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01/02/2008

San Andrés é reivindicada por Colômbia e Nicarágua, mas busca a independência

The New York Times
Simon Romero

Em San Andrés, Colômbia
Descendo a rua em um bairro local chamado The Hill, onde reggae pode ser ouvido nas casas mal conservadas e fiéis cantam hinos em inglês na Primeira Igreja Batista, o presidente Álvaro Uribe inaugurou recentemente um hospital com um nome claramente colombiano: Amor de Patria.

Mas para os descendentes de escravos africanos que habitam o arquipélago caribenho e falam inglês, o nome pode parecer um lembrete de que devem ser leais à distante Bogotá.

Mas muitos raizais, como os habitantes que falam inglês são conhecidos, não se sentem leais nem à Colômbia e nem à Nicarágua, aliada do presidente Hugo Chávez da Venezuela, que também reivindica San Andrés em uma disputa territorial amarga. Enquanto os dois países defendem suas posições, um movimento separatista está se tornando cada vez mais forte aqui.

Scott Dalton/The New York Times 
Homem corta coco em praia de San Andrés para ser vendido a turistas

"Esta disputa está ocorrendo como se fosse um assunto abstrato em torno de atóis desabitados", disse Enrique Pusey Bent, um diretor do Movimento pela Autodeterminação Étnica Nativa do Arquipélago, que declarou simbolicamente independência em junho passado, substituindo as bandeiras da Colômbia aqui.

Mais do que distância separa os 35 mil raizais do restante da Colômbia. Eles falam um crioulo baseado no inglês assim como o inglês, escutam reggae jamaicano e calipso trinitário, rezam principalmente em igrejas protestantes e consideram irmãos os moradores dos enclaves próximos de língua inglesa como a Costa do Mosquito na Nicarágua e Bocas del Toro no Panamá.

Um paraíso para senhores de escravos e piratas ingleses desde o século 17, a província de San Andrés -esta ilha e outras próximas com populações muito menores- passou ao controle da Colômbia após a independência da Espanha nos anos 1820. Mas os raizais conseguiram se virar sozinhos por décadas até que a Colômbia reafirmou sua presença aqui há cerca de um século.

Uma política de "colombianização" se seguiu, apoiada por monges franciscanos enviados para cá para converter os raizais e forçá-los a falarem o espanhol. Migrantes do continente recebiam passagem gratuita para cá. As ilhas se tornaram um porto livre de impostos nos anos 50, estimulando a formação de uma classe de comerciantes, composta basicamente por colombianos do continente.

Hoje, o espanhol é a língua dominante aqui, e os raizais representam apenas um terço dos 100 mil habitantes.

"Entre em uma loja ou tribunal e é quase sempre o mesmo: nenhum raizal trabalha ali", disse Jairo Rodríguez Davis, um defensor da independência. "É um tipo sutil de apartheid, só que mais cruel do que o colonialismo da Espanha do qual a Colômbia se livrou."

As preocupações dos raizais raramente são mencionadas na disputa entre a Nicarágua e a Colômbia. O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, criticou na terça-feira as patrulhas navais colombianas em torno de San Andrés, dizendo que se queixaria à ONU por importunarem os pescadores nicaragüenses.

A Colômbia venceu uma rodada da disputa em dezembro, quando a Corte Internacional de Justiça determinou que um tratado de 1928 que lhe concedia o arquipélago era válido.

Mas a Nicarágua também celebrou a decisão da corte de permitir a continuidade do processo envolvendo sua reivindicação às águas ao redor de San Andrés, ricas em peixes e, potencialmente, petróleo. A Nicarágua argumenta que os Estados Unidos a pressionaram militarmente a assinar o tratado de 1928, o que o anula.

Diante da reivindicação da Nicarágua, Uribe enviou mais de 1.200 soldados para marcharem aqui em julho, em uma comemoração da independência da Colômbia. Mas defensores dos raizais disseram que a parada militar também visava sufocar a conversa sobre rebelião.

As autoridades colombianas insistem que o movimento separatista permanece pequeno e que os raizais têm poucos motivos para buscarem a independência. O governador Pedro Gallardo Forbes, um raizal de uma família política proeminente com laços com o continente, concordou. "Eu sou acima de tudo um ilhéu, mas também sou colombiano, mais de 100%", disse Gallardo em uma entrevista em um inglês suave.

Luis Guillermo Angel, o alto conselheiro presidencial para San Andrés, disse que os raizais contam com representação no governo local, desfrutam de atendimento de saúde subsidiado e se beneficiam de um maior gasto per capita por parte do Estado do que os moradores de qualquer outra parte da Colômbia. "Nenhum colombiano possui mais privilégios que um raizal", disse Angel em uma entrevista em Bogotá.

Ainda assim, aqueles que estudam os raizais discordam de tais afirmações. "O conselheiro presidencial para San Andrés é uma espécie de vice-rei moderno que se recusa arrogantemente a reconhecer o valor da cultura raizal", disse Jaime Arocha, um antropólogo da Universidade Nacional em Bogotá. "Por que um raizal não ocupa tal posto?"

Muitos raizais dizem que os gastos do Estado aqui se concentram nas necessidades dos turistas, como o calçadão à beira-mar concluído recentemente. A uma curta distância de carro, além das mansões de propriedade de pessoas do continente, se encontra um grande aterro sanitário com o nome improvável de Jardim Mágico, onde recentemente uma dúzia de raizais procuravam por ferro-velho e alimentos descartados.

"Eu não vejo como a Nicarágua ou a Colômbia me dariam mais comida", disse Janice Bent, 43 anos, que revirava o lixo para alimentar seus quatro filhos. "Se posso sobreviver fazendo isto, eu posso sobreviver sob a independência."

Nem todos os raizais gostam da idéia de secessão. "Eu não gosto de problemas", disse Aldin Leon Robinson, 63 anos, um pintor de casas que vive de sua aposentadoria de cerca de US$ 200 por mês. "Eu não quero perder minha aposentadoria."

Ainda assim, muitos raizais gostam da disputa entre a Colômbia e a Nicarágua, mesmo que seja apenas para chamar mais atenção para a ilha.

"Nós vivemos em uma ilha isolada no Caribe, sendo obrigados a voar para Bogotá para visitar nossos irmãos a uma curta distância", disse Remo Areiza Taylor, um advogado de 36 anos. "A Colômbia bem que gostaria que o mundo se esquecesse de nós", ele disse, acrescentando: "Eles estão segurando o cabo da faca por ora".

* Jenny Carolina Gonzalez e Ivet Cruz contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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