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30/01/2008

Discurso de Bush revela a percepção de que seu atual adversário é o tempo

The New York Times
Steven Lee Myers

Em Washington
Fazendo seu sétimo e último discurso do Estado da União, o presidente Bush propôs uma lista curta de iniciativas na segunda-feira, que mais do que qualquer outra coisa ressaltou a crescente percepção da Casa Branca de que seus maiores adversários políticos agora são o tempo e um eleitorado já mais interessado em seu sucessor.

Este discurso careceu das ambições dos discursos anteriores de Bush, apesar de contar com seus floreios retóricos. Ele invocou o "milagre da América", mas em grande parte recitou sem rodeios idéias familiares -redução de impostos, combate aos terroristas, a guerra no Iraque- em vez de apresentar novas idéias ousadas. Nada do que foi proposto na segunda-feira provavelmente redefinirá como a história julgará sua presidência.

As maiores iniciativas do segundo mandato de Bush -o futuro do Seguro Social e a questão emocionalmente carregada da imigração ilegal- agora estão na categoria que a Casa Branca chama de "negócios inacabados". Bush as mencionou na segunda-feira apenas para dizer o óbvio: ambas permanecerão inacabadas em seu mandato.

Tim Sloan/EFE - 28.jan.2008 
O presidente George Bush profere o discurso anual Estado da União, ao Congresso dos EUA

Assim como a guerra no Iraque, a questão que definirá seu legado mais do que qualquer outra e para a qual ele notadamente não ofereceu nenhuma nova promessa de retirada de tropas. Ele optou por esperar as recomendações do comandante americano, o general David H. Petraeus, que está trabalhando em seu quartel-general no presunçosamente chamado Campo Vitória, em Bagdá, sobre como seguir em frente.

Diferente do discurso do ano passado ao Congresso, quando enfrentou ceticismo em relação ao envio de mais soldados ao Iraque, Bush citou uma queda na violência e sinais nascentes de reconciliação política lá. Em vez de sinalizar uma retirada mais rápida, o presidente notou os alertas de Petraeus de que os ganhos poderiam ser rapidamente perdidos.

"Nós temos que fazer o trabalho difícil agora", ele disse, "para que daqui anos, as pessoas possam olhar para trás e dizer que esta geração se ergueu diante do momento, prevaleceu na difícil luta e deixou uma região mais esperançosa e uma América mais segura".

Resta a Bush menos de um ano de governo. Mas como o conselheiro Ed Gillespie da Casa Branca notou na segunda-feira, a janela para realisticamente realizar qualquer coisa durante um ano eleitoral se fechará quando o Congresso entrar em recesso no verão e as convenções para indicação dos candidatos presidenciais tiverem início.

A campanha está tão acirrada neste ano que o discurso do Estado da União -um ritual anual de governança americana há mais de dois séculos- pareceu pouco mais que uma breve distração entre o apoio do senador Edward M. Kennedy ao senador Barack Obama, na tarde de segunda-feira, e a eleição primária na Flórida na terça-feira. Um candidato republicano, o senador John McCain, trocou o discurso por um último dia de campanha lá.

"Todos parecem estar olhando mais à frente", disse Scott Reed, um consultor republicano veterano, na segunda-feira.

O que o presidente propôs em seu discurso foi modesto, concentrado mais do que nunca em assuntos domésticos e na crescente preocupação "nas mesas de cozinha de todo o país" com a economia, como ele colocou.

Um estímulo econômico que já está em andamento; uma campanha contra dinheiro reservado no orçamento para gastos em projetos frívolos; subsídios para estudantes de escolas urbanas abaixo da média; novos benefícios para veteranos e suas famílias -todas podem ser propostas dignas, e algumas podem até ser implementadas.

Os assessores mais próximos de Bush -e segundo todos os relatos o próprio presidente- se recusam a reconhecer qualquer consideração ativa de seu legado, segundo eles uma nova palavra começada com "l", como liberal.

"Não é um discurso retrospectivo de qualquer modo ou forma", disse Gillespie. "Ele é voltado ao futuro, à ação, e fala de coisas que precisam ser feitas por este Congresso neste ano eleitoral."

Os assessores de Bush insistiram de novo que ele "não fará um sprint até a linha de chegada". Talvez não por acaso, a imagem fez lembrar a promessa de Ronald Reagan em seu último discurso do Estado da União. "Vamos tornar este o melhor dos oito", disse Reagan há 20 anos. "E isto significa que tudo é possível, até a linha de chegada."

Reagan, com seus índices de aprovação se recuperando após o escândalo Irã-Contras, também se dedicou a censurar o desperdício em projetos pessoais. ("Pesquisa da amora, pesquisa do mirtilo, estudo do camarão de água doce e a comercialização de flores silvestres" eram os ultrajes de sua época.)

Em seu último ano, Reagan conseguiu acordos legislativos com os democratas envolvendo comércio, imigração e bem-estar social, assim como assinou um acordo de controle de armas com a União Soviética. Os assessores de Bush rejeitaram a comparação, mas seu discurso final também refletiu isto dos últimos dois presidentes em segundo mandato. Bill Clinton, atrapalhado pelo impeachment mas ainda bem mais popular àquela altura de sua presidência do que Bush agora, propôs uma série de propostas centristas, incluindo redução de impostos para casados, aumento do crédito universitário e o pagamento pelo Medicare (o seguro médico federal) de medicamentos prescritos (que o governo Bush finalmente conseguiu implementar). Na época, o governador George W. Bush do Texas criticou a "ladainha de programas de gastos" de Clinton.

Tanto Reagan quanto Clinton realizaram seus últimos discursos do Estado da União com o destino de seus vice-presidentes em mente, promovendo agendas legislativas que representavam plataformas de campanha para seus herdeiros.

Diferente de Reagan e Clinton, cujos vice-presidentes buscaram sucedê-los, Bush falou na segunda-feira sem nenhum herdeiro óbvio. E apesar de ter prometido apoiar aquele que vier a ser indicado pelo partido, os candidatos republicanos dificilmente se arriscam a citar seu nome na campanha.

O índice de aprovação de Bush paira em 29%, segundo a mais recente pesquisa New York Times-CBS News. Ele tem caído a cada discurso do Estado da União desde o primeiro, realizado após o 11 de Setembro de 2001, quando a Al Qaeda e o Taleban tinham sido expulsos no Afeganistão e 82% aprovavam seu trabalho à frente do governo.

E apesar de ter declarado que o estado da União permaneceria forte, como a tradição obriga os presidentes a fazer, apenas 19% dos americanos acham que o país está no caminho certo, um dos números mais baixos registrados.

"Da expansão da oportunidade à proteção de nosso país, nós fizemos um bom progresso", disse Bush, apelando a um bipartidarismo que o país pouco viu durante sua presidência. "Mas temos negócios inacabados diante de nós, e o povo americano espera que nós os concluamos." George El Khouri Andolfato

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