UOL Notícias Internacional
 

01/02/2008

Poder dos curdos se esvai com o aumento da revolta árabe

The New York Times
Alissa J. Rubin
Em Bagdá
Como grupo minoritário no Iraque, os curdos apreciaram influência desproporcional na política do país desde a derrubada de Saddam Hussein, em 2003. Agora, contudo, sua extensão parece estar declinando diante do aumento de tensões com os árabes iraquianos, levantando o espectro de outra fissura na divisão sectária entre sunitas e xiitas.

Os curdos, que são na maioria sunitas, mas não árabes, apoiaram firmemente o governo, mais recentemente ajudando-o a se manter quando o primeiro-ministro, Nouri Kamal Al Maliki, ficou sem o apoio de grande parte do Parlamento.

Com sua perspicácia política, seus laços com os americanos e sua competência técnica para dirigir agências do governo, os curdos cimentaram uma posição de enorme força. Isso lhes permitiu praticamente ditar os termos na Constituição iraquiana que lhes deu considerável autonomia regional e alguns direitos significativos na exploração do petróleo.

Safin Hamed/AFP - 10.jan.2008 
Soldados da peshmerga carregam caixão coberto com bandeira do Curdistão

Agora, entretanto, os curdos estão perseguindo políticas que estão irritando as outras facções. Os esforços curdos de tomar o controle da cidade de Kirkuk, rica em petróleo, e conseguir uma divisão mais vantajosa da receita nacional estão fazendo a maior parte dos sunitas e muitos xiitas unirem-se ao governo de Al Maliki na oposição às demandas curdas.

Para os EUA, a diminuição do poder curdo é parte de um problema maior de divisão política que afetou seus esforços de construir um governo operante no Iraque. Apesar de, em questões particulares, vários partidos políticos se unirem, nenhum consegue formar laços duradouros necessários para governar de fato.

Os curdos, com sua visão pró-americana, eram aliados naturais. Mas agora, cada vez mais, os americanos estão na posição inconfortável de escolher entre curdos, a quem apoiaram e protegeram por muito tempo, e árabes, cujo governo ajudaram a criar.

Um grande grupo xiita, o Conselho Islâmico Supremo do Iraque, não tomou lado publicamente, mas pessoas poderosas de dentro do partido foram abertamente críticas aos curdos. Importantes membros do Parlamento também expressaram frustração, e Hussain Al Shahristani, ministro de petróleo e político xiita proeminente, declarou ilegais os contratos que os curdos firmaram com empresas estrangeiras.

Humam Hamoodi, líder do Conselho Supremo Islâmico do Iraque, disse: "Eles não são mais o ovo na balança", usando um velho provérbio árabe que se refere ao item que faz a balança virar. Hamoodi, que é chefe do comitê internacional do Parlamento, acrescentou: "Os curdos não são tão poderosos."

Analistas independentes, em grande parte, defendem essa afirmativa. "Há forte sentimento que os curdos exageraram na mão", disse Joost Hiltermann, analista do Oriente Médio do Grupo de Crise Internacional com base em Istambul que acompanha de perto os eventos no Iraque.

"Os curdos têm em vista a independência no longo prazo e queriam usar a atual janela para aumentar seu território e os poderes que exercem dentro dele", acrescentou. "Saíram-se bem com os poderes, mas não tão bem nos territórios. Agora enfrentam verdadeiras restrições.

A briga ameaça minar muito do que os curdos alcançaram em influência política e até a superar, ao menos temporariamente, a divisão bem mais profunda e sangrenta entre sunitas e xiitas.

Ajudando unir sunitas e xiitas, o exagero curdo fortaleceu Al Maliki, apesar das dúvidas amplas sobre sua capacidade de governar efetivamente. As tensões podem até convencer o governo central a adiar ainda mais um referendo já atrasado sobre o futuro de Kirkuk. Os líderes curdos trabalharam duro para garantir vitória no referendo, ao ponto de instarem os curdos a se mudarem para lá para aumentar a votação curda.

"O governo recebeu muito apoio quando foi contra as demandas exageradas dos curdos", disse Jaber Habeeb, membro xiita independente do Parlamento que também é professor de ciências políticas na Universidade de Bagdá. Mas, para capitalizar este apoio, que é quase certamente temporário, disse ele, o governo deve agir rapidamente para melhorar a eletricidade, água e outros serviços básicos.

Os curdos estiveram presos em uma luta por poder de décadas com sunitas, mais recentemente com Saddam Hussein. Isso levou o governo de Saddam à campanha de Anfla, na qual cerca de 180.000 curdos morreram e 2.000 aldeias curdas foram destruídas, de acordo com relatos curdos.

Os EUA e seus aliados criaram uma zona proibida para vôos sobre áreas curdas após a primeira guerra do Golfo. As áreas, desde então, se tornaram cada vez mais afluentes. Enquanto grande parte do Iraque estava envolvida em violência desde 2003, o Curdistão ficou em notável paz, com fluxo de investimento estrangeiro e um boom de construção em sua maior cidade, Erbil. Neste cenário, a aspiração curda de acrescentar mais territórios, inclusive Kirkuk, em sua região semi-autônoma dá a impressão de ambição para aos árabes.

Em um sinal de seu desgosto, o Parlamento recusou-se a aprovar um novo orçamento porque concede aos curdos 17% da receita total, o que muitos representantes dizem ser mais do que sua parte baseada em população. Como o Iraque não faz um censo há décadas, é impossível saber o verdadeiro tamanho da população curda. Alguns líderes curdos dizem que pode ser até de 23%; alguns árabes dizem que é de apenas 13%.

Acredita-se também que os curdos coletam milhões de dólares em tarifas alfandegárias na entrada de bens no país, mas não mandam o dinheiro para Bagdá ou não informam os dados, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

Membros do Parlamento também ficaram irritados com o pedido dos curdos para que Bagdá pague os salários de sua milícia, a pesh merga, com o orçamento do Ministério de Defesa. A pesh merga, uma força de cerca de 100 mil homens, opera principalmente no Curdistão, em vez de servir ao país como um todo.

Entretanto, os curdos alegam que, no evento de uma invasão, eles estariam na linha de frente. Tal cenário parece real demais aos curdos, já que a Turquia ameaçou invadir a região para caçar o rebelde Partido dos Trabalhadores do Curdistão. Os rebeldes vêm fazendo ataques do outro lado da fronteira, em território turco.

Talvez o mais irritante para os árabes iraquianos seja os curdos terem se recusado a voltar atrás nos contratos de exploração de petróleo que assinaram com firmas estrangeiras, que os árabes dizem violar a lei iraquiana. Os árabes vêem o governo central como a única entidade com poder para aprovar contratos, apesar de consultar-se com as regiões onde o petróleo está.

Os curdos argumentam que o governo central vem se demorando em aprovar uma lei de petróleo e que não podem adiar a exploração e o desenvolvimento ainda mais, diz Ros Shawees, ex-vice-presidente do Iraque e representante de Massoud Barzani em Bagdá, presidente do governo regional semi-autônomo do Curdistão.

Saddam recusou-se a permitir qualquer desenvolvimento de petróleo em solo curdo para garantir que os curdos nunca voltassem a ter meios financeiros de lutar pela independência.

Os curdos admitem que estão preocupados com a oposição que vem se desenvolvendo, apesar de relutarem em admitir que exageraram. "É necessário manter esses sentimentos ao mínimo", disse Shawees. "Temos que trabalhar em diferentes áreas para mostrar que a região curda não apenas faz demandas e tira as coisas, mas que é um exemplo para todas as regiões e pode beneficiar todo o Iraque."

Por enquanto, entretanto, o orçamento ainda não foi aprovado, a lei de petróleo e de divisão da receita estão no limbo e há uma nova rachadura clara na cena política iraquiana. Deborah Weinberg

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