UOL Notícias Internacional
 

02/02/2008

Disseminação do banditismo dilui benefícios de plano de paz no Quênia

The New York Times
Jeffrey Gettleman*

Nas Colinas Nandi, Quênia
A estrada de Eldoret a Kericho costumava ser uma dos percursos mais bonitos do Quênia, uma faixa de asfalto percorrendo exuberantes fazendas de chá, cana-de-açúcar e colinas verdes. Agora é um território de adolescentes empunhando machetes, alguns mascando cana, outros tropeçando de bêbados.

Na sexta-feira havia cerca de 20 barreiras em um trecho de 160 quilômetros, e em cada barricada -um poste telefônico derrubado, um toco retorcido de árvore- bandos de jovens ruidosos saltavam diante dos carros, abriam as portas à força e sacavam facas.

Suas ações não pareciam motivadas por tensão étnica, como grande parte da violência que matou mais de 800 pessoas no Quênia desde uma eleição questionada em dezembro.

Era bem mais simples que isso.

"Nos dê dinheiro", exigiu um jovem plantado desafiadoramente na estrada com um arco nas mãos e uma aljava de flechas envenenadas em suas costas.

Joao Silva/The New York Times 
Garoto diante de casa em chamas em Kericho, no Quênia

Em outras frentes, havia sinais de progresso. O governo e a oposição, que vinham culpando um ao outro pela crise na qual mergulhou o Quênia, sinalizaram pela primeira vez um plano de paz na noite de sexta-feira, para ajudar a reduzir as tensões e colocar um fim à violência.

E apesar dos temores de que o Quênia poderia explodir de novo após o assassinato de um segundo legislador da oposição na quinta-feira, não houve relatos de assassinatos em massa por vingança. As voláteis favelas que cercam Nairóbi, a capital, pareciam em paz.

Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, visitou o Quênia na sexta-feira e disse que se sentiu "encorajado pelo espírito construtivo que predominou em todas as discussões até o momento", apesar de ter dito que ainda está muito preocupado com a agitação.

"Ela levou a um nível intolerável de mortes, destruição, deslocamento e sofrimento", ele disse. "Tem que parar."

Para ajudar a conter a violência, o acordo acertado na sexta-feira estipula passos específicos para promover a paz, incluindo evitar declarações provocativas, a realização de reuniões conjuntas para promover a estabilidade e o dispersar das milícias.

Mas não ficou claro como o plano trataria do fato espinhoso de ambos os lados ainda alegarem que venceram a eleição. Também há dúvida a esta altura sobre quanto os quenianos estão seguindo seus líderes.

Longe das negociações políticas, o interior do Quênia parece estar se transformando em um território bizarro sem lei, pouco característico deste país e que mais lembra a cultura de bloqueios de estrada na Somália ou em Darfur, Sudão.

Bloqueios de estrada são um problema desde as eleições, com turbas enfurecidas exigindo ver documentos de identidade dos transeuntes para saberem suas etnias. Tais confrontos provocaram a morte de várias pessoas há poucas semanas.
VIOLÊNCIA NO QUÊNIA
Evelyn Hocstein/The New York Times
Grupo de pessoas expulsas de suas casas formam acampamento
VEJA MAIS FOTOS


Mas agora um tipo diferente de bloqueio parece estar se enraizando, um baseado mais em oportunismo do que em política. Após um jovem ter coletado uma espécie de pedágio, ele rapidamente examinou a nota e a enfiou no bolso. Em caso de haver qualquer objeção, outro adolescente armado permanecia por perto, usando farda e um elegante boina de capitão.

Os problemas do Quênia começaram no final de dezembro, quando o presidente Mwai Kibaki foi declarado vencedor de uma eleição que observadores internacionais consideraram altamente falha. Raila Odinga, o principal líder da oposição, que perdeu por pequena margem, disse que o governo manipulou a eleição, uma posição compartilhada por alguns observadores ocidentais.

Muitas pessoas aqui tendem a votar de acordo com as divisões étnicas, e esta eleição, talvez mais do que qualquer outra na história do Quênia, polarizou o país.

Kibaki é um kikuyu e Odinga é um luo, dois dos maiores grupos étnicos. No caos que estourou após a eleição contestada, os membros dos grupos étnicos que apoiavam Odinga massacraram centenas de kikuyus e os expulsaram de suas terras. Os kikuyus posteriormente se vingaram, matando luos e outros.

Durante tudo isto, Kibaki permaneceu praticamente calado, deixando os ataques à oposição a cargo de seu círculo interno de assessores. Mas na sexta-feira, ele acusou os líderes da oposição de instigarem "uma campanha de agitação civil e violência", uma declaração que parecia violar o espírito do acordo de paz.

"Há uma grande evidência que indica que a violência foi premeditada, e dirigida sistematicamente contra comunidades específicas", disse Kibaki enquanto participava de um encontro de cúpula de líderes africanos em Adis Abeba, Etiópia.

Em Kericho, uma área impressionantemente fértil onde grande parte do chá do Quênia é cultivado, jovens atacaram as colinas na sexta-feira, saqueando e incendiando dezenas de casas. Eles disseram que estavam vingando a morte de seu representante no Parlamento, David Kimutai Too, que foi morto por um policial na quinta-feira.

Autoridades da polícia rapidamente anunciaram que a morte de Too foi um "crime passional", dizendo que o policial matou sua namorada e Too por eles estarem saindo juntos às escondidas.

Mas muitos simpatizantes da oposição rejeitam isso, especialmente porque outro legislador da oposição foi morto na terça-feira em circunstâncias suspeitas. Muitos dos homens que incendiaram casas em Kericho eram kalenjin, o grupo étnico de Too, e as casas que queimaram pertenciam aos kikuyus.

As forças de segurança do Quênia estão lutando para conter isto. Na sexta-feira, um esquadrão de polícia desmontou os bloqueios de estrada ao longo da estrada entre Eldoret e Kericho, fazendo com que os jovens com arcos e flechas se dispersassem pelas plantações de chá. A polícia prendeu vários suspeitos de saquearem um caminhão incendiado que transportava peixe. Centenas de quilos de peixe parcialmente queimado estavam espalhados pela estrada.

"Veja isto", disse Joseph Mele, um comandante de polícia. "Nós estamos destruindo nossa própria economia."

Mas então Mele se animou.

"Não se preocupe -vamos cuidar disto. Diga aos turistas para voltarem", ele disse, se referindo ao êxodo de freqüentadores de safári que deixaram o Quênia devido à turbulência. "Nós os protegeremos."

* Reuben Kyama, em Nairóbi, Quênia; e Kennedy Abwao, em Adis Abeba, Etiópia, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h40

    0,21
    3,259
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h48

    -0,36
    74.329,05
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host