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02/02/2008

Krugman: John Edwards fez campanha baseado em idéias, e elas triunfaram

The New York Times
Paul Krugman
Do New York Times
Então John Edwards retirou-se da disputa pela presidência. Segundo os padrões políticos normais, a sua campanha deixou a desejar.

Mas Edwards, de uma forma bem mais intensa do que é comum na política moderna, fez uma campanha baseada em idéias. E ainda que a sua tentativa pessoal de chegar à Casa Branca tenha fracassado, as suas idéias triunfaram: ambos os candidatos que sobraram estão, em grande parte, concorrendo com uma plataforma construída por Edwards.

Para compreender a dimensão do efeito Edwards, é preciso pensar sobre aquilo que poderia ter ocorrido.

No início de 2007, parecia provável que o candidato democrata faria uma campanha cautelosa, sem idéias políticas fortes e diferentes. Foi isso, afinal, o que John Kerry fez em 2004.

Ryan Anson/AFP - 18.jan.2008 
John Edwards discursa em Nevada quando ainda era pré-candidato

Se 2008 está sendo diferente, isto se deve em grande parte a Edwards. Ele criou o hábito de apresentar ousadas propostas políticas - que foram recebidas com tal entusiasmo entre os democratas que os seus rivais viram-se mais ou menos obrigados a seguir tal exemplo.

É especialmente difícil exagerar a importância do plano de Edwards para o sistema de saúde, apresentado em fevereiro do ano passado.

Antes de o plano de Edwards ser revelado, os defensores da cobertura universal de saúde tinham dificuldade em defender as suas idéias, em parte porque estavam divididos em relação a como atingir tal meta. Alguns preconizavam um sistema do tipo "single-payer" (sistema no qual médicos, profissionais de saúde, clínicas e hospitais são pagos por um único fundo público) - também conhecido como Medicare para todos -, mas tal proposta foi descartada como sendo politicamente inviável.

Outros defendiam uma reforma baseada em seguradoras privadas, mas os defensores do single-payer, conscientes da enorme ineficiência do sistema de seguro privado, recuaram ante esta perspectiva.

Sem nenhum consenso a respeito de como promover a reforma de saúde, e com as memórias vívidas do fiasco de 1993-1994, os políticos democratas evitavam o assunto, tratando a cobertura universal como um sonho vago para um futuro distante.

Mas o plano de Edwards aparou as arestas ao proporcionar às pessoas a opção de permanecer com as seguradoras privadas e, ao mesmo tempo, deixar aberta a todos a possibilidade de usar os planos do tipo Medicare oferecidos pelo governo - uma forma de competição pública-privada que Edwards deixou claro que poderia convergir para um sistema single-payer com o passar do tempo. E ele também rompeu o tabu em relação a pedir aumentos de impostos para cobrir os custos da reforma.

Subitamente, o sistema de saúde universal tornou-se um sonho possível para o próximo governo. Nos meses que se seguiram, as campanhas rivais movimentaram-se no sentido de assegurar às bases do partido que este era um sonho que eles compartilhavam, ao imitarem o plano de Edwards. E há pouca dúvida de que se o próximo presidente conseguir de fato promover uma grande reforma de saúde, isso transformará o cenário político.

Exemplos similares, embora talvez menos drásticos, surgiram em relação a outras questões-chave. Por exemplo, Edwards abriu uma nova rota em março do ano passado ao propor um plano sério para responder à mudança climática, e agora tanto Barack Obama quanto Hillary Clinton estão oferecendo medidas para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa que são bem mais vigorosas do que as que alguém esperaria ver na mesa de discussões há não muito tempo.

Infelizmente para Edwards, a disposição dos seus rivais de imitar as suas propostas políticas tornou difícil para ele diferenciar-se como candidato. Ao mesmo tempo, os rivais contavam com recursos financeiros bem maiores e recebiam uma atenção bem maior por parte da mídia. Até mesmo o próprio editor do "New York Times" repreendeu o jornal por dar tão pouca cobertura a Edwards.

E, desta maneira, Edwards ganhou a batalha da argumentação, mas não a guerra política.

E para onde rumarão agora os apoiadores de Edwards? A verdade é que ninguém sabe.

Sim, Obama também está disputando como um "candidato da mudança". Mas ele não está oferecendo o mesmo tipo de mudança: Edwards fez sem embaraço uma campanha populista (referente a populismo no sentido norte-americano, de "próximo ao povo", e não no sentido latino-americano), enquanto Obama se apresenta como um candidato capaz de transcender o partidarismo - e, tendo em vista o elitismo econômico do Partido Republicano atual, o populismo é inevitavelmente partidário.

É verdade que Obama vem tentando trabalhar com alguns temas populistas na sua campanha, mas aparentemente ele não é tão convincente: os votos que Edwards atraiu na classe trabalhadora têm mostrado tendência de migrar para Hillary Clinton e não para Obama.

Além do mais, na medida em que esta continuar sendo uma campanha de idéias, permanece sendo verdade que, quanto à questão do sistema de saúde, o plano de Hillary Clinton é mais ou menos idêntico ao plano de Edwards. O plano de Obama, que não prevê na verdade uma cobertura universal, é consideravelmente mais fraco.

Porém, uma coisa está clara: não importa que candidato consiga a vaga democrata, a sua chance de vitória dependerá em grande parte das idéias que Edwards trouxe para a campanha.

A atração pessoal não bastará: a história mostra que os republicanos são muito eficientes quando se trata de demonizar os seus oponentes como indivíduos. Hillary Clinton já recebeu este tratamento completo, mas Obama ainda não. Mas caso ele obtenha a candidatura pelo Partido Democrata, observem como os analistas conservadores que o têm elogiado descobrirão subitamente que Obama possui profundas falhas de caráter.

No entanto, caso os democratas consigam se concentrar nas diferenças concretas em relação ao campo republicano, as pesquisas sugerem que eles contarão com uma grande vantagem. E terão que agradecer a Edwards. UOL

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