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27/01/2008

Iniciativa de trabalho voluntário de Bush em 2002 perde força

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg

Em Washington
Nos anais dos discursos do Estado da União, 2002 será lembrado como o ano em que o presidente Bush alertou sobre um "eixo do mal, se armando para ameaçar a paz do mundo". Mas 2002 também foi o ano em que Bush apresentou uma grande visão doméstica: a criação de uma "nova cultura de responsabilidade" nos Estados Unidos.

Bush pediu aos americanos que dedicassem pelo menos dois anos -4 mil horas- de suas vidas ao serviço voluntário. Ele prometeu expandir o AmeriCorps, o Peace Corps doméstico, e dobrar o tamanho do próprio Peace Corps (Corpo de Paz, um programa do governo para fornecer ajuda a países estrangeiros). Para coordenar esses esforços, e promover o trabalho voluntário, ele criou um novo braço da Casa Branca, a USA Freedom Corps (Corpo de Liberdade dos Estados Unidos), e colocou um importante assessor, John M. Bridgeland, como encarregado.

"Desta vez a adversidade oferece uma oportunidade única -um momento que devemos aproveitar para mudar nossa cultura", disse Bush na época.

Era precisamente o tipo de proposta positiva que o presidente costuma usar para encerrar seus discursos do Estado da União -iniciativas modestas apresentadas com floreios retóricos para soarem ousadas. Os discursos anuais de Bush ao Congresso estão cheios de tais planos, incluindo o aumento da ajuda financeira aos carros movidos a hidrogênio, a tutoria de filhos de presos e a expansão dos exames antidrogas nas escolas.

Mas enquanto Bush se prepara para seu último discurso do Estado da União, na noite de segunda-feira, o Freedom Corps continua sendo um lembrete de como os sonhos do presidente podem colidir com a realidade de Washington, e como promessas feitas com estardalhaço às vezes podem se dissipar. Hoje, alguns dos maiores incentivadores do Freedom Corps, incluindo alguns ex-funcionários do governo Bush, dizem que ele terminou em decepção.

"Nós começamos com o presidente Bush deixando claro que ele não queria que isto fosse apenas promessa vazia", disse Les Lenkowsky, que dirigiu a Corporação para Serviço Nacional e Comunitário, que supervisiona o
AmeriCorps, durante o primeiro mandato de Bush. "Ele realmente queria
iniciativas. Nós acreditamos nele e fomos trabalhar para ele. E agora acho que tudo foi apenas promessa vazia."

O Freedom Corps visava ser uma espécie de órgão central para promoção de novas iniciativas de trabalho voluntário e fortalecer as já existentes. Lenkowsky e outros envolvidos no que é conhecido como "movimento para o engajamento cívico" disseram que o plano começou promissor. Mas disseram que Bush se distraiu com a guerra no Iraque e que o programa fracassou quando Bridgeland, cuja paixão pelo serviço voluntário e laços estreitos com o presidente provaram ser uma combinação poderosa, deixou a Casa Branca em 2003.

"O plano perdeu força", disse John DiIulio, ex-diretor do Escritório de
Iniciativas Comunitárias e Baseadas na Fé, um órgão da Casa Branca que, como o Freedom Corps, era um componente central da agenda compassiva de Bush. "Em Bridgeland, ele contava com um líder extraordinário. Quando Michael Jordan deixou o Chicago Bulls, o time deixou de ser tão bom, não foi?"

Poucos sucessos
A iniciativa teve alguns sucessos. No início, Bridgeland ajudou a
estabelecer o Citizens Corps (corpo dos cidadãos), uma rede nacional de
médicos, bombeiros e outros que se ofereceram como voluntários em uma
emergência, e atualmente há 2.300 conselhos do Citizens Corps por todo o país. A Casa Branca diz que desde 2000 já recrutou mais de 1 milhão de americanos, bem mais do que os 200 mil novos recrutas prometidos por Bush.

Mas a iniciativa também ficou aquém de algumas metas. O Peace Corps, que contava com 6.663 voluntários em 2002, atualmente tem 8.049 -mais do que em qualquer momento nos últimos 30 anos, mas longe da duplicação do número prometida pelo presidente.

E apesar do presidente também ter prometido aumentar as fileiras do
AmeriCorps de 50 mil para 70 mil voluntários, os críticos disseram que ele só conseguiu por meio de manobras criativas, já que menos da metade das 75 mil vagas são em tempo integral.

"Há muitas artimanhas empregadas, para atender a meta anunciada pelo
presidente", disse Bob Putnam, um professor de política pública de Harvard que foi consultado pelo governo. "Eu achava que Bush tinha entendido, o motivo para ter trabalhado para ele. Ele falava de algo bom, mas na verdade agora o acho bastante cínico."

Funcionários da Casa Branca consideram a iniciativa de trabalho voluntário "um tremendo sucesso", nas palavras de Joel D. Kaplan, o vice-chefe de gabinete. Kaplan notou que o AmeriCorps, em particular, enfrentava oposição dos líderes republicanos no Congresso, que o consideravam um programa da era Clinton que merecia ser extinto, não expandido. Ele deu crédito a Bush por manter o programa vivo.

"Este presidente não apenas defendeu o AmeriCorps, mas o fortaleceu, ampliou", disse Kaplan. "Veja, isto é um tremendo feito por si só para um presidente republicano."

A "convocação ao serviço pelo presidente", a forma como a Casa Branca se refere ao discurso do Estado da União de 2002, tem suas raízes no que Bush chamava de seu conservadorismo compassivo. Mas os eventos que a estimularam foram os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Logo depois, Bush reuniu sua equipe de política interna no Escritório Oval.

Bridgeland lembrou de ter pensado em voz alta sobre que papel os cidadãos poderiam exercer na segurança doméstica. Bush, ele disse, respondeu com uma ordem: "Ele disse: 'Bridge, eu quero que você desenvolva uma grande iniciativa' -e estas foram as palavras que ele usou- 'para promover uma cultura de serviço, cidadania e responsabilidade'."

"Ele era obstinado"
Em busca de idéias, Bridgeland procurou democratas como R. Sargent Shriver, o primeiro diretor do Peace Corps, e Harris Wofford, um ex-senador da Pensilvânia que ajudou a criar o Peace Corps no governo do presidente John F. Kennedy. Assim que o Freedom Corps foi criado, ele se estabeleceu em um endereço em frente à Casa Branca, com uma equipe de cinco funcionários, um site na Internet e a força de suas próprias idéias.

Bridgeland trabalhou com Tom Ridge, o ex-diretor de segurança interna, na criação do Citizen Corps. Ele propôs a Voluntários para a Prosperidade, na qual o governo oferece pequenos subsídios para profissionais que se licenciam de seus empregos para trabalharem como voluntários no exterior. Ele fez lobby no Capitólio quando a liderança republicana quis cortar pela metade o orçamento do AmeriCorps.

"Ele era obstinado", disse Steve Goldsmith, o ex-prefeito de Indianápolis que é amplamente considerado como sendo o arquiteto da agenda compassiva de Bush. "Ele me telefonava diariamente, eu ia até lá três vezes por semana e ele tinha 10 idéias e eu saía com 4 tarefas."

Mas em 2003, disse Bridgeland, ele viu que "a guerra ia sugar grande parte do oxigênio doméstico". Ele deixou o governo para dirigir sua própria empresa, a Civic Enterprises, que ajuda empresas e fundações a promoverem serviço voluntário. Sua sucessora, Desiree Sayle, uma ex-diretora do escritório de correspondência da Casa Branca, disse que considerava seu trabalho implementar as idéias de Bridgeland.

"Eu diria que John é um visionário e que muitas destas idéias e programas são visões dele e do presidente", disse Sayle, que deixou a Casa Branca no ano passado e foi substituída por Henry Lozano.

Os resultados
Entre os defensores do engajamento cívico, há um forte debate sobre se Bush de fato criou "uma nova cultura de responsabilidade" como prometeu. Tanto democratas quanto republicanos o elogiam por ter usado sua posição como presidente para promover o trabalho voluntário, e o Census Bureau informa que o percentual de americanos que realizam trabalho voluntário aumentou acentuadamente durante sua presidência.

Mas o pico dos números ocorreu em 2005, e especialistas dizem que o aumento que ocorreu naquele momento foi provocado mais por uma onda de unidade nacional após o 11 de Setembro do que pela liderança presidencial. Algumas pessoas, como Lenkowsky, temem que "a oportunidade única" vista pelo presidente em 2002 tenha sido perdida.

"Após o 11 de Setembro, havia um enorme desejo por parte de muitos
americanos de fazer algo por seu país, e toda a iniciativa de trabalho
voluntário visava atender a tal desejo", ele disse. "Como realmente não
conseguiu deslanchar, nós perdemos uma oportunidade." Após o 11 de setembro, o USA Freedom Corps visava ser uma espécie de órgão central para promoção de novas iniciativas de trabalho voluntário. Agora, em fins do mandato de Bush, ex-funcionários dizem que o trabalho terminou em decepção George El Khouri Andolfato

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