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04/02/2008

Amor moderno: a experiência de um casamento aberto

The New York Times
Colette DeDonato
Moradora em Oregon
Em um elegante pub na nossa cidade no Noroeste, uma das mães sentadas na nossa mesa fez uma grave confissão: ela nos disse que estava tendo uma atração muito séria por um homem que não era seu marido. E essa atração a perturbava. Além de se sentir culpada, isso também a deixava insegura quanto ao status do seu casamento. Enquanto ela falava, manchas vermelhas se formaram em torno do seu pescoço.

Sendo nova na cidade e ainda mais nova nessa tradição de saídas noturnas num grupo de mulheres, eu tinha pouco a ver com o relacionamento e me senti à vontade de questioná-la sobre a possível indiscrição. Eu estava já na metade da minha segunda taça de pinot noir, de estômago praticamente vazio.

"Não parece ser muito realista ser atraída por uma única pessoa pelo resto da vida, não é?", eu disse, na esperança de deixá-la à vontade.

"Não, não parece", ela disse. "Mas o fato de continuar a buscar desculpas para encontrar-me com esse homem me leva a colocar em dúvida meus motivos."

"Quais são seus motivos?", indaguei.

Minha pergunta caiu no silêncio. Ou ela não sabia ou não conseguiu formular uma resposta. Então, todas nós rapidamente preenchemos o vazio falando de diferentes pessoas pelas quais tivemos atração: o rapaz que traz nosso leite de soja todas as manhãs, o político famoso da cidade, o alfaiate obviamente gay, o colega de faculdade de um sobrinho.

Quase todas concordamos que era ok "curtir" alguém, e até mesmo contar ao nosso parceiro ou marido (ou ao terapeuta de casais) sobre isso, num esforço de ser honesto e portanto madura, em nossos relacionamentos. A conclusão não verbalizada foi que não é certo entrar em ação quanto a isso.

Apesar da minha atitude geral de aceitação, quando se trata de uma pessoa em dúvida quanto às suas emoções mais problemáticas, eu aprendi a tratar com sensibilidade os temas associados de fidelidade e monogamia. Minha experiência diz que esse é um campo minado e ninguém, à exceção dos exibicionistas inspirados pelo programa de entrevistas do Dr. Phil e os polígamos assumidos estão preparados para falar abertamente a esse respeito.

Não pertenço a nenhum desses grupos. Mas, para ser justa, eu aposto em "poliamor"*.

Na faculdade, quando o meu então namorado - um tipo atencioso e sensível, anarquista e artista performático - anunciou que queria conhecer outras pessoas porque a monogamia era "uma construção burguesa", eu continuei com ele relutantemente, durante um ano, acreditando ter demolido o paradigma dominante, o que era o certo a fazer, do ponto de vista da contracultura.

Mas o que isso fez por mim, principalmente, foi deixar-me paranóica quanto a contrair uma doença sexualmente transmissível, apesar de praticarmos sexo seguro. Eu comecei a imaginar que cada uma das mulheres que eu encontrava no nosso círculo de amigos era aquela com a qual ele havia estado umas poucas horas antes.

Meu respeito por ele foi diminuindo, uma vez que eu encarava sua necessidade de encontrar com outras mulheres menos uma postura política do que simplesmente seu excessivo interesse pelo sexo combinado com uma falta de controle sobre seus impulsos. Acabamos nos separando e eu procurei alguém que quisesse um relacionamento à moda antiga. A sobrecarga emocional exigida pelo fato de ser "poli" era simplesmente desgastante demais, consumindo a energia da qual eu precisava para a faculdade e dois empregos. De qualquer forma, não vi nenhum benefício: os homens com os quais eu discutia a idéia ficavam simplesmente desnorteados com ela.

Mais tarde, quando encontrei o homem com o qual eu queria viver a minha vida, e começamos a falar sobre casamento, discutimos nossas preocupações com o fato de assinar algo que tinha uma taxa de fracasso de quase 50%. Nós queríamos acreditar no casamento como uma opção viável, sem sermos logrados pelas expectativas de contos de fadas em relação a ele. Conheço pessoas que se casaram três ou quatro vezes, e isso sempre me faz indagar: por que caminhar em direção ao altar, fazendo as mesmas promessas?

Historicamente, é claro, o casamento era um arranjo de negócios, com a infidelidade (pelo menos para os homens) sendo uma desculpa aceitável. Foi só a partir do século 18 que o amor conquistou credibilidade como motivo para um casamento. E agora, no século 21, o casamento deveria representar tudo tanto para o marido como para a mulher - amor, companheirismo, família e trabalho - supostamente uma resposta única para todas as necessidades emocionais e sexuais de um casal, durante 40, 50 e até mesmo 60 anos.

Céticos quanto a acreditar em promessas tão grandiosas, nós encaramos o casamento de mente aberta, sabendo que nos amávamos e confiávamos um no outro e que estávamos determinados a ser honestos, custasse o que custasse, mesmo se isso significasse admitir que poderíamos, ocasionalmente, nos sentir atraídos por outra pessoa.

A sublimação de nossos desejos mais profundos nos parecia uma receita para a obsessão e decepção. Estávamos apenas tentando ser sensatos em relação a uma instituição que sempre consideramos um tanto quanto hipócrita, e que fazia mais sentido quando a expectativa de vida era de 43 anos e quando, do ponto de vista financeiro, era preciso tomar conta das mulheres.

Portanto, anos depois de nosso casamento, quando uma boa amiga me disse que tinha atração pelo meu marido (e eu calculei que o interesse dele na carreira de fotografia dela havia evoluído mais pelo interesse de ver todas as tatuagens dela), percebi que todas as nossas teorias sobre o que torna uma parceria de vida bem sucedida estavam prestes a enfrentar seu teste prático na vida real.

Eu não me senti particularmente ameaçada por esta amiga. Confiei nela e jamais a imaginei como uma mulher pela qual meu marido me abandonaria. Na verdade, nunca pensei que me abandonaria, ponto final. Ponderei que uma vez que pudéssemos ser tão abertos um com o outro, nosso casamento realmente seria invencível. E se eu precisaria dar aos dois a permissão para "explorar seus sentimentos", isso também me daria a possibilidade de analisar os sentimentos que desenvolvi por um colega de trabalho. Todos nós daríamos pequenos passos - nada de extraordinário - e veríamos se as coisas se encaminhavam.

Mas de imediato nos vimos à frente de questões logísticas. Se meu marido estivesse fora com ela, o que eu deveria fazer? Será que eu precisava planejar para que o tempo passado com meu colega coincidisse com o tempo que ele passaria com ela? Será que eu e meu marido precisaríamos contar um para o outro todas as vezes que planejamos passar algum tempo com a outra pessoa?

Algumas regras sensatas teriam sido de grande ajuda, mas sem saber como cada um dos relacionamentos iria evoluir, não sabíamos como estabelecê-las. Parecia estranho e pretensioso negociar regras para relacionamentos e situações que eram desconhecidas e imprevisíveis. Então, quais deveriam ser os limites? Podia-se beijar? Mais que isso?
Nós sabíamos que entre as opções não estava mentir. Concordamos que mentir é o que leva a "enganar", causando sofrimento e desconfiança e provocando danos reais ao relacionamento. Mas de uma forma sensata, o quanto de verdade nós poderíamos enfrentar? Eu não tinha muita certeza do quanto que eu realmente queria saber sobre o que eles estavam fazendo.

Aconteceu que ele não precisou se preocupar comigo. Meu flerte acabou rapidamente, ante o peso do desconforto moral de meu amigo. Após alguns almoços, ele foi ficando cada vez menos tranqüilo quanto à zona cinza na qual estava entrando. Houve uma noite de sushi e coquetéis, mas era eu que estava me sentindo culpada, então decidi voltar para casa, assim meu marido não ficaria me esperando preocupado. No dia seguinte, meu colega me disse que ele não sairia mais. Seus amigos haviam dado conselhos contra essa situação e ele não queria sair machucado.

Enquanto isso, a minha boa amiga e o meu marido continuaram a se divertir tirando fotos e indo ao apartamento dela para revelá-las e continuar com o meigo namorico. Então, uma noite, quando ficou tarde demais para que eu continuasse tranqüila esperando, ele telefonou para dizer que não conseguia dar a partida na nossa perua Volvo. Eu sabia que o nosso carro era temperamental, mas não consegui escapar de uma ansiosa dúvida: será que ele estava mentindo sobre o carro, só para passar a noite com ela?

Aquilo, para mim, foi o ponto de ruptura. Não importa se ele estava dizendo a verdade. Eu duvidei dele, de qualquer forma, portanto o resultado foi o mesmo. Depois percebi que não consegui enfrentar a idéia de que os dois passassem a noite juntos, dormindo na mesma cama, mesmo em um arranjo Bert e Ernie (personagens do programa infantil "Vila Sésamo"). Minha imaginação estava à toda. Senti como se estivesse implodindo.
Mas o que eu estava esperando? Que passar a noite com ela o faria voltar correndo para mim? Essa honestidade superaria quaisquer sensações de posse ou mágoa?

Várias brigas e dez sessões de terapia mais tarde, nós agradecemos um ao outro por permitir na nossa vida esse tipo de safári romântico criativo, mas nos comprometemos a jamais fazer isso outra vez. Não estávamos entediados um com o outro. E apesar dos nossos conceitos ostensivamente progressistas a respeito de casamento, não éramos impermeáveis à vasta gama de emoções humanas - raiva, ciúme, medo de ser abandonado - que tendem a vir à tona quando cruzamos as fronteiras do amor.

Como se pode imaginar, a boa amiga e eu não continuamos boas amigas. Aquele elo era o mais fraco, como se demonstrou. Ela e eu tentamos várias vezes falar sobre o assunto na esperança de preservar a amizade, mas finalmente concordamos que uma vez que a porta ficara aberta, entraram moscas demais que acabaram com o ambiente.

Eu conheci muitas pessoas que tiveram casamentos abertos muito bem-sucedidos, e admiro suas intenções - de algumas, pelo menos. É preciso querer ir longe para embarcar nessa gangorra emocional e isso exige muita coragem. Você precisa se comprometer em explicar cada uma das normas e propostas com grande clareza e com muito detalhamento. Simplesmente não dá para passar por cima dos enunciados.

De volta ao pub, a noite das mulheres estava terminando, e eu me ofereci para acompanhar a autora da confissão até a casa dela. Não falei das minhas experiências. Em vez disso, eu perguntei qual o significado de casamento, para ela. Ela conseguiria deixar de lado as "regras" e suas expectativas o necessário para pelo menos estar bem com tudo que estava sentindo?

Ela não sabia, mas concordamos que ter uma atração por alguém traz uma dose de adrenalina muito necessária. Significa que alguém está tratando você como seu marido fazia há "taaanto" tempo; olhando nos seus olhos sem tentar saber se você lavou sua camisa favorita, ou pagou a hipoteca no prazo, ou ainda se é a sua mãe. Olhar para você sem nada além de paixão e a sensação de possibilidade.

Hoje à noite, vou tentar olhar para o meu marido dessa forma. Provavelmente ele estará assistindo um de seus programas favoritos, "Amor Imenso". E se for o caso, eu assistirei com ele e vamos rir dos mesmos diálogos. Nós adoramos rir junto. Isso nos mantém sãos.

* Nota da tradutora: "polyamory", termo utilizado para definir relações interpessoais amorosas que repudiam a monogamia como princípio. Claudia Dall'Antonia

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