UOL Notícias Internacional
 

30/01/2008

A Alemanha confronta o Holocausto como se quisesse comemorar o pior da sua história

The New York Times
Nicholas Kulish e Victor Homola
Em Berlim
A maior parte dos países celebra o melhor de seu passado. A Alemanha promove incansavelmente seu pior.

O enorme memorial do Holocausto que domina um pedaço do centro de Berlim foi terminado após anos de debate. Mesmo assim, a construção de monumentos à desgraça nazista continua.

Na segunda-feira (28/1), o ministro da cultura alemão, Bernd Neumann, anunciou a permissão para a construção de dois monumentos em Berlim: um perto do Reichstag, aos ciganos mortos, conhecidos aqui como Sinti e Roma, e outro perto do Portão de Brandenburgo, para gays e lésbicas mortos no Holocausto.

Michael Kappeler/AFP - 6.mai.2005 
Memorial aos Judeus Assassinados da Europa apresenta fotos de vítimas do Holocausto

Em novembro, a Alemanha inaugurou o centro de Topografia e Terror, muito adiado, no local das sedes de Gestapo e SS. E em outubro, uma enorme mostra foi inaugurada no campo de concentração Bergen-Belsen. No campo de Dachau, perto de Munique, um novo centro para visitantes será inaugurado no verão. A cidade de Erfurt está planejando um museu dedicado aos crematórios. Há atualmente duas exibições concorrentes sobre o papel das linhas de ferro alemãs no envio de milhões para suas mortes.

Quarta-feira é o 75º aniversário do dia em que Hitler e o partido Nazista assumiram o poder na Alemanha, e a ocasião levou a uma nova rodada de indagações.

"Onde no mundo se viu uma nação que ergue memoriais para imortalizar sua própria vergonha?", perguntou Avi Primor, ex-embaixador israelense na Alemanha, em um evento em Erfurt, na sexta-feira, para lembrar o Holocausto e a liberação de Auschwitz. "Somente os alemães tiveram a bravura e a humildade."

O esforço para lidar com a história prossegue não apenas em edifícios e exibições. O Escritório de Crime Federal começou a investigar a si mesmo no ano passado, tentando lançar luz no passado nazista de seus fundadores após o final da guerra. E neste mês o promotor federal da Alemanha derrubou um veredicto de culpado de Marinus van der Lubbe, comunista holandês executado por incendiar o Reichstag; o 75º aniversário desse evento será no dia 27 de fevereiro.

A experiência do nazismo está viva em debates públicos contemporâneos sobre assuntos tão variados quanto as tropas alemãs no Afeganistão, o baixo índice de natalidade e a forma como os alemães lidam com estrangeiros. Por que o país parece infinitamente obcecado com o nazismo é assunto de perpétuo debate aqui, indo desde o temperamento filosófico alemão até simples assombro diante da combinação sem precedentes de organização e brutalidade, até a noção que o crime foi tão grande que se espalhou sobre toda uma cultura.

Independentemente das razões, na medida em que o evento se torna mais remoto e menos pessoal, esta sociedade é forçada a confrontar a questão de como deve entronar seus crimes e transgressões no longo prazo.

Nas décadas após a guerra, a questão central era como Hitler chegara ao poder, disse em entrevista Horst Moeller, diretor do Instituto de História Contemporânea. Até a minissérie de televisão americana chamada "Holocausto", nos anos 70, afetou o debate no que era então a Alemanha Ocidental, mudando o foco muito mais para o sofrimento das próprias vítimas, disse Moeller.

Ruediger Nemitz começou a receber as vítimas exiladas de Berlim pela tirania nazista, uma maioria esmagadora de judeus, em 1969. A cidade traz os antigos cidadãos de volta para uma semana de visita, com todas as despesas pagas e uma recepção pelo prefeito.

O Programa de Convite de Ex-Cidadãos Perseguidos de Berlim, que já trouxe aproximadamente 33.000 pessoas para visitar a cidade, certa vez teve 12 funcionários contratados. Agora tem apenas Nemitz e um funcionário de meio período.

O programa, entretanto, não está terminando por causa de falta de apoio à construção da memória do passado alemão. Ao contrário, em uma determinada época, quando a prefeitura de Berlim estava quase quebrada e teve que fazer profundos cortes em outras áreas, todos os partido políticos na assembléia da cidade apoiaram o programa e não cortaram seu orçamento de US$ 800.000 para vôos, hotéis e passeios desde no mínimo 2000.

"Quando (o programa começou), os convidados eram adultos. Agora, são pessoas que quase não tinham lembranças de Berlim", disse Nemitz de seu escritório no térreo da Prefeitura. "Os que vêm hoje eram crianças na época". As visitas terminarão em 2010 ou 2011, estima Nemitz, porque restam poucas vítimas.

Além dos sobreviventes estarem morrendo, a geração de Nemitz, que enfrentou esses crimes intimamente e lutou para romper o silêncio de seus pais e professores, está começando a se aposentar. Quando o último grupo deixar Berlim, Nemitz, 61, que disse ter medo de tirar férias e trata seu cargo mais como missão do que como emprego, vai fechar a porta de seu escritório e aposentar-se.

Alguns dizem que os jovens alemães, de quem se exige o estudo intensivo da era nazista e do Holocausto, mostraram pouca inclinação a deixar cair o tema, apesar de sua distância dos eventos. Eles dizem que a geração mais jovem aborda-o como fonte não de culpa, mas de responsabilidade no palco mundial, de justiça social e pacifismo, inclusive a oposição à guerra no Iraque.

Outros dizem que os crimes são abordados apenas de forma superficial e que os jovens, eventualmente, e talvez de forma cuidadosamente protegida, expressarão sua exaustão com o assunto. "Não posso evitar de sentir que parte do comportamento 'vamos construir monumentos, vamos construir museus judaicos' é programada", disse Susan Neiman, diretora do Fórum Einstein em Postdam, organização de pesquisa pública internacional, por telefone. "Preocupo-me terrivelmente que se vire contra nós".

O relacionamento da Alemanha com sua história nazista ainda gera controvérsias regularmente, como no caso das mostras de trens concorrentes. A primeira, Trem da Comemoração, é uma locomotiva levando exibições detalhando o caminho das crianças judias assassinadas no Holocausto.

O trem está passando por cidades alemãs, aberto a visitas ao longo do caminho, e por fim irá para Auschwitz. Os organizadores reclamam que, em vez de adotar o projeto, a rede ferroviária nacional, Deutsche Bahn, prejudicou-o, forçando os organizadores a pagarem pelo uso dos trilhos, mesmo ao recontarem a história dos maus atos da ferrovia.

A segunda mostra, patrocinada pela própria Deutsche Bahn, foi inaugurada em Berlin na estação de trem de Potsdamer Platz na semana passada. Os críticos disseram que a mostra oficial era apenas uma resposta à atenção recebida pela primeira mostra. Mas a mostra da Deutsche Bahn explica como a empresa que antecedeu a companhia, Reichsbahn, levou alguns dos 3 milhões de passageiros para a morte; é cheia de estatísticas dolorosas, fotografias e histórias fortes sobre alguns dos que pereceram.

Qualquer incapacidade de lidar com a história imediatamente atrai a atenção nacional. Em Munique, no final de semana, uma parada tradicional de Carnaval coincidiu com o dia de Lembrança Internacional do Holocausto, celebrado a cada ano no dia 27 de janeiro. O resultado foi uma enxurrada nacional de publicidade negativa contra a cidade. Charlotte Knobloch, líder da organização judia nacional da Alemanha, disse que o episódio "desonra e insulta as vítimas".

Stefan Hauf, porta-voz da cidade, disse: "Não há afronta consciente." Ele explicou que a prefeitura teria mudado a data da parada, como fizera a cidade de Regensburg, mas muitos participantes estavam vindo de outros países, portanto não podia mudar a parada com pouca antecedência. "A data está no calendário público desde maio do ano passado", disse Hauf.

Munique teve um papel especial na história nazista. Foi ali que o Partido Nacional Socialista ascendeu e também foi o local da tentativa de golpe fracassada entronada no mito nazista de Beer Hall Putsch, em 1923. Hitler eventualmente declarou a cidade Capital do Movimento. Diferentemente de Berlim, que desenvolveu fama de ter um memorial a cada esquina, Munique foi freqüentemente criticada por minimizar sua história.

"Munique era a Capital do Movimento. Desde 1945 é a capital do esquecimento", disse Wolfram P. Kastner, artista que brigou com a prefeitura durante anos para tirar licença para usar arte performática para manter a memória do Holocausto viva.

A prefeitura de Munique acredita que tem sido muito ativa em preservar a história dessa época. A uma pequena caminhada da histórica Marienplatz, um complexo inteiro de novas construções é dedicado à história judaica da cidade. A sinagoga foi inaugurada em novembro de 2006, no aniversário dos ataques liderados pelos nazistas contra o povo, empresas e locais de adoração judeus, chamado Kristallnacht. O museu judeu e um novo centro comunitário foram inaugurados em Munique no ano passado.

A prefeitura está trabalhando em um novo museu a ser construído onde era a sede do partido Nazista. Chamado Centro de Documentação para a História do Socialismo Nacional, deve ser inaugurado em 2011. Sua meta, de acordo com o site do museu, "é criar um local de aprendizado para o futuro".

Com esse objetivo, Angelika Baumann, do Departamento de Arte e Cultura da cidade, vem promovendo oficinas com jovens de 14 a 18 anos, de diferentes escolas e origens, inclusive não alemães. "Estamos planejando para pessoas que ainda nem nasceram", disse Baumann. Deborah Weinberg

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