UOL Notícias Internacional
 

31/01/2008

Apagões ameaçam o forte crescimento da África do Sul

The New York Times
Barry Bearak e Celia W. Dugger*
Em Johannesburgo
No início, os blecautes pareciam ser apenas um pequeno transtorno. Faltava energia elétrica duas ou três horas seguidas, duas ou três vezes por dia. Os locutores de rádio faziam piadas, aconselhando os ouvintes a fazer as suas torradas matinais esfregando vigorosamente duas fatias de pão uma contra a outra, e mencionavam jocosamente supostas vantagens amorosas decorrentes da escuridão extra.

Mas após três semanas de apagões crônicos - depois de irritações regulares devido a computadores desligados, fogões inertes e semáforos apagados - a paciência da população deu lugar à indignação. Esta nação, que há muito tempo é um reduto confiável de eletricidade barata e abundante, vê-se em situação lamentável. O governo confessou que há uma "emergência elétrica", e deu início a um programa de racionamento para os usuários industriais. Isso é uma modificação humilhante para um país que se considera a usina de força da África, e que repele as comparações com os seus vizinhos subdesenvolvidos e flagelados pela fome.

Mas os racionamentos de eletricidade, que atualmente calcula-se que farão parte do cotidiano dos sul-africanos pelos próximos cinco anos, são mais do que um uma situação embaraçosa. Eles ameaçam o vigoroso e contínuo crescimento aqui, em uma nação que responde por um terço da economia da África subsaariana, e que se encontra entre os 25 países de maior produto interno bruto.

Mariella Furrer/The New York Times 
Semáforo apagado por falta de energia em Johannesburgo, África do Sul

Como a África do Sul é um motor de crescimento para a região, um desaquecimento aqui afetaria também os seus vizinhos, minando iniciativas globais para a redução da pobreza e prejudicando a própria tentativa sul-africana de reduzir o seu lamentável índice de desemprego de 25,5%.

Uma das maiores empregadoras deste país, a indústria mineradora, praticamente suspendeu a produção durante quatro dias na semana passada porque a Eskom, a empresa estatal de energia elétrica, não foi capaz de garantir eletricidade suficiente para ventilar e resfriar as minas escavadas a grandes profundidades. As companhias que mineram ouro e platina só retomaram a produção na terça-feira depois de negociações de emergência com a Eskon, segundo informou a Câmara de Mineração da África do Sul.

"A paralisação da indústria mineradora é um fato extraordinário e sem precedentes", afirma Anton Eberhard, professor da escola de administração empresarial da Universidade da Cidade do Cabo e especialista em energia. "Essa foi uma mensagem poderosa, prejudicando maciçamente a reputação da África do Sul no que diz respeito aos novos investimentos. O nosso país foi construído tendo como base as minas".

A atual crise deve-se à falta de capacidade da Eskom de gerar energia elétrica suficiente e à sua incapacidade de manter diversas das suas usinas em funcionamento. O problema já fora previsto. Em 1998, um relatório governamental advertiu que, com o índice de crescimento da economia, o país enfrentaria graves racionamentos de eletricidade até 2007, a menos que a capacidade do sistema fosse ampliada. O governo, liderado pelo presidente Thabo Mbeki, que assumiu o cargo em junho de 1999, tentou sem sucesso estimular os investidores privados a construir usinas de energia adicionais. Foi só com muito atraso que o governo permitiu que a Eskom desse início à expansão necessária.

"O presidente admitiu que este governo errou no cronograma", afirmou na sexta-feira (25/01) Alec Erwin, o ministro das Empresas Públicas, em uma entrevista muito aguardada que rompeu um misterioso silêncio público por parte das autoridades.

A declaração foi um reconhecimento raro de erro por parte de um governo pós-apartheid orgulhoso. Mbeki, atualmente no último ano do seu segundo mandato, pode se gabar legitimamente de vários sucessos, entre eles o fornecimento de energia elétrica às massas empobrecidas. Desde que o Congresso Nacional Africano conquistou o poder em 1994, a África do Sul duplicou a porcentagem da sua população ligada à rede de energia elétrica. Atualmente essa porcentagem é superior a 70%.

Embora o governo insista em dizer que não permitirá que a crise de energia elétrica ameace os futuros projetos industriais e interfira com os planos para sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2010, muitos especialistas consideram os apagões um problema lamentável capaz de neutralizar algumas das realizações econômicas de Mbeki.

"Os alertas eram bem conhecidos, mas o governo estava muito distanciado e era demasiadamente arrogante para agir", acusa William Mervin Gumede, autor do livro "Thabo Mbeki and the Battle for the Soul of the ANC" ("Thabo Mbeki e a Batalha pela Alma do Congresso Nacional Africano), publicado em 2005 pela editora Zebra Press, e tendo uma edição revisada de 2007. "Isto é algo simplesmente desastroso para a economia. Podemos descartar todas as metas relativas a um crescimento econômico de 6%".

Os sul-africanos estão alarmados com as interrupções diárias que os apagões provocam nas suas vidas. Os trabalhadores sentam-se sem ter o que fazer, os televisores apagam-se e silenciam-se, os elevadores param entre os andares dos prédios, as bombas dos postos de gasolina não funcionam, os bolos ficam semi-assados. Todo cruzamento com um semáforo apagado vira uma interseção caótica de quatro direções, com motoristas furiosos devido ao atraso, enquanto as filas de carros movimentam-se vagarosamente.

A Eskom chama os apagões de "reduções de carga", e faz uma rotação do corte de energia pelos bairros, distribuindo assim a inconveniência. A empresa tem um website com um mostrador no canto; uma agulha gira entre os níveis "seguro" e "perigoso".

As reduções de carga têm três graus de gravidade, e nos piores dias uma determinada comunidade pode ficar um dia e meio sem energia. O site fornece um cronograma para cada área, mas tal cronograma está com freqüência errado. Nos próximos meses, quando o racionamento for estendido até os moradores residenciais, os apagões deverão ser mais previsíveis.

Em Sandton City, um enorme shopping center de luxo em Johannesburgo, os apagões deixam o complexo comercial com aquela aparência assustadora de uma peça de teatro bruscamente interrompida. Clientes e vendedores mostram-se atônitos com a escuridão abrupta, não sabendo se desistem ou continuam.

Na The Bread Basket, uma loja de alimentos finos no shopping center, os 33 funcionários apressam-se para finalizar as transações na penumbra. Geradores de emergência mantêm as caixas registradoras funcionando durante alguns minutos.

Então as portas das lojas fecham-se relutantemente, com as broas, os croissants e as baguetes deixados nos fornos sem que tenham terminado de assar; a salada de atum, o cuscuz e o taztizik estragando lentamente enquanto os refrigeradores vão esquentando.

"O que podemos fazer?", diz o proprietário, Panos Avraamides. "Jogamos fora todas as saladas, molhos e canapés, deixo que os funcionários tenham um intervalo de uma hora. Depois disso eles voltam e ficam por aqui sem fazer nada".

Norman Samuel, gerente da Etkinds, uma loja que vende máquinas fotográficas e binóculos, diz mal-humorado que as vendas caíram 40%. "As pessoas vão embora do shopping center quando as luzes se apagam", diz ele. "Quem vai querer ficar aqui. A praça da alimentação fica toda enfumaçada porque os exaustores não funcionam. Todos estamos otimistas quanto ao crescimento deste país, mas os apagões destruirão esse crescimento. Representantes de venda vêm até a minha loja porque querem que eu venda os seus produtos. O que posso dizer a eles? Já estou reduzindo a quantidade de mercadorias".

A maioria dos comerciantes está perdendo um dia de vendas por semana. Em Alexandra, uma cidade pobre a apenas alguns quarteirões de Sandton, John Kendia fecha a sua loja de roupas a cada blecaute. "Ficamos sem luz durante quatro a cinco horas", explica Kendia. "Quem, exceto os ladrões, vai querer ficar em uma loja na escuridão?".

Caros geradores movidos a gasolina podem trazer a luz de volta, e comerciantes e proprietários ricos de casas se apressaram em comprar essas máquinas.

Agora elas são escassas. Mark Haycock é dono de uma loja de máquinas e peças na cidade de George, na Província do Cabo Ocidental. "Tenho quatro fornecedores, mas eles me dizem que terei sorte caso consiga mais geradores até março", afirma Haycock.

O governo está suplicando aos usuários que poupem eletricidade, um pedido incomum em uma nação repleta de energia. As autoridades anunciaram subsídios para aquecedores solares de água e um programa para a substituição de lâmpadas incandescentes por outras mais eficientes.

Espera-se que semáforos que funcionam com luz solar poupem o tráfego de veículos dos caprichos da debilitada rede de energia elétrica.

E, é claro, a própria crise faz com que surja uma espécie de moderação.

"Devido a esta situação, o crescimento econômico simplesmente pára", explica Andrew Kenny, um consultor de engenharia. "Dessa maneira, o problema acaba se auto-solucionando".

* Gavin du Venage, em George, na África do Sul, contribuiu para esta matéria. UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host