UOL Notícias Internacional
 

26/01/2008

Egípcios não conseguem fechar fronteira com a Faixa de Gaza

The New York Times
Steven Erlanger*
Na Cidade de Gaza, Faixa de Gaza
O Egito se mobilizou para restaurar a sua fronteira com a Faixa de Gaza na sexta-feira (25/01), deslocando guardas de fronteira e tropas policiais de choque para impedir a entrada dos palestinos. Mas os palestinos usaram tratores para derrubar uma outra parte do muro - que foi construído por Israel dentro da Faixa de Gaza - a fim de continuar comprando os produtos dos quais carecem.

Os egípcios anunciaram através de megafones que a fronteira estaria fechada durante vários períodos na sexta-feira, mas permitiram que os palestinos que estavam no Egito retornassem à Faixa de Gaza repletos de mercadorias, enquanto guindastes movimentavam pallets de produtos sobre uma parte da fronteira selada. A parte egípcia da fronteira consiste de um muro baixo de concreto com arame farpado no topo.

Durante o dia houve pequenos enfrentamentos, com episódios curtos de apedrejamento. Os egípcios dispararam armas para cima e apontaram os seus canhões de água sobre as cabeças dos palestinos, a fim de manter a multidão à distância. As novas brechas no muro eram suficientemente largas para permitir a passagem de carros e caminhões, e alguns guardas egípcios recuaram.

Khaled El Fiqi/efeP - 25.jan.2008 
Policiais egipcios tentam conter a passagem de palestinos para o Egito

O Egito está sofrendo pressões de Israel e dos Estados Unidos para restaurar a fronteira internacional e controlá-la, mas não quer usar força excessiva contra os moradores da Faixa de Gaza. O presidente egípcio Hosni Mubarak insiste em dizer que os palestinos estão passando fome devido à pressão causada pelas restrições à importação de produtos e ao deslocamento de indivíduos, impostas por Israel.

Mas durante diversas ocasiões anteriores o Egito usou a força - desde canhões de água até tiros com fuzis automáticos - contra os palestinos que atravessaram a fronteira, e o governo avaliará quando as suas tentativas de responder generosamente a uma crise chocarem-se com uma realidade de instabilidade e caos. O Egito tampouco deseja arcar com a responsabilidade de prover a população da Faixa de Gaza, retirando o fardo dos ombros de Israel.

Por outro lado, o Hamas está tentado pressionar o Egito para firmar um acordo de regulamentação da fronteira, que não implique no seu fechamento completo, conforme ocorria antes de o Hamas ter expelido o Fatah e assumido o controle sobre a Faixa de Gaza no início de junho do ano passado. Sami Abu Zuhri, um porta-voz do Hamas, afirmou: "As aberturas no muro não devem ser fechadas porque elas proporcionam uma assistência urgente aos palestinos".

As autoridades israelenses têm manifestado preocupação crescente junto aos governos do Egito e dos Estados Unidos, pois temem que o Hamas e outros grupos militantes palestinos estejam utilizando a abertura na fronteira para importar material militar e enviar combatentes para fora do território a fim de que estes recebam treinamento terrorista. Israel aumentou o nível de alerta de segurança no Sinai e advertiu os seus cidadãos para que não viagem para as praias populares da área, afirmando que existem relatos críveis sobre novas tentativas de infiltração de atiradores e homens-bomba através do Sinai para Israel. O último ataque suicida a bomba em Israel, no balneário de Eilat, no sul do país, ocorrido há um ano, foi desfechado por um militante que chegou até lá passando pelo Sinai.

O Hamas rompeu a barreira de fronteira em quase 20 locais na manhã da última quarta-feira, e o Egito, sem nenhuma alternativa real, permitiu que cerca de 200 mil palestinos entrassem no país para comprar comida, remédios, cigarros e outros bens de consumo. Desde então essa movimentação foi adquirindo um caráter cada vez mais comercial.

Os moradores da Faixa de Gaza em El Arish, a maior cidade perto da fronteira, disseram que receberam ordens para partir até às 19h. El Arish, capital de província, possui um aeroporto e é conhecida pelas suas praias e pelos restaurantes especializados em peixe. Milhares de palestinos ainda estavam lá na tarde de sexta-feira, reclamando porque os preços quase dobraram, mas felizes por terem uma oportunidade de sair da Faixa de Gaza, e demonstrando até melancolia pelo fato de terem que retornar, como se estivessem desfrutando do último dia de férias.

Muhammad al-Hirakly, 22, disse que ele e os seus amigos estão em El Arish há cerca de dois dias, mas contou que não conseguiram passar pela polícia para chegar ao Cairo. "Tentamos ir até lá, para ver a grande cidade e os nossos familiares, e também as garotas", disse ele.

A política ordenou aos hotéis locais que não hospedem palestinos, mas os moradores e as mesquitas forneceram camas aos refugiados. "Temos dormido na mesquita Rifai. O fato de eles terem permitido que entrássemos lá foi muito bom", disse Hirakly. Ele foi entrevistado em uma fila para dirigir carrinhos de batida em um pequeno parque de diversões. "Estamos bravos com os egípcios, que tentam nos roubar vendendo mercadorias a preços muito maiores que o normal", disse ele. "Mas esta é a ocasião em que mais nos divertimos em vários anos".

Muhammad Abu Samra, 18, veio para comprar cigarros a fim de revendê-los e encontrou vários amigos da Faixa de Gaza. "Estar aqui me faz sentir vontade de ver o mundo, respirar ar fresco", diz ele. "Gostaria que eles mantivessem a fronteira aberta - talvez um dia eles até permitam que visitemos o Cairo".

Adel al-Mighraky, 54, estava retornando a Rafah com o neto, e agradeceu a Mubarak por permitir a entrada dos moradores da Faixa de Gaza. "Estávamos como passarinhos em uma gaiola", afirma al-Mighraky. "Assim que a porta da gaiola é aberta, os pássaros voam o mais rapidamente possível - foi isso que fizemos. Mas que tipo de pássaro tem que voltar à gaiola após ter sido libertado?".

Mighraky acrescenta que esta foi a primeira vez em que o seu neto saiu da Faixa de Gaza. "Hoje nós nos sentimos livres".

O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, discutirá a crise da Faixa de Gaza juntamente com as conversações de paz no domingo em uma reunião com o presidente palestino, Mahmoud Abbas. Israel está cogitando a possibilidade de ceder ao pedido de Abbas e do primeiro-ministro que mora em Ramallah, Salam Fayyad, no sentido de deixar a Autoridade Palestina assumir o controle sobre as travessias de fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza, possibilitando que esta seja reaberta.

Anteriormente Israel rejeitou a idéia, porque isso reduziria a pressão econômica sobre o Hamas, que foi intensificada na semana passada, quando Israel decidiu cortar as remessas de produtos para a Faixa de Gaza, incluindo combustível para a usina de eletricidade local. Isso gerou protestos internacionais e a decisão do Hamas de romper a fronteira com o Egito. O sucesso do grupo conferiu mais credibilidade ao Hamas na Faixa de Gaza.

No início da sexta-feira, Israel matou o comandante militar do Hamas em Rafah, Muhammad Harb, e um auxiliar dele, quando aviões israelenses atacaram o seu carro com foguetes perto da fronteira. Segundo Israel, Harb teria ordenado aos seus homens que explodissem o muro na fronteira e, ainda de acordo com a versão israelense, estaria envolvido com uma incursão em Israel em 2006, quando o soldado Gilad Shalit foi capturado. Na noite da última quinta-feira, foguetes israelenses atingiram o jipe de dois supostos combatentes do Hamas em Rafah, matando ambos.

Também na noite de quinta-feira, em uma barreira em Jerusalém Oriental, um policial foi morto e um outro foi ferido por suspeitos de serem militantes palestinos, que escaparam. E na sexta-feira, tropas israelenses mataram um palestino na vila de Beit Omar, quando faziam buscas nas casas de dois militantes mortos na quinta-feira quando atacavam um assentamento judeu ao sul de Jerusalém.

*Taghreed El-Khodary, em Rafah, na Faixa de Gaza, e Nadim Audi, em El Arish, no Egito, contribuíram para esta matéria. UOL

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