UOL Notícias Internacional
 

31/01/2008

Uma segunda chance no eixo de recrutamento de terroristas no Iêmen

The New York Times
Robert F. Worth

Em Sanaa, Iêmen
Em outubro passado, quando as autoridades iemenitas soltaram da prisão Jamal al Badawi, um terrorista da Al Qaeda condenado, as autoridades americanas ficaram furiosas. Badawi ajudou a planejar o ataque contra o destróier americano Cole em 2000, no qual 17 marinheiros americanos morreram.

Mas os iemenitas viam as coisas de forma diferente. Badawi concordou em ajudar a rastrear cinco outros membros da Al Qaeda que fugiram da prisão, e foi mais útil ao governo nas ruas do que fora delas, como disse um alto funcionário do governo iemenita, que falou sob a condição de anonimato. Ele também prometeu lealdade ao presidente do Iêmen antes de ser solto, disse o funcionário.

A briga em torno de Badawi -que foi devolvido rapidamente à prisão pelos iemenitas após serem ameaçados de perder ajuda- ressaltou o amplo desacordo sobre como combater o terrorismo no Iêmen, um território de recrutamento particularmente valioso e refúgio para militantes islâmicos nas duas últimas décadas.

Bryan Denton/The New York Times 
Mulher diante de casa usada para treinamento de ataque dos comandos jihadistas no Iêmen

As autoridades iemenitas disseram ter tido um sucesso considerável em aliciar jihadistas como Badawi, freqüentemente os libertando da prisão e os ajudando com dinheiro, educação ou emprego. Eles são obrigados a assinar uma promessa de que não realizarão mais nenhum ataque em solo iemenita, freqüentemente apoiada por garantias de membros de sua família e tribo. Muitos participaram no esforço de reeducação islâmica liderado por eruditos religiosos, agora sendo copiada em uma escala mais ampla na Arábia Saudita.

Vários destes ex-jihadistas se tornaram informantes do governo, ajudando a capturar uma nova geração de militantes mais jovens, mais perigosos, da Al Qaeda -alguns deles veteranos da guerra no Iraque- que se recusam a reconhecer o governo iemenita. Outros se tornaram mediadores, ajudando a persuadir prisioneiros fugitivos a se entregarem.

Mas as autoridades de contraterrorismo americanas e mesmo alguns iemenitas dizem que o governo do Iêmen, mais do que os outros na região, está fechando acordos que ajudam a impedir ataques no país, mas que deixam os jihadistas livres para planejá-los em outros lugares. Eles também dizem que o governo iemenita cede demais à figuras radicais islâmicas para melhorar sua posição política, nutrindo uma cultura que poderá no final fomentar mais violência.

"O Iêmen é como um ponto de ônibus -nós paramos alguns terroristas e enviamos outros para lutarem em outros lugares", disse Murad Abdul Wahed Zafir, um analista político do Instituto Democrático Nacional em Sanaa. "Nós acalmamos nossos parceiros no Ocidente, mas não estamos realmente ajudando."

Aliança desconfortável com os jihadistas
Todas as partes concordam que a situação é urgente. Com uma população de 22 milhões, jovem, pobre e em rápido crescimento, o Iêmen está rapidamente se aproximando de uma crise política e econômica que poderia resultar em tornar-se um Estado falido. O governo está enfrentando uma persistente insurreição no norte, as reservas de petróleo estão encolhendo e o lençol freático da capital deverá (segundo o Banco Mundial) se esgotar em apenas dois anos. Como o Afeganistão, o Iêmen conta com um fraco governo, tribos fortes e terreno montanhoso, assim como um vasto suprimento de armas.
IÊMEN LUTA CONTRA O TERROR
Bryan Denton/The New York Times
Soldados treinados por americanos exercitam tiro em Sanaa
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O governo iemenita argumenta que sua abordagem está de acordo com sua sociedade profundamente conservadora, onde Osama Bin Laden e Saddam Hussein continuam sendo figuras populares. Apesar de uma nova unidade treinada pelos americanos capturar e matar regularmente terroristas mais agressivos, as autoridades dizem que também devem mostrar moderação com os prisioneiros; adotar uma linha mais dura ou ceder às exigências americanas de extradição de pessoas como Badawi (como os Estados Unidos pediram) poderia provocar uma reação violenta.

"A estratégia é combater o terrorismo, mas precisamos de espaço para usarmos nossas táticas, e nossos amigos precisam nos entender", disse Rashad Muhammad al Alimi, o ministro do interior do Iêmen.

A parceria desconfortável do Iêmen com os jihadistas remonta o final dos anos 80, quando o país deu as boas-vindas a dezenas de milhares de árabes veteranos da guerra contra os soviéticos no Afeganistão. Enquanto outros países árabes, particularmente a Arábia Saudita, ficaram sem saber como acomodar estes jihadistas, o Iêmen estava ativamente aberto a abrigá-los, disse Gregory Johnsen, um analista de segurança do grupo de pesquisa de terrorismo Jamestown Foundation. Naquela época, o presidente Ali Abdullah Saleh considerou os combatentes que retornavam como forças armadas úteis e uma arma ideológica contra os inquietos socialistas no sul do Iêmen.

Quando uma breve guerra civil estourou em 1994, Saleh enviou milhares de jihadistas na batalha contra o sul. Ele também forjou laços importantes com figuras religiosas e políticas islâmicas iemenitas como o xeque Abdul Majid al Zindani, um ex-mentor de Osama Bin Laden que conta com amplo apoio popular e que posteriormente foi listado como "terrorista global" pelos Estados Unidos e pela ONU.

Tais laços persistem até hoje, apesar das queixas americanas. Algumas autoridades americanas dizem que a influência dos radicais islâmicos, e a corrupção arraigada no governo, podem ter possibilitado a fuga espetacular de 23 membros da Al Qaeda, incluindo Badawi, de uma prisão bem guardada na capital, em fevereiro de 2006. As autoridades iemenitas culpam a vigilância deficiente pela fuga, na qual os prisioneiros teriam cavado um túnel até o banheiro de uma mesquita vizinha.

Encontrando um equilíbrio após 2001
Após os ataques de 11 de setembro de 2001, Saleh foi a Washington e prometeu plena cooperação com os esforços antiterrorismo americanos. Em casa no Iêmen, milhares de ex-"árabes afegãos" foram detidos e aprisionados.

Mas Saleh ainda continua sensível aos radicais islâmicos, que continuam sendo um eleitorado doméstico crucial. Quando o Pentágono vazou a notícia de colaboração iemenita em um ataque americano com míssil em 2002, que matou o suposto líder da Al Qaeda no Iêmen, Saleh ficou furioso.

Naquele mesmo ano, Saleh teve uma idéia que esperava que agradaria tanto seus parceiros americanos quanto islamitas: "al hiwar al fikri", ou diálogo intelectual. Era um esforço para incutir a idéia de que o Islã, devidamente entendido, não tolera o terrorismo. As sessões começaram com centenas de ex-jihadistas que estavam na prisão sem acusações.

"Ela veio da idéia de que o terror depende da ideologia, e tal pensamento devia ser confrontado com pensamento", disse Hamoud al Hetar, o clérigo e juiz que liderou o programa.

Um clérigo se sentava por várias horas com três a sete prisioneiros, na maioria das vezes fora da prisão, e discutia a lei e ética islâmica, disse Hetar durante uma entrevista em sua casa em Sanaa.

Inicialmente, os sauditas e outros desdenharam a idéia como branda demais. Ao mesmo tempo, muitos eruditos religiosos iemenitas se recusavam a participar por temerem que seriam assassinados por militantes, disse Hetar. Aos poucos o programa ganhou aceitação, e a Arábia Saudita logo adotou sua própria versão, incluindo terapia e um programa mais abrangente de reintegração.

Alguns críticos desdenham o programa de diálogo, que foi interrompido em 2005 depois que os ataques terroristas pararam, como sendo uma fraude, na qual os presos fingem conversão para sair da prisão. Mas Nasser al Bahri, um ex-motorista de Osama Bin Laden e que passou quatro anos com a Al Qaeda no Afeganistão, disse ser mais como uma simples barganha: deixe o Iêmen de fora de sua jihad e você será deixado em paz.

"Isto mudou o comportamento deles, mesmo que não seus pensamentos", disse Bahri, um homem alegre e falante de 33 anos cujo nome de guerra era Abu Jandal. "O juiz Hetar não pode cancelar a jihad, pois está na raiz de nossa religião."

Sentado no chão de uma sala de estar sem móveis em seu apartamento em Sanaa, Bahri disse que o governo o ajudou a comprar um táxi e a pagar pelo curso de administração após sua soltura em 2003. Apesar de dizer que ainda apóia as metas globais da Al Qaeda, ele também pede a outros islamitas que evitem qualquer violência no Iêmen.

Ali Saleh, outro ex-jihadista que passou pelo programa de Hetar durante seus anos na prisão, agora serve como mediador entre o governo e os radicais islâmicos. Ele ajudou a negociar a rendição de vários dos 23 homens que fugiram da prisão em Sanaa no início de 2006. Em troca, o governo concordou em fazer concessões, incluindo a libertação dos homens após se entregarem, ele disse.

"O governo entende, no Iêmen é preciso chegar a um meio termo para chegar a uma solução", disse Saleh. "Os americanos gostariam de colocar nós todos na prisão. Mas se fizer isso, 10 homens se tornarão 20, 20 se tornarão 100, e depois... seremos um exército."

O surgimento de uma geração mais violenta
Alguns ex-jihadistas também trabalham como informantes para o governo e ajudaram a frustrar vários ataques, disseram autoridades iemenitas.

Mas parece haver um limite para a capacidade do governo de aliciar os radicais islâmicos. Uma nova geração mais violenta de militantes surgiu no Iêmen, segundo as autoridades iemenitas e membros mais velhos da comunidade jihadista.

Alguns desses homens mais jovens lutaram no Iraque e rejeitam qualquer diálogo, além de considerarem o governo do Iêmen como sendo ilegítimo. Eles parecem ser os responsáveis pelo atentado suicida na província de Marib, em julho do ano passado, no qual oito turistas espanhóis morreram, e dois outros ataques suicidas a instalações de petróleo em 2006. Recentemente, ocorreram alertas de mais ataques no Iêmen em sites islamitas.

"Eles abriram uma porta que esperávamos ter fechado para sempre", disse Bahri.

Os homens mais jovens também vêem as figuras mais velhas como Bahri, apesar de sua associação com Osama Bin Laden, como sendo traidores. Bahri disse que agentes de segurança iemenitas lhe mostraram uma "lista de pessoas marcadas para morrer" contendo 30 nomes escritos por membros desta geração mais jovem, com seu nome no topo.

Na metade do ano passado, duas declarações na Internet que alegavam ser da Al Qaeda no Iêmen lamentavam o fato de "algumas pessoas terem abandonado seus princípios e se aliado ao governo". A declaração descrevia precisamente o comitê de mediação ao qual Ali Saleh servia, e dizia que "os desertores se tornaram as mãos do governo. Alguns deles se tornaram seus espiões", segundo uma tradução fornecida pelo Instituto SITE, uma organização com sede nos Estados Unidos que monitora as mensagens de vídeo e Internet dos grupos jihadistas.

Bahri disse que tentou argumentar com membros da geração mais jovem de militantes, mas eles recusaram qualquer diálogo. Ele e Saleh, o mediador, agora carregam uma arma o tempo todo e temem por sua segurança, disse Bahri.

Além da ameaça destes militantes mais jovens, há a questão mais ampla sobre se Bahri e seus amigo estão envolvidos em terrorismo fora do Iêmen. Bahri ainda apóia as metas da Al Qaeda, e fala com admiração dos iemenitas que lutaram no Iraque.

As autoridades iemenitas disseram que aumentaram os esforços para impedir a viagem de homens iemenitas ao Iraque ou outros lugares para participarem de jihad violenta. Mas Bahri disse que conhece 10 ou 15 homens que lutaram no Iraque, incluindo dois que passaram pelo programa de diálogo de Hetar.

Ao ser perguntado sobre o que fez para promover a causa da Al Qaeda fora do Iêmen, Bahri sorriu e disse que responder tal pergunta seria perigoso -mas que não responder também poderia expô-lo a riscos, por parte de um grupo diferente de pessoas. Após uma pausa, ele disse que apenas ora pelo sucesso da Al Qaeda.

Outro veterano da jihad afegã, Ali Muhammad al Kurdi, disse no tribunal durante um julgamento de terrorismo não relacionado, em 2005, que ele treinou dois iemenitas para lutarem no Iraque. Ele nunca foi processado pela alegação, porque o que disse ter feito não é proibido pela lei iemenita.

"Eles foram ao Iraque e lutaram, e foram mortos lá", disse Kurdi, um homem de 33 anos de fala suave, sorridente, enquanto se sentava para uma entrevista em um café na Velha Sanaa. George El Khouri Andolfato

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