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31/01/2008

Economistas dissecam a influência da repugnância nos negócios

The New York Times
Patricia Cohen

Em Washington
Você pode matar um cavalo na Califórnia para fazer ração para animais de estimação, mas não para alimentar uma pessoa. Você pode carregar uma mulher nos ombros enquanto corre por uma pista de obstáculos de 253 metros no Campeonato Mundial de Carregar Esposa na Finlândia, mas não pode realizar um concurso de arremesso de anão na França. Você pode doar um rim para impedir uma morte e ser saudado como herói, mas se receber algum dinheiro pela oferta salvadora nos Estados Unidos, você será preso.

Estas proibições não são impostas por preocupações com saúde, segurança ou práticas injustas, dizem alguns economistas, mas porque as pessoas tendem a considerar tais atividades repugnantes. Em outras palavras, apenas ouvir sobre elas pode causar uma sensação de náusea no estômago.

As pessoas não prestam muita atenção em quanto a repugnância afeta decisões sobre o que pode ser comprado e vendido, afirma Alvin Roth, um economista da Universidade de Harvard.

Roth falou em um recente painel sobre os aspectos econômicos da repugnância no Instituto Americano do Empreendimento, uma organização conservadora de pesquisa em Washington. Para os conservadores, a questão pode ser particularmente importante. Os conservadores econômicos tendem a defender a eliminação do máximo possível de obstáculos no mercado, enquanto os conservadores sociais acreditam que algumas práticas são tão "repugnantes" -por violarem valores tradicionais ou proibições religiosas e morais- que deveriam ser totalmente banidas do mercado.

É claro que a linha divisória entre capitalistas mercenários, sem alma, e os defensores da dignidade humana nem sempre é clara. Como Roth apontou, idéias sobre o que é repugnante mudam o tempo todo. Vender a si mesmo em um contrato de servidão antes era considerado permissível, enquanto cobrar juros em empréstimos não era.

Nos últimos anos, grupos lutaram sobre se era aceitável exibir e vender arte que ofendia sensibilidades religiosas, como uma foto de um crucifixo em urina ou uma escultura de Jesus na cruz, feita de chocolate. A exposição "Corpo Humano" e outras semelhantes, que exibiam cadáveres preservados e dissecados de pessoas, antes seriam consideradas tanto mórbidas quanto profanas. Apesar de líderes religiosos, ativistas de direitos humanos e médicos terem condenado as exposições de cadáveres, elas atraíram milhões de visitantes nos Estados Unidos e ao redor do mundo.

E, na semana passada, uma mulher em Ohio cujo anúncio para vender um cavalo apareceu por erro sob a chamada "Coisas Boas para Comer", em uma seção de classificados de jornal, recebeu dezenas de telefonemas, alguns expressando ultraje e outros interessados em transformá-lo em um jantar. (Na Europa e no Japão, carne de cavalo no cardápio provocaria tanto comentário quanto macarrão com queijo em um cardápio nos Estados Unidos.)

Arthur C. Brooks, um professor de governo e negócios da Universidade de Syracuse, que foi o moderador no painel em Washington, falou sobre como ele -e outros milhares de americanos- reuniram US$ 7 mil dólares em notas de 100 para facilitar a adoção de um bebê abandonado na China, apesar da reação visceral contra a idéia de comprar e vender crianças.

"É muito difícil prever o que é repugnante e o que não é", disse Roth. Paul Bloom, um professor de psicologia em Yale, concordou. Ele realizou um estudo de dois anos para tentar entender por que as pessoas consideram atletas que usam esteróides como trapaceiros, mas não aqueles que tomam vitaminas ou usam personal trainers. Ele e sua equipe apresentaram possibilidades diferentes: E se os esteróides fossem completamente naturais? E se não fossem prejudiciais à saúde? E se fossem eficazes apenas se o atleta tivesse que se esforçar mais do que antes?

A única mudança que fez os entrevistados alterarem suas objeções aos esteróides foi quando foram informados que todas as demais pessoas achavam que algo não tinha problema. "As pessoas possuem intuições morais", disse Bloom. Quando se trata de aceitar ou mudar o status quo nestas situações, ele disse, elas tendiam a "acatarem aos especialistas ou à comunidade".

Freqüentemente a introdução de dinheiro na troca -sua colocação no mercado- é o que as pessoas consideram repulsivo. Bloom afirmou que o dinheiro é uma invenção relativamente nova na existência humana, e portanto "não natural".

Os economistas estão fazendo a pergunta errada, disse Bloom no painel. Eles presumem que "tudo está sujeito ao preço de mercado a menos que seja provado o contrário".

"O problema não é que os economistas sejam pessoas não razoáveis, mas sim que são pessoas do mal", ele disse. "Eles trabalham em um universo moral diferente. O ônus da prova cabe a alguém que queira incluir" uma transação no mercado. (Roth, que reconhece que "economistas vêem poucas permutas como sendo completamente tabu", não levou a crítica para o lado pessoal.) O teólogo Michael Novak, que também é um estudioso residente do Instituto Americano do Empreendimento, argumentou de forma semelhante que "nem todos os princípios éticos se encaixam no raciocínio econômico", acrescentando que "a resistência ao dinheiro é muito antiga e muito profunda".

O dinheiro é claramente o problema em situações envolvendo o corpo humano. Pagar mulheres jovens por óvulos para serem fertilizados e aos homens por esperma agora é uma prática comum -apesar de ainda serem regularmente tratados como "doadores". Mas a venda de tecido, células e óvulos para pesquisa de células-tronco ou a venda de órgãos para transplante ainda está sujeita a contestação veemente.

O papa João Paulo 2º disse que o tratamento de órgãos humanos como parte de qualquer troca comercial é "moralmente inaceitável", uma visão compartilhada pela Convenção sobre Direitos Humanos e Biomedicina do Conselho da Europa.

Nos Estados Unidos, a lei federal proíbe a compra e venda de órgãos humanos. A própria Fundação Americana do Rim é contrária a pagamento com base de que "desvaloriza a vida". E o bioeticista conservador Leon Kass, que foi presidente do Conselho de Bioética do Presidente de 2002 a 2005, chamou a comercialização de partes do corpo humano de "inerentemente errada".

"Se passarmos a pensar em nós mesmos como carne de porco, carne de porco nos tornaremos", escreveu Kass.

Sally Satel, uma psiquiatra e estudiosa residente do instituto, ela própria uma receptora de uma doação de rim em 2006, afirma que a questão não precisa colocar a dignidade humana contra o salvamento de uma vida. "Um bombeiro assalariado que salva uma vida não é menos heróico", ela disse. "Um objeto ou ato pode ter um preço, mas ainda assim ser inestimável."

Ela argumentou na "The New York Times Magazine" e em outros lugares que a venda de órgãos humanos, com supervisão adequada para impedir a exploração dos pobres, deveria ser autorizada. Há 74 mil pessoas na lista de espera e em 2006 cerca de 4.400 morreram antes que pudessem receber um rim. A necessidade é grande demais, ela disse. O economista vencedor do Prêmio Nobel, Gary Becker, e seu colega, Julio Jorge Elias, até mesmo calcularam quanto um rim deveria custar para eliminar totalmente a espera.

Nos últimos anos, Roth ajudou a estabelecer "doações casadas de rins", permitindo na prática que grupos de doadores e pacientes trocassem rins visando encontrar um compatível. Estas trocas de rins, que tiveram início em 2005, estão ganhando crescente aceitação em todo o país, ele disse.

Para Novak, a repulsa humana instintiva é um atributo importante. Citando Aristóteles, ele disse que a "repugnância faz uma contribuição necessária para a boa vida, especialmente quando não há tempo para avaliação intelectual". Vários psicólogos, filósofos e biólogos (mais recentemente Stephen Pinker, na "The New York Times Magazine") argumentaram de forma semelhante que a repugnância é o primeiro sistema de alerta da moralidade, um alarme que avisa que algo merece uma avaliação moral.

Ainda assim, tais intuições "nem sempre são o melhor diretor", disse Novak. Como no caso dos transplantes de rim, é preciso escolher "entre dois grandes fins morais", ele disse.

Este é o motivo, ele acrescentou, para "a mera repugnância não ser suficiente". George El Khouri Andolfato

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