruins. Ninguém sabe dizer se as perspectivas de negócios continuarão azedando, o que torna os bancos conservadores com seus fundos.

"O verdadeiro temor é de que haja algum colapso total do sistema", disse Michael Darda, economista chefe da MKM Partners. "Há uma verdadeira sensação de que a situação apenas se deteriorará daqui em diante e mergulhará cada vez mais no abismo."

Segundo o ponto de vista de Darda, o temor se tornou o próprio veneno: ele acha que os mercados mundiais reagiram de forma exagerada à desaceleração nos Estados Unidos, apontando para as recentes quedas em pedidos de seguro desemprego para argumentar que o mercado de trabalho está na verdade muito mais saudável do que muitos acreditam.

Novos empregos, ele disse, serão mais importantes do que os cartões de crédito ou empréstimos imobiliários. Se isto estiver correto, poderá ser confortador. Mas significará que a economia global ainda está apoiada nas costas do consumidor americano. George El Khouri Andolfato

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