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03/02/2008

Nenhum corpo permanece inalterado nos preparativos para o Carnaval

The New York Times
Alexei Barrionuevo*

No Rio de Janeiro
Era o último ensaio da escola de samba Vila Isabel no famoso Sambódromo, e Natália Guimarães, a Miss Brasil 2007, se perguntava se realmente estava pronta para o Carnaval.

Ela avaliou as elétricas passistas deslizando pela avenida em saltos de 13 centímetros, com suor escorrendo por suas barrigas nuas enquanto giravam seus quadris em velocidades alucinantes ao longo de uma hora, sem um minuto de descanso.

Será que os 25 lances de escada que subia diariamente em seu hotel, as inúmeras horas de ensaio e o levantamento de pesos seriam suficientes para prepará-la para o papel da madrinha da bateria?

Lalo de Almeida/The New York Times 
Natália Guimarães participa de ensaio da escola de samba Vila Isabel em dezembro no Rio

"Eles dizem que todos os brasileiros têm algum samba no pé", disse Natália, 23 anos, natural de Minas Gerais. "Eu não tinha muito no meu. Eu sei que tenho que melhorar e estou praticando com afinco."

Ela não é a única. Mais do que nunca, é a sobrevivência do mais apto no renomado Carnaval do Rio -um esporte à toda velocidade em salto alto. Mulheres, e alguns homens, se submetem a programas intensos de treinamento com meses de antecedência. Academias em Ipanema e no Leblon oferecem programas especializados pré-Carnaval, visando colocar os membros na melhor forma do ano, e talvez de suas vidas, para a comemoração dos cinco dias pré-Quaresma.

"Para essas mulheres, o Carnaval é as Olimpíadas delas", disse César Parcias, um personal trainer da academia Proforma, no Leblon, que conta com um programa de condicionamento pré-Carnaval.

As mulheres, em particular, colocam enorme pressão sobre si mesmas para estar à altura do palco do samba e das festas e blocos que começam no sábado nesta cidade de 6 milhões de habitantes. Bronzeado é obrigatório. Algumas recorrem à cirurgia plástica para ajustes pré-Carnaval.

Mas para a maioria dos cariocas, mais nunca é suficiente quando se trata de Carnaval. Eles sentem que os olhos do mundo estão voltados para eles, e não desejam decepcionar.

Para isto, mais pele exposta está na agenda deste ano.

"Neste ano nossas fantasias são minúsculas e não há plumas para cobrir nossos traseiros", disse Lívia Candido, uma passista de 18 anos da escola de samba Vila Isabel. "Isto significa que há muita pressão para que nossos traseiros estejam em perfeita forma."

Marcelo Misailidis, um coreógrafo da Vila Isabel, disse que as exigências para estar fisicamente em forma para o Carnaval estão crescendo. À medida que as escolas de samba crescem, para assegurar que várias centenas de pessoas cheguem ao final do desfile dentro do tempo, o ritmo do samba ficou mais acelerado, ele disse. A competição no Sambódromo conta com 12 escolas, cada uma com 80 minutos para desfilar pela "avenida". As escolas são penalizadas quando estouram o tempo. Cada componente fica na avenida por até uma hora.

Júlio César da Conceição, um treinador de condicionamento físico e membro da escola de samba da Vila Isabel, estimou que durante esta hora, um componente dançando um samba frenético pode queimar até 1.200 calorias e transpirar mais de 3 litros de água em temperaturas acima de 30 graus com umidade.

Misailidis disse que lembra de quando, há não muito tempo, as pessoas que desfilavam pela avenida não eram tão fisicamente aptas. "Algumas desmaiavam na metade do percurso", ele disse. "Atualmente as pessoas estão mais informadas."

Igualmente exigentes -especialmente para os fãs de samba- são as festas de Carnaval menos formais, só que freqüentemente mais desavergonhadas, e desfiles conhecidos como blocos. Eles prosseguem por horas, freqüentemente movidos à alto consumo de bebidas. Fantasias são comuns nestas festas móveis, mas tendem a ser ainda mais minimalistas do que os trajes reveladores de plumas e lantejoulas dos desfiles das escolas de samba.

Para ficar com o corpo pronto para o Carnaval, muitos cariocas abdicam de frituras semanas antes e se alimentam de bebidas e barras energéticas, que em um número cada vez maior contêm guaraná, um planta rica em cafeína nativa da floresta Amazônica. Assim que as festas de Carnaval têm início, os foliões bebem quantidades imensas de água de coco, que supostamente possui amplas propriedades medicinais.

Priscyla Vidal, uma "musa" do bloco Bola Preta, disse que uma dieta rica em feijão preto lhe dá força para passar horas no aparelho Stairmaster. "O Carnaval é sobre vaidade, mas ele mudou", disse Vidal, 27 anos. "Ele costumava exaltar quem dançava samba melhor. Agora é sobre quem parece mais glamourosa."

Parcias, o personal trainer do Leblon, sabe disso muito bem. Na semana passada, 40 pessoas estavam em sua aula de uma hora. Eram de todas as idades, mas a maioria mulheres jovens em bodysuit. Elas pareciam totalmente concentradas, olhando à frente para o espelho, sem nunca se queixarem.

As aulas de Carnaval, realizadas cinco dias por semana, começam cinco semanas antes do evento. "Algumas pessoas chegam aqui antes do Carnaval e estão desesperadas para iniciar o treinamento após quase um ano sem nenhum", ele disse. "Algumas pessoas exageram, mas é claro que desencorajamos isso."

Como triatletas se recuperando após uma prova, os alunos de Parcias passarão seis semanas após o Carnaval em treinamentos menos intensivos, um "período de recuperação", ele disse.

Quando o exercício não é suficiente, alguns brasileiros entram na faca para aperfeiçoar sua beleza. Angela Bismarchi realizou sua 42ª cirurgia plástica na segunda-feira. Já detentora do recorde brasileiro de mais cirurgias plásticas, Bismarchi, 36 anos, realizou implante de fios de náilon em seus olhos para lhes dar um toque mais asiático, para ajudá-la a se encaixar no tema de sua escola de samba, a Porto da Pedra: o centenário da imigração japonesa ao Brasil.

Bismarchi disse em uma entrevista por telefone que marcou a operação para "estar muito mais bonita durante o Carnaval". Assim que terminar, ela disse, ela se submeterá a outra operação para remoção dos fios. "Eu voltarei a ser a Angela", ela disse.

Após o Carnaval, Natália Guimarães, que concentrou seus meses de treinamento para o Carnaval em ter um corpo "mais saudável, mais musculoso e curvilíneo" para dançar samba, transformará seu corpo novamente para retornar ao mundo da moda.

"Eu vou ter que me tornar magricela de novo", ela disse. "Estar em forma segundo os padrões de Nova York, os padrões da moda, significa ser magricela."

* Joshua Schneyer e Mery Galanternick contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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