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29/01/2008

Krugman: lições da eleição que elegeu Bill Clinton para os candidatos de hoje

The New York Times
Paul Krugman
Está começando a parecer um pouco 1992 de novo. Um Bush está na Casa Branca, a economia está uma confusão e há um candidato que, na visão de muitos observadores, está concorrendo com uma mensagem de esperança, de superar as diferenças partidárias, que lembra a campanha de Bill Clinton há 16 anos.

Agora, não estou certo se esta é uma caracterização justa da campanha de Clinton de 1992, que tinha uma forte inclinação ao populismo, a começar pelo discurso no qual Clinton descreveu os anos 80 como a "era dourada da ganância".

Ainda assim, a ponto de Barack Obama em 2008 soar como Clinton em 1992, aqui está minha pergunta: será que todos esqueceram o que aconteceu após a eleição de 1992?

Vamos revisar uma história triste, começando pela política.

Quaisquer esperanças que as pessoas tinham de que Clinton promoveria uma nova era de unidade nacional foram rapidamente esmagadas. Em poucos meses o país estava tomado pelo partidarismo amargo que Obama condena.

Este partidarismo amargo não foi resultado de nada feito pelos Clinton. Em vez disso, desde o primeiro dia eles enfrentaram um ataque total de conservadores determinados a usar quaisquer meios disponíveis para desacreditar um presidente democrata.

Para aqueles que estão procurando por seus sais aromáticos porque os democratas estão dizendo coisas ligeiramente críticas uns sobre os outros, vale a pena revisitar aqueles anos, apenas para se recordarem de como realmente é uma política suja.

Nenhuma acusação era considerada muito exagerada: um grupo apoiado por Jerry Falwell realizou um filme sugerindo que os Clinton tinham arranjado o assassinato de um associado, e a página editorial do "The Wall Street Journal" repetidamente insinuava que Bill Clinton estava em conluio com um traficante de drogas.

Assim, que bem fez a Clinton sua mensagem de inclusividade?

Enquanto isso, apesar de Clinton poder não ter realizado uma campanha tão pós-partidária como diz a lenda, ele evitou algum conflito ao ser estrategicamente vago em relação a certas políticas. Em particular, ele prometia reforma da Saúde, mas deixou o trabalho de produzir um plano de fato para depois da eleição.

Isto revelou ser um desastre. Muito foi escrito sobre a forma como foi montado o plano de reforma da Saúde de Clinton: ele foi sigiloso demais, de cima para baixo demais, politicamente insensível demais. Acima de tudo, foi lento demais. Clinton só apresentou o projeto de lei ao Congresso em 20 de novembro de 1993 -quando o impulso de sua vitória eleitoral já tinha passado e os adversários já tinham tido bastante tempo para se organizarem contra ele.

O fracasso da reforma da Saúde, por sua vez, condenou a presidência de Clinton a um status de segundo escalão. O governo foi bem administrado (algo que aprendemos a apreciar agora que vimos quão ruim é um governo mal administrado), mas -como Obama diz corretamente- não houve mudança na trajetória fundamental do país.

Então, quais são as lições para os democratas agora?

Primeiro, aqueles que não querem indicar Hillary Clinton porque não querem um retorno à sujeira dos anos 90 -um grupo considerável, pelo menos entre os intelectuais- estão se iludindo. Qualquer democrata que chegar à Casa Branca pode esperar o mesmo tratamento: um procissão sem fim de acusações e falsos escândalos, que receberão zelosamente credencial por parte de grandes organizações de mídia que de alguma forma não se dispõem a declarar que as acusações são falsas (pelo menos não na primeira página).

Apesar de haver motivos válidos para alguém apoiar Obama em vez de Hillary Clinton, o desejo de evitar situações desagradáveis não é um deles.

Segundo, as propostas políticas apresentadas pelos candidatos importam.

Eu tenho colegas que me dizem que a rejeição por Obama de planos de saúde obrigatórios -um elemento essencial de qualquer plano viável de cobertura universal- realmente não importa, porque quando a reforma da Saúde chegar ao Congresso, ela de qualquer forma será muito diferente da proposta inicial do presidente. Mas isto ignora a lição do fracasso de Bill Clinton: se o próximo presidente não chegar com um plano que seja amplamente viável em esboço, quando as coisas forem consertadas a janela de oportunidade poderá ter passado.

Minha sensação é de que a luta pela indicação democrata saiu terrivelmente dos trilhos. A culpa é amplamente compartilhada. Sim, Bill Clinton foi um tanto rude (apesar de não sentir as acusações de que ele de alguma forma violou regras não escritas, que parecem ter sido recém-criadas para a ocasião). Mas muitos partidários de Obama parecem dispostos demais a satanizar seus oponentes.

O que os democratas devem é voltar a discutir os temas -o foco nos temas é a grande contribuição de John Edwards a esta campanha- e sobre quem está melhor preparado para promover essa agenda. Caso contrário, mesmo se um democrata vencer a eleição geral, será 1992 de novo. E isso seria péssimo. George El Khouri Andolfato

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