UOL Notícias Internacional
 

03/02/2008

'Ministro das Idéias' tenta colocar o futuro do Brasil em foco

The New York Times
Alexei Barrionuevo

Em Brasília
Quando Roberto Mangabeira Unger olha para o Brasil, o país em que nasceu, ele vê um "um grande caldeirão efervescente de vida, cuja característica mais saliente é sua vitalidade".

Mas Unger, um professor de direito de Harvard de 60 anos, também vê o povo brasileiro como ambivalente em relação à idéia de se tornar um grande país que "abriria um caminho único na história do mundo".

A busca para transformar "imaginação em algo possível", como ele coloca, está no coração da busca de três décadas de Unger em ser um fator na moldagem do futuro do maior país da América do Sul.

Lalo de Almeida/The New York Times 
Roberto Mangabeira Unger, professor em Harvard, é fotografado em Brasilia

Por anos Unger atuou nos bastidores da política brasileira, um aspirante a "fazedor de reis" e filósofo político, mas nunca o homem de frente de qualquer história política de sucesso.

Mas agora ele tem uma chance de mapear o futuro do Brasil de dentro do governo. Unger, que há três anos condenou o governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva como o "mais corrupto na história do Brasil", agora serve ao presidente à frente da Secretaria de Ações de Longo Prazo, um posto tratado por muitos como "ministro das idéias".

De licença de Harvard, onde leciona desde que tinha 24 anos, Unger está tentando finalmente deixar sua marca no país onde seu avô materno, Otávio Mangabeira, foi uma lenda política.

"Eu me considero um homem sem charme em um país de sedutores", ele disse em seu gabinete aqui na capital do Brasil. "Mas sou bastante tenaz e nunca desisti."

Unger atualmente chama Lula de "uma pessoa de grande magnanimidade e visão" por seu apoio, e agora diz que algumas de suas críticas foram "equivocadas ou levadas pela paixão política".

O grande desafio para Unger, conhecido por seus esforços fracassados de inclinar a política latino-americana para a esquerda com uma alternativa cuidadosamente definida para o neoliberalismo, é ajudar a mapear o caminho do desenvolvimento para o Brasil. Seu objetivo é livrar o Brasil do modelo tradicional de desenvolvimento de transferência de riqueza dos setores internacionais da economia, o que ele chama de "modelo neo-coreano", que tradicionalmente recompensa as grandes empresas com tratamento tributário favorável.

"Isto exigiria uma reconstrução institucional, e nós brasileiros não sabemos como fazer isto", ele disse. "O povo brasileiro precisaria remodelar suas instituições sem ser instigado por uma grande crise nacional, como uma guerra."

Ele vê o futuro nas pequenas empresas. Uma rápida expansão do crédito para pequenos produtores e uma rede descentralizada de centros de suporte técnico poderiam ajudar a ampliar a classe média de baixo para cima, não de cima para baixo, ele disse.

"Nós poderíamos provocar uma revolução na economia brasileira", disse Unger.

Ele teme que o Brasil cada vez mais se verá preso entre economias de baixo salário e alta produtividade. "Nós precisamos escapar deste torno com qualificação da mão-de-obra e um aumento sustentado da produtividade. O Brasil não tem futuro como uma China com menos gente."

Com mais da metade de todos os brasileiros empregados na economia informal, pagando menos ou nenhum imposto e recebendo pouco ou nenhum benefício, ele pede ao governo que reduza os onerosos impostos em folha de pagamento que desencorajam a contratação de trabalhadores menos capacitados na economia formal.

Unger também quer ajudar o governo a definir um plano econômica e ecologicamente responsável para o desenvolvimento da floresta Amazônica. Notando o recente aumento do desmatamento, Unger disse que "uma forma de ambientalismo que não esteja casada a uma estratégia econômica coerente para ocupação da Amazônia está condenada ao fracasso".

"A Amazônia não é apenas um aglomerado de árvores", ele disse. "Ela é um aglomerado de 25 milhões de habitantes. Se não criarmos oportunidades econômicas reais para eles, o resultado prático é o encorajamento de atividades econômicas desorganizadas que resultam em maior destruição da floresta."

Mas ele não alega já ter as respostas. "Esta é uma fronteira imensa da imaginação", ele disse. "O país pode reinventar a si mesmo mudando a Amazônia."

Muitos brasileiros na elite política duvidam que Unger terá sucesso em traduzir suas idéias em políticas concretas. "Unger é messiânico demais para este lugar", disse Bolívar Lamounier, um cientista político daqui.

Alguns dos principais assessores do presidente Lula vêem Unger como um coringa político, um tanto desajeitado e excêntrico. Ele fala português com sotaque claramente americano. Durante uma visita à África no ano passado ao lado do presidente, Unger podia freqüentemente ser visto entretido em "Paraíso Perdido" de Milton.

Os defensores dizem que o intelecto de Unger é de valor para Lula. "Ele apresenta idéias como se fosse uma máquina", disse Jorge Castañeda, um ex-ministro das Relações Exteriores do México e um amigo de Unger.

Política e intelecto sempre foram prezados na família Unger, que se mudou do Rio para Nova York quando Mangabeira Unger tinha 6 meses de idade. Ele se lembra, aos 8 anos, de sua mãe ler para ele "A República" de Platão, provocando uma paixão por filosofia que "nunca foi saciada". Após a morte de seu pai, um advogado americano e empresário, quando Unger tinha 11 anos, a família se mudou de volta para o Brasil.

O segundo amor de Unger era a política, que ele herdou do lado da mãe. O pai dela, Otávio Mangabeira, foi um ex-professor de astronomia que se tornou um dos mais poderosos governadores do Estado da Bahia.

Após a faculdade no Brasil, Unger voltou aos Estados Unidos em 1969 para uma pós-graduação em Harvard. Àquela altura a ditadura militar do Brasil estava se tornando violenta e Unger disse que era perigoso demais voltar. Harvard lhe ofereceu um posto de professor, e em 1976, quando ainda não tinha completado 30 anos, ele obteve estabilidade e continua sendo o único membro latino-americano do corpo docente da escola de direito.

Em Harvard ele se atirou em uma série de projetos teóricos, enquanto mantinha uma mão na política brasileira. Em meados dos anos 90, ele e Castañeda lideraram um esforço para definir uma nova alternativa para o neoliberalismo, que enfatiza o setor privado e o papel primário das forças de mercado na condução da economia.

Os homens buscaram uma abordagem que desafiava a ortodoxia laissez-faire predominante e encorajava a intervenção do Estado nos mercados financeiros. Eles comandaram um grupo que contava com líderes como Ricardo Lagos, o ex-presidente do Chile, e Vicente Fox, do México. Mas para seu desalento, disse Unger, a propostas nunca foram traduzidas em políticas.

Hoje, Unger ataca as duas visões da esquerda: a "versão populista, autoritária e nacionalista" perseguida pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e a "esquerda bem-comportada" da Europa Ocidental, que busca humanizar o modelo institucional existente por meio de política social. A alternativa à dependência do neoliberalismo na economia de mercado, acredita Unger, está não na transferência de dinheiro, mas em uma "ampliação sustentada da oportunidade", exigindo inovação e experimentação com as instituições democráticas.

Se o cargo no governo brasileiro não der certo, diz Unger, ele sempre terá o "jardim" -o refúgio seguro em Harvard, onde já escreveu 16 livros em inglês e português. De fato, enquanto trabalha em Brasília, sua família ainda vive em Cambridge, Massachusetts. Sua esposa, Tamara Lothian, uma americana, atualmente leciona direito e finanças na Universidade de Columbia. Seu filho mais velho freqüenta Harvard, e seus outros três filhos estão em internatos nos Estados Unidos.

"Uma situação como eu tinha em Harvard é como um paraíso", ele disse. "A liberdade é extraordinária. Mas há um problema com a vida em um jardim. Não é perigosa o bastante. Nada pode acontecer que realmente abale você e o faça viver."

"O bem supremo da vida é a vitalidade. E a vitalidade está sempre se esvaindo." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,63
    3,167
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,87
    65.667,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host