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27/01/2008

Amor Moderno: a noite de encerramento do meu pequeno papel

The New York Times
Melora Wolff
Nas noites de sexta-feira, eu deixo de lado meus livros e trabalhos de alunos e em vez de trabalhar, trabalhar, trabalhar, eu ligo minha TV, coloco um DVD, e lá está ele: um garoto que acreditava que amava há 20 anos e com o qual nunca mais falei, agora estrelando uma série popular de televisão.

Eu estou alugando este homem -quero dizer, esta série de TV- em DVD há semanas, acompanhando de forma viciada com um prato de lasanha equilibrado no colo, apertando a opção "Exibir Todos os Episódios" de forma compulsiva. Eu mantenho uma garrafa de vinho e meus dois gatos perto de mim enquanto estudo este ator, do qual me lembro tão claramente quanto do vestido verde que vesti para ele, da margarita que ele me ofereceu do outro lado de uma mesa à luz de velas, ou do cheiro das gardênias do jardim dele.

Ele era bonito naquela época e tinha consciência de sua beleza, e vejo neste DVD que ele está mais bonito agora e sedutoramente menos consciente. Ele é um homem de meia-idade sólido, que move seu corpo sem embaraço ou orgulho, à vontade em sua pele perfeita. Ele diz suas falas sem afetação. Ele é pragmático, encantador, flertador. Ele bebe de forma discreta. Ocasionalmente, ele mente. E ele parece saber que estou sentada sozinha em uma casa escura, desmobiliada, incapaz de desviar meus olhos enquanto o drama se desenrola.

O Guia de TV que comprei juntamente com minha lasanha congelada informa que ele é um pai coruja, um homem de família discreto que é tímido, especialmente em relação a beijos. Eu viro as páginas, tomo mais vinho.

No último episódio, que já assisti várias vezes, ele corre na minha direção e, por um instante, ele se tornou o jovem do qual me lembro, firme, bronzeado e um pouco fogoso sob minhas mãos. E também vejo uma garota familiar, uma versão minha de 24 anos usando salto alto, vestido verde, batom rosa e uma margarida atrás da orelha. Eu achava que aquela garota não existia mais, mas ela passa esvoaçante por mim usando máscara e roupa de cetim, e sei que reinterpretarei ela a noite toda, ao lado dela.

Memórias
Naquele verão, o drama não estava na TV, mas no palco: "As Três Irmãs" de Chekhov, encenada por uma trupe teatral de verão composta de veteranos, novatos e astros do cinema como meu jovem ator, que já contava com créditos no cinema, seu próprio fã clube e o sorriso contagiante do sucesso precoce.

Quando me lembro daquela época, eu vejo a garota delgada que eu era-"uma assistente de direção" sem direção contratada para o verão- caminhando sozinha no estacionamento atrás do teatro no qual meu ator atuava toda noite usando um monóculo e barba postiça.

A memória se desenrola: eu puxo uma lata de lixo sob a janela de seu camarim e espero. Sentada lá, posso imaginá-lo no palco com Irina, a irmã mais nova, caminhando entre árvores de papel machê. "Não faz sentido", eu sei que ele está dizendo com tristeza para ela, "quando pequenas ninharias estúpidas às vezes se tornam importantes na vida, de repente muito importantes, sem nenhum motivo, sem nenhum motivo".

Eu olho o relógio. Logo, Masha, a irmã do meio, abraça seu amor no portão e ele parte para sempre; meu ator é morto com um tiro por um rival em um duelo; as três irmãs sem amor choram, privadas de romance e de Moscou; as cortinas descem; a platéia permanece silenciosa e finalmente, ele sai pela janela do camarim, pula e me envolve em seus braços. Eu ainda posso ouvir a explosão dos aplausos.

Eu tiro sua barba postiça, retiro o grisalho de seu cabelo e roubo seu monóculo.

"Vamos sair rápido daqui, meu amor", ele diz. Ele não é mais um russo morto, mas um garoto vibrante, e partimos rindo no meu carro enferrujado, meu ator e eu, passando com as janelas abertas diante das colunas iluminadas do teatro, bebendo champanhe na garrafa, nos beijando loucamente e dizendo adeus para as adolescentes que aguardavam na saída do palco por seu autógrafo ou algo mais.

Esta é uma cidade pequena, com muitas garotas comuns como eu à procura de drama e romance, na esperança de que algo especial aconteça. Ele é especial, eu penso, enquanto uma menina loira avista meu carro e chora, "Ai, meu Deus! Ele está indo embora! Impeçam!" Ela corre descalça atrás do meu ator, acenando os braços e chorando, realmente chorando, e ele sai para fora da janela, pingando champanhe.

"Ela é adorável", ele diz. "Vou procurar por ela amanhã!"

Eu dou risada como se não me importasse.

"Ok", eu digo, "eu vou conseguir o nome dela para você!"

Eu posso ser apenas uma contínua de teatro, uma garota invisível, mas posso ver no rosto dele que minha atuação é tão boa que deveria estar interpretando uma das três irmãs de Chekhov, talvez Irina, aquela que ele adora até ser morto.

A estrada nos leva até uma neblina densa entre as árvores. Nós chegamos até seu chalé alugado e ele me carrega até um quarto no sótão, com janelas com vitrais que transformam o clima em algo estranhamente religioso, apesar de nossas gargalhadas incontroláveis, de seu tropeçar desajeitado nos degraus, de meu vestido verde e sapatos jogados, da roupa de cama de seda e dos travesseiros de penas. Eu nunca mais dormirei de novo, eu penso, olhando para o teto. Como posso dormir e sonhar com algo melhor do que alguém tão perfeito?

Enquanto escuto sua respiração, me sinto como se estivesse em uma peça e minha mente vagueia até Moscou no inverno, ou até a garota loira -apenas um pequeno papel, uma ninguém, eu acho- chorando e acenando com seus braços como todas as garotas-ninguém do mundo chorando e acenando seus braços em busca da atenção de alguém.

Dezenas de garotas ocupam os degraus do teatro durante o dia como musas feridas. Elas me passam cartas de amor na esperança de que eu as entregue ao meu ator. Eu também anoto seus telefones para ele. Posteriormente, eu lhe dou todas as cartas, mesmo aquelas escritas de forma errada. Eu sou sua leal mensageira do amor.

Em muitas noites, após a cortina descer, ele me abraça e me diz que me verá depois, talvez amanhã, porque há uma garota adorável acenando para ele com os zíperes abaixados.

"Ok", eu digo. "Divirta-se!"

"Você é pior do que eu", ele sussurra em meu ouvido. "Você não se importa com nada."

Após partir com sua musa, eu permaneço no teatro. Eu caminho pelos bastidores, toco o piano que ele finge tocar no segundo ato, caminho com cuidado pelo palco arrumado para me posicionar como Irina entre as árvores.

As árvores são montadas com cola e tachinhas, mas isto as torna ainda mais bonitas para mim, e percebo que é onde quero permanecer: não no palco, mas vivendo de fato no jardim de Checkhov, sob um céu cinzento, com equipamento pairando no alto.

A temporada da peça chegou ao fim juntamente com o término da estação. O cenário foi desmontado, as árvores cortadas em pedaços, a companhia dispensada e meu ator me pediu para levá-lo ao aeroporto. Eu não tinha idéia do motivo para estar repentinamente tão aborrecida, já que estive no controle durante toda a temporada, ou por que, no portão de embarque, eu esqueci as falas que tinha ensaiado. Eu desejei que estivéssemos nos despedindo em uma estação de trem. Eu mal pude ouvir quando ele disse: "Eu sei que nos veremos de novo!"

"Não, não vamos."

"Nós vamos! Eu vejo você na cidade!"

"Moscou?" eu brinquei.

"Em Los Angeles", ele disse rindo. "Ou em Nova York. Nós nos divertiremos. Vamos cantar karaokê juntos." Ele piscou. "Que tal?"

Eu olhei para ele. Em que peça ele estava?

Ele me abraçou. "Você é a melhor", ele disse calorosamente. E partiu.

Com a chave dele na mão, eu voltei ao chalé para ver o vazio que ele deixou para trás. Mas os cômodos não estavam vazios. Estavam repletos de pertences abandonados: calças, camisas, troco, roupa suja, cartas, cigarros, roteiros, óculos e flores murchas. Ele não queria nada. Aquelas coisas eram apenas adereços e elementos de cena. Refugo.

Soluçando, eu culpei Chekhov -pela minha estação de decepção, por fazer pessoas comuns parecerem importantes e qualquer coisa importante parecer comum, pelo meu caso sem valor.

Volta ao passado
Os créditos começaram a subir no último episódio da série popular de TV e estou um pouco chorosa. Na minha juventude, eu solucei. Agora, eu choro e culpo o final óbvio de uma temporada que amei. Mas continuo otimista. Eu imagino meu ator falando diretamente comigo da tela: Você vê como é a vida, meu amor? Não é divertida? Nada realmente acaba. Eu ainda estou aqui. Você pode praticamente me tocar!

Eu desligo a televisão, vou dormir e sonho com amores que não vejo há anos e -em palavras que gostaria de ter escrito- lhes digo quanto sinto falta deles.

Pela manhã, duas garças azuis passam pela minha janela e me lembro da noite de encerramento da peça, após alguns poucos discursos chatos e uma festa regada a champanhe, meu belo ator correu para o gramado, com garrafa em uma mão. Ele me puxou para a grama, atirou a garrafa longe e abriu seus braços para o céu. Ele disse que não conseguia mais se levantar e que nunca mais se moveria de novo, nunca mais!

Eu me perguntei, o que aconteceria com ele? Ajudantes de palco levariam seu corpo?

"Eu não sou apenas um rosto bonito, sabe", ele disse. "Eu sou bem inteligente. Tudo vai dar certo para mim. Você vai ver."

Mas não assisti nem seus filmes e nem suas séries por duas décadas. "Quem se importa?" eu pensei, seriamente. O calor daquele verão se dissipou completamente e há muito parecia parte da vida de outra pessoa.

Mas ultimamente, à medida que a meia-idade invade o rosto familiar no meu espelho, eu me sinto atraída por aquele outro rosto familiar, na minha televisão, que me leva de volta à garota que já fui, seu corpo deitado na grama, seu cabelo emaranhado, seu vestido escorregando de seus ombros enquanto ria de bobagens com uma euforia que não experimento em eras. Eu quero reviver aquilo, todo aquele festival de verão. Eu quero dizer: isto importa. Eu me importo.

E meu corpo dói quando me lembro de como me desvencilhei dele certa noite, desci suas escadas na ponta dos pés até o ar úmido e abandonei seu corpo estirado em lençóis de sede, o zumbido do ventilador de teto, enquanto me perdia na neblina, dirigindo em círculos. Finalmente eu encontrei o caminho de volta até o quintal dele. Eu desci do carro e fiquei lá parada, com frio, do lado de fora do chalé pensando: Será que devo me despedir apropriadamente? Recomeçar? Será que posso fazer de forma diferente e escrever para ele uma carta de amor? Ou será que devo esconder minha afeição insignificante?

Havia uma chuva leve, as folhas sacudiam no alto e as primeiras luzes do dia começavam a raiar.

"É você meu amor?" Eu ouvi a voz sonolenta do meu ator chamar e me perguntei em quem ele estava pensando. Às vezes, eu ainda me pergunto. George El Khouri Andolfato

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