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30/01/2008

Para muitos turcos, o retorno dos lenços de cabeça fortalece a democracia

The New York Times
Sabrina Tavernise

Em Istambul, Turquia
A decisão do governo turco nesta semana de suspender a proibição de mulheres vestirem lenços de cabeça nas universidades levantou uma questão preocupante: o Islã está começando a minar a democracia secular da Turquia?

Mas na Turquia, as aparências costumam ser enganadoras. A maioria dos turcos considera a medida -submetida na terça-feira ao Parlamento, onde deverá ser aprovada- boa tanto para a religião quanto para a democracia.

Aqui, os cidadãos mais religiosos têm sido os democratas mais ativos, enquanto sua velha guarda ferrenhamente secular -representada pelos militares e pelo Judiciário- costuma agir por meio de golpe e ordens judiciais.

Lynsey Addario/The New York Times 
Mulheres em Istambul protestam contra a proibição do uso de véu nas universidades

O paradoxo está no coração da Turquia moderna, uma democracia muçulmana vibrante de 70 milhões entre a Europa e o Oriente Médio. Seus governos eleitos nunca dirigiram plenamente o país. Eles eram vigiados -e bloqueados- por um grupo altamente poderoso de generais e juízes que herdaram o poder de Mustafa Kemal Ataturk, o brilhante ex-general autocrata que criou a Turquia moderna em 1923, a partir das ruínas otomanas.

O sistema que ele criou era secular mas dividido por classes, com a elite urbana, conhecida como "turcos brancos", intervindo quando achavam que os líderes políticos eleitos pelo interior mais devoto, mais pobre, estavam se desviando do curso.

"O cidadão é visto como uma criança pequena e incapaz que pode constantemente danificar algo", disse Dengir Mir Mehmet Firat, um membro do partido do governo. O Estado "constrói uma cerca de jardim ao redor desta criança e não a deixa sair".

Agora, pela primeira vez na história turca, tal classe inferior, representada pelo Partido Justiça e Desenvolvimento do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, está desafiando a velha ordem e, pelo menos por ora, sem represália.

A Turquia parece um expatriado inquieto que passou grande parte do último século no Ocidente, tentando escapar de seus seis séculos anteriores como capital do Oriente muçulmano, e o desafio à velha guarda em torno de um item como o lenço de cabeça representa, de muitas formas, a Turquia se tornar um pouco mais ela mesma.

Apesar de muitos na sociedade turca instruída se irritarem quando o país é considerado como parte do Oriente Médio muçulmano em vez da Europa, sua maioria permanece bastante devota.

Um estudo de 2006 feito pela Fundação Turca de Estudos Sociais e Econômicos, um respeitado instituto de pesquisa com sede em Istambul, apontou que 59% dos turcos se descreveram como "muito religiosos" ou "extremamente religiosos". Cerca de dois terços das mulheres no estudo, que entrevistou 1.500 pessoas por toda a Turquia, disseram que cobrem suas cabeças de alguma forma quando saem de casa.

Logo, a proposta de Erdogan provavelmente contará com amplo apoio.

"É preciso ficar claro que estamos trabalhando apenas para colocar um fim ao tratamento injusto contra nossas garotas nas entradas das universidades", disse Erdogan no Parlamento, na terça-feira.

Liberais turcos, como Ergun Ozbudun, um professor de direito em Ancara que foi nomeado pelo governo para reescrever a Constituição turca, tende a concordar.

"É uma questão de direitos humanos, não de secularismo", disse Ozbudun, que lecionou nos Estados Unidos. "Nos Estados Unidos, eu tinha alunos judeus que usavam quipá e ninguém se importava."

O líder do partido de oposição secular, Deniz Baykal, 69 anos, que nasceu enquanto Ataturk ainda estava vivo e que dirige o partido há quase 20 anos, explorou os temores familiares.

"As medidas para colocar um fim à proibição do lenço de cabeça miram os pilares da república secular de Ataturk", disse Baykal.

A proposta "abre o caminho para a intrusão do turbante, como é chamado", ele disse, se referindo ao hijab, o lenço que cobre a cabeça e o pescoço, como "algo que não faz parte de nossa nação, história, tradições ou culturas".

"Um artigo estrangeiro de vestuário que foi imposto à Turquia de fora", ele disse.

Para Hilal Kaplan, uma estudante de pós-graduação que usa um, a conversa soa terrivelmente ultrapassada.

"É como se o chão se abrisse e pessoas dos anos 30 rastejassem para fora dele", ela disse.

Os membros da oposição secular linha-dura também fazem analogias ao fascismo. Em um talk show popular nesta semana, um professor, Emre Kongar, apontou que a suástica "é proibida na Alemanha" e que se símbolos representam uma ameaça, "eles podem ser proibidos".

Apesar de grande parte do debate estar preso a aspectos superficiais, questões mais profundas às vezes despontam. Elas envolvem algumas das questões que se tornaram centrais para o pensamento americano e europeu informado: onde o Islã se encaixa na construção de uma sociedade aberta? Como alguém pode permitir liberdades religiosas sem minar direitos seculares ou abrir o caminho para que líderes religiosos as insiram nas políticas?

Grande parte destas perguntas continua sem resposta. Erdogan promoveu um progresso sem precedente em seu mandato de cinco anos, reformando o governo da Turquia em uma tentativa de ingressar na União Européia, dando início a um diálogo com a minoria curda do país e pressionando os turcos a aceitarem um acordo desfavorável em relação a Chipre, que a Turquia invadiu em 1974.

Ele argumentou, até o momento de forma convincente, que não há motivo para a máquina em perfeito funcionamento da democracia secular turca não poder ser operada por muçulmanos praticantes. Mas com um controle mais firme do poder -o partido atualmente detém a presidência, o governo e o Parlamento- muitos liberais temem que ele começará a gravar sua imagem na Turquia por meio de sua base, que, como a elite secular, forma um grupo fechado próprio.

Jenny B. White, uma erudita americana que estuda a Turquia desde os anos 70, disse que os líderes do partido de Erdogan defendem fortemente os direitos individuais em discursos, mas que transformar palavras em ação é uma história diferente.

"A democracia não é apenas uma tecnologia", ela disse. "Ela envolve tolerância a pessoas com as quais você não concorda."

* Sebnem Arsu contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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